"Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica "não baixa". O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz - Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí na sua frente! E que ela seja bem feita e divirta os leitores! - E o negócio sai de qualquer maneira."

Vinicius de Morais, em "Para Viver um Grande Amor"

Crônicas publicadas no "Diário de Votuporanga"

voltando

Regime

A idade do lobo

Vamos pastar?

O pai dos patos

Eternamente

Descoberto novo animal em Cardoso

Terapia Ocupacional

O Papa e a tartaruga

A máquina-da-verdade

Reclame

Chamem os bombeiros

Hipocondria

A função do cronista

Se fosse bom, ninguém dava

Aviões de papel

Nós e a Xuxa

História de uma quarta-feira de cinzas

De saias

Caminhadas

Um sonho de valsa

Juntos

Conversa franca

Viagra: Desenterrando Maristela

Quanto foi?

A luta continua

Uma gata

Atenção dona de casa

O boi

Alguém por aqui come canetas

O inventor do leite condensado merece um prêmio

Pornografia II

Gramínea monóica

Jogue o lixo no lixo

Qualidade Total

Minha filha adora cerejas

Buzinando

O dia em que o Papai Noel beijou o amigo dele na boca

O cinema cheira a tutti-frutti

Nessas horas não me aparece um para dar carona

A árvore das bolas da praça São Bento

O incrível homem de quatro olhos

O quatro olhos era uma fraude!!!

Lição de Anatomia

De que tamanho pode ficar um coqueiro?

Setenta e seis tigres

Adeus às borboletas

Receita de frango

Pára de inventar

A cura

Homo Malborus

Anos dourados o escambal

Você sabia que já pode escolher o sexo do seu filho?

Imortal

A gente sabe o filho que tem

Tudo isso sem sair de casa

Pedro

Competir o escambal

Túneis escuros e carimbos

Desejo de criança

O 6.000.000.000º habitante da Terra

Talidomida

Hasta la vista, baby

Mora na filosofia

Cuspir para cima

O cheiro do ano 2000

MINI-CONTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Regime

15 de janeiro de 2000

Minha mulher chegou pisando duro. Entrou em casa escandalosamente e, sem olhar para trás, bateu a porta num estrondo. Foi direto para o quarto.

Eu nem me levantei do sofá. Não é bom se intrometer com as mulheres quando elas estão assim. Passados uns dez minutos, a curiosidade venceu. Eu me levantei e fui até o quarto, para ver o que era. Lá estava minha mulher, vestindo uma roupinha colante, que já foi de baile e hoje é usada só nos nossos finais de semana, no rancho.

Ela estava de perfil, em frente ao espelho do armário.

- Você acha que eu estou gorda, querido?

Uma coisa que eu aprendi nesses quinze anos de casado é que, em hipótese alguma, você pode falar que sua esposa engordou. Fale qualquer outra coisa. Desconverse. Comente sobre o tempo. Fale sobre futebol. Mas nunca, absolutamente nunca, responda sim quando ela perguntar se engordou.

- E se a gente fosse ao cinema?

- Você não me respondeu. Eu perguntei se você acha que eu engordei.

- Acho que ainda está passando "Xuxa Requebra".

- Eu estou uma baleia, não estou?

- No outro está passando um filme do Renato Aragão. Você prefere?

Aí ela começou a choramingar. Eu me abracei nela. Comentei que ninguém liga para isso. Depois de tanto tempo juntos, o que um quilinho a mais ou a menos significa?

Foi como o rompimento da barreira de uma usina hidrelétrica. Chorou como criança.

Mas - e essa foi uma das razões de eu ter me casado com ela - minha companheira é uma mulher decidida. Já no dia seguinte, chegava em casa com um regime sensacional, que ela tinha conseguido não sei onde. Resume-se mais ou menos no seguinte: você come e bebe o que quiser durante cinco dias da semana - só dando uma regulada nos refrigerantes - e, nos dois dias restantes, você só ingere leite e maçãs, também na quantidade que bem entender.

Minha esposa chamou a empregada lá de casa (ou secretária, como parece ser moda chamar) e avisou que não precisava mais fazer almoço às segundas e quintas-feiras, dias escolhidos para serem os "Dias das Maçãs e do Leite". A moça até que gostou da idéia. Além de não precisar cozinhar, também estava precisando perder uns quilinhos, adquiridos nas festas de final de ano. Resolveu aderir ao regime.

Sei que, desde o começo de janeiro, todos lá em casa, em dois dias da semana, só comemos maçãs e bebemos leite. Sem açúcar. Parecia fácil.

No primeiro dia, até que correu tudo bem. Levamos na brincadeira.

- E aí? Está conseguindo?

- Mas não pode nem café?

- Não pode.

- Não pode.

Agora, já se vão lá três semanas, a coisa parece que está piorando. Outro dia desses, a empregada envesgou os olhos e bambeou as pernas. Achei que ia desmaiar. Demos uma abanada, oferecemos um copo de leite. Ela fez cara de nojo. Não bebeu, mas deu uma reanimada e pediu para ir embora mais cedo. Eu não sei, mas aposto que ela parou no primeiro boteco e comeu uma bola de carne ou uma coxinha. Ou os dois.

Eu mesmo, não vou mentir, já estou ficando meio nervoso. Quinta-feira passada, estava caminhando para o emprego quando passei por um desses sorveteiros, de carrinho de empurrar. Fiquei olhando, olhando. Eu ainda não tinha comido nada no dia. Também ando com uma certa ojeriza por leite e por maçãs.

O sorveteiro percebeu que eu não tirava o olho dele. Se aproximou e perguntou:

- Vai um sorvete?

- Hum... Eu... não sei... Ah, que se dane! Vê um de limão. Melhor ainda: de tamarindo.

- Desculpa. De fruta acabou. Só tem de LEITE.

Eu não vou dizer aqui o que eu mandei o sorveteiro fazer com o sorvete de leite dele. Mas eu te falo uma coisa: ele nunca mais vai deixar faltar sorvete de frutas no carrinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A idade do lobo

10 de fevereiro de 2000

Acordou com o peito apertado. Sabe quando a gente acorda com o peito apertado? Uma agonia que a gente não sabe bem de onde vem? Então. Se levantou da cama e foi direto para o banheiro. Dava sempre um beijo na esposa antes de se levantar. Naquele dia não deu.

- O que foi, querido? - ouviu a esposa gritar do quarto.

- Nada - resmungou.

- O QUÊ??

- NADA!!!

Que coisa... Será que tem de beijar todos os dias? Jogou água no rosto e se olhou no espelho. Pêlos no nariz. Nunca teve pêlos no nariz. Se lembrou do tio Nino, velho italiano, irmão da avó. Impressionava pela quantidade de pêlos no nariz. E nos ouvidos.

Dizem que conforme vamos ficando velhos, os pêlos no nariz e nos ouvidos aumentam na mesma proporção em que diminuem os cabelos. Pois o tio Nino era careca. E os pêlos que lhe saíam das narinas e das orelhas eram como... como... de um lobo. Corria na família, inclusive, uma lenda de que eram mesmo. O tio se transformava em lobisomem nas tais noites de lua cheia. É claro que eram histórias contadas para assustar as crianças, e foi exatamente o que aconteceu. Ficou com aquilo na cabeça para o resto da vida.

E agora quem estava se transformando em lobisomem era ele. Ali, a olhos vistos. Na frente do espelho. Pêlos saindo pelo ouvido, pelas narinas e, reparando melhor, os das sobrancelhas também estavam meio desarranjados.

Não era uma transformação como nos filmes, rápida. Era uma mutação que, provavelmente, iria demorar um pouco mais. Talvez uns anos. Mas que, nesse ritmo, acabaria se transformando num lobisomem, isso não restava dúvidas.

- Querida! Sabe onde é que tem uma tesoura?

- O QUÊ? - a esposa gritou do quarto.

- UMA TESOURA!!!

Silêncio. Ouviu a esposa se aproximando pelo corredor.

- O que foi, meu bem?

- Uma tesoura. Sabe onde é que tem uma tesoura?

- Pra quê que você quer uma tesoura?

Ele olhou para a esposa. Porque será que as esposas querem saber de tudo?

- Os pêlos. Do nariz. Eu quero cortar.

- Deixa os pêlos aí. Se ficar cortando, crescem mais fortes.

- Olha. Eu não pedi uma opinião. Pedi uma tesoura.

- Ííííííííííííííííííí... Está naqueles dias...

A mulher saiu de perto, desanimada. O marido andava esquisito já fazia uns dias. Deprimido. Acho que era a idade. Os homens, quando começam a se aproximar dos quarenta, entram em pane. Já não conseguirão ser os gerentes da empresa. Quando não perdem o emprego, já se dão por felizes. Os filhos saem de casa e deixam os pais sozinhos, nas noites de sábado. Os maridos se sentem na obrigação de, como direi, mostrar serviço. E o serviço já não é mais o mesmo de vinte anos atrás, evidentemente.

Os homens começam a se tornar uns resmungões. Começam a comprar shampoos contra queda de cabelo. Outros começam a andar com camisetas estampadas.

Encontrou, enfim, uma tesoura. Na gaveta de costura. Conforme voltava para o banheiro, vinha se lembrando de quando conheceu o marido. Era tão romântico. Todos os dias trazia uma flor para casa. Ia se aproximando da porta e já dava para ouvir os resmungos. Coitado. Não devia ser fácil para ele ficar velho. Era tão bonito aos vinte anos...

Chegou. A porta do banheiro estava fechada. Foi abrindo devagarinho.

- Querido? Querid... AHHHHHHHH!!!!

Num salto, o lobo pulou por cima da mulher.

Deu uma última olhada para trás. E fugiu pela janela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos pastar?

12 de fevereiro de 2000

O calendário dos rodeios que se realizam anualmente em Araçatuba, conhecida como "terra do boi gordo", está sendo ameaçado por uma ação judicial movida pelo Ministério Público, que proíbe a realização de eventos envolvendo maus tratos em animais.

Eu nunca achei muita graça naquilo mesmo, não vou sentir a mínima falta. Mas tem gente que gosta. Eu tinha um amigo, por exemplo, que adorava. Ele era açougueiro.

Quando tinha Exposição na cidade, não perdia uma das provas. Os cavalos e os bois pulando e derrubando os caras. Ele delirava. Levava o filho, bem pequeno na época. Uns seis anos. Se sentavam na arquibancada uma ou duas horas antes de começar o rodeio, para pegar lugar melhor, e só saiam depois da famosa poeira assentar.

Bem. Um dia, um dos peões caiu de mau jeito e desmaiou. Ficou lá, esparramado no chão, até chegar alguém com uma maca e tirar ele de lá. O filho do açougueiro perguntou:

- Ô pai, o que é que aconteceu?

- O peão, filho. Se machucou.

- Mas como, machucou? Não é tudo brincadeira?

- Como brincadeira?

- Brincadeira, ué... Os bois não são treinados? Que nem no circo?

- Não filho... Ali é caiu, quebrou...

O menino arregalou os olhos.

Passou mais um pouco, um dos touros começou a sangrar, depois de ser esporeado entusiasticamente por outro cowboy. O menino só aguentou mais uns quinze minutos sentado. Pediu para ir embora.

- Mas... por quê, filho?

- A gente vai ficar aqui sem fazer nada, vendo os bois e os caras se machucarem? Eu quero ir embora...

O açougueiro nunca mais foi num rodeio. As palavras do filho devem ter marcado tanto que mudou até de profissão. Virou eletricista eu acho, mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que esse negócio de rodeios e touradas, é uma coisa meio besta. E além do mais, uma besteira importada. É coisa de espanhol e de americano. Não sei se tem muito a ver com a gente.

Tanto não tem que, no Brasil, inventaram o Bumba-meu-boi, que é mais ou menos a mesma coisa, só que de mentirinha, como preferia o filho do açougueiro. Um cara se veste de boi e finge que ataca. O outro finge que é toureiro. Ficam ali, brincando de tourada, até a platéia enjoar. Aí, um finge que mata o boi. No fim, todo mundo agradece o público e vão lá, o boi e o toureiro, tomar uma cervejinha no bar da esquina.

Mesmo quem gosta de ver aquele sangue todo jorrar dos bois quando são espetados nas touradas tem de concordar comigo que o Bumba-meu-boi é uma coisa muito mais civilizada. E nesses nossos tempos de realidade virtual, não vejo a mínima razão para continuar a machucar os animais, a não ser por motivos de um bom filé ao molho madeira.

Já existe muita violência por aí para promovermos mais algumas, só pelo prazer de demonstrar nossa superioridade frente aos outros animais. Porque um rodeio não passa disso. Uma disputa idiota para provar que o ser humano é superior a um ruminante.

Aliás, acho que nem disputa é. Seria disputa se o boi também estivesse competindo, mas o boi, eu te garanto, não está nem aí para quem ganhou ou perdeu. Ele só quer mesmo é sair vivo dali.

Pode perguntar pro boi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os pais dos patos

15 de fevereiro de 2000

Desde a mais tenra idade, uma terrível dúvida aflige meus pensamentos: quem são os pais do Huguinho, do Zézinho e do Luisinho?

Pode até parecer uma coisa sem importância para você, mas para mim talvez seja a diferença entre a salvação ou o castigo eterno.

Fui criado em um apartamento. Era uma apartamento grande se compararmos com as kitnets atuais, mas não deixava de ser um apartamento. E uma das únicas maneiras dos pais manterem seus rebentos razoavelmente calmos num apartamento era chuchando-lhes incontáveis gibis.

A TV já existia sim, mas era uma coisa diferente. Não ficava ligada o dia inteiro, como fica hoje. Normalmente era acionada só depois da janta, para que os pais conferissem o jornal e as mães, suas novelas.

Durante o dia, as crianças se viravam mesmo era com os gibis. Aqui em Votuporanga, me disseram, havia sessões de troca em frente ao cinema. Já em Campinas, onde nasci, as crianças apenas colecionavam. Acumulávamos imensas pilhas de gibis, e ai de quem chegasse perto deles. Nosso prazer não se resumia em apenas ler, mas em ter mais gibis que os outros. Como se pode observar, o capitalismo atingia as crianças de grandes centros de maneira um pouco mais traumática.

Bem. Sei que, enquanto por aqui as crianças ficavam andando de bicicleta no jardim, em Campinas eu ficava trancado no meu quarto. Lendo gibis.

Não posso dizer que foi ruim. Até hoje gosto de histórias em quadrinhos e ainda guardo uma imensa coleção, que minha mulher vive pedindo para eu jogar fora. "Um ninho de baratas", ela diz.

O que ela não entende é que foi desse ninho de baratas que tirei minhas primeiras impressões sobre o mundo. Lições, até hoje, não muito bem compreendidas. Uma das maiores dúvidas é aquela, com a qual iniciei a crônica: onde diabos se meteram os pais dos sobrinhos do Pato Donald?

São órfãos, os pobres patinhos? E o Tio Patinhas? Se é tio, é irmão da mãe de alguém, não é? Ou do pai. E cadê esses irmãos? E o pai do Pato Donald? Por onde anda?

Tem também a Vovó Donalda. É irmã do Tio Patinhas? Ou o quê, então? E se são irmãos, onde estão os pais? Ninguém tem pai nessa história?

Porque, você pode dar uma olhada. O Cebolinha. A Mônica. O Cascão. Todos eles têm pai e mãe. Mas os personagens Disney não. Um bando de animais órfãos que vivem numa tremenda promiscuidade. São cachorros andando com ratos e patos. Porquinhos chafurdando num pesadelo incestuoso. Bois, cavalos e, vejam bem, VACAS!!! Sim, vacas, a maioria com suas tetas pendendo sensualmente à vista de todos - e isso tudo muito antes de liberarem o topless.

Sei que, se aliarmos essa esculhambação toda do Walt Disney à rígida educação católica que recebi, não se poderia esperar mesmo nada de muito proveitoso. São coisas muito antagônicas: a igreja pregando a importância de uma vida familiar saudável e os quadrinhos nessa geléia geral. Não há cabeça de criança que consiga conciliar essas duas visões de mundo sem entrar em conflito.

Bem fazem algumas igrejas que proíbem seus seguidores de lerem histórias em quadrinhos, ouvirem rock’n roll e até mesmo de tomarem Coca-Cola.

São coisas do demônio, evidentemente. Só não vê quem não quer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eternamente

19 de fevereiro de 2000

Você pode até não acreditar, mas alguns cientistas americanos acabaram de descobrir a causa do envelhecimento dos animais. E, pode esperar: agora que descobriram a causa, para inventarem a cura é um passo.

O estudo foi publicado num artigo da revista científica "Nature", de quinta-feira passada. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts alguns pesquisadores, meio sem querer, toparam com a proteína SIR-2 que, segundo eles, rege a duração da vida. Já fizeram, inclusive, alguns experimentos com ratos, vermes e moscas, conseguindo aumentar um bocado o tempo de vida dos espécimes.

Bem, o homem não é tão diferente assim desses animais. Observando por certos ângulos, é até muito parecido. E, se deu certo com eles, não vai demorar muito para dar certo com a gente também.

Isso quer dizer, meu caro, que provavelmente nossos bisnetos - ou, vá lá, os bisnetos deles - vão ter uma vida tão longa quanto Ponce de Leon sonhou ter. Ou seja: alcançarão a eternidade.

Ponce de Leon, para quem não sabe, foi aquele espanhol maluco que embrenhou-se nas selvas americanas (das Américas, não dos EUA) em busca da fonte da juventude, e que acabou tendo uma vida ainda mais curta do que a da maioria dos seus contemporâneos. Morreu de febre amarela ou alguma outra dessas doenças que até hoje ainda infestam nossos trópicos. Mesmo assim, a fantasia de Ponce de Leon me consolou muitas madrugadas na infância, quando, debaixo das cobertas, eu começava a pensar sobre a morte.

A morte é, talvez, nosso primeiro medo real. Os pais não dão muita importância a esses temores enquanto eles se restringem ao escuro, aos fantasmas e aos monstros debaixo da cama. Consolam as crianças mas, no fundo, riem. Agora, quando o filho chega e diz que está com medo de morrer, a coisa muda de figura. Os pais não conseguem consolá-los porque também têm medo. E provavelmente têm até mais que os próprios filhos pois, pressupõe-se, restam-lhes ainda menos tempo de vida. O pavor da morte rondará as nossas madrugadas mesmo quando nos tornamos avós. É uma espécie de pesadelo coletivo da raça humana.

Certo. Um sabadão desses. Um dia gostoso. Todo mundo com planos para pescarias ou para a boate à noite. E o estraga prazer aqui com esse papo funesto sobre a morte.

Mas dessa vez você está enganado. Eu não estou falando da morte. Não sei se você lembra, mas eu estava falando da descoberta da cura da morte, pelos cientistas americanos. Estamos falando aqui da eternidade.

E é aí que eu pergunto: e quem é que quer viver para sempre?

Pare um pouco o que está fazendo e pense na possibilidade de você sobreviver a tudo. Aos dias. Às semanas. Aos séculos. Ao trânsito da rua Amazonas. A tudo. De repente, você não vai mais morrer. Mesmo que queira. É uma idéia assustadora.

Eu, pelo menos, não sei se quero viver para sempre. Está certo que também não quero morrer amanhã, mas "para sempre" é um termo um tanto quanto radical demais.

Andei perguntando por aí, para ver se era só eu, mas não é não. Ninguém quer a eternidade. Excluindo um colega de serviço, que é um daqueles chatos insistentes, todo mundo para quem eu perguntei disse que não pretendia viver mais que setenta anos. Alguns, nem setenta. Contentam-se com seus cinquenta, cinquenta e cinco. Até menos.

E estão certos. Imaginem só ter que aguentar a programação de sábado à tarde na TV, por toda a eternidade. Não sei de vocês. Eu prefiro a morte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Descoberto novo animal em Cardoso

26 de fevereiro de 2000

A Polícia Florestal de Cardoso descobriu, na última quinta-feira, uma nova espécie de reptil que, aparentemente, só pode ser encontrado em nossa região. Alguns exemplares já foram enviados para a Universidade de Princetton (EUA) para eventual catalogação.

Após receber um telefonema do caseiro da Fazenda Mirante, propriedade da família Lemos, de Votuporanga, o capitão Silviano Martins dirigiu-se até a estância, situada à beira de um dos lagos represados de Cardoso.

Chegando lá, foi informado que as águas do "Marinheirinho" estavam subindo a níveis alarmantes, colocando em risco, inclusive, a sede da fazenda, uma mansão de dois andares construída no século passado.

O capitão e sua equipe, imaginando tratar-se apenas de algum ajuste nas comportas da usina de Ilha Solteira, só decidiram averiguar o local após a insistência do caseiro, que dizia que as águas jamais haviam ultrapassado a distância de cem metros das construções e agora já estavam quase invadindo a varanda da mansão principal.

Seguindo ordens do Capitão Silviano, os cabos Silvio Andrade e Mateus Peregrini subiram a pé pelas margens da represa, enquanto o próprio capitão mais o soldado Régis seguiram de barco pela água.

Após meia hora de caminhada, o cabo Silvio, às margens do rio, comentou com seu companheiro que já não conseguia ouvir o motor da embarcação do capitão. Subiu numa árvore e, munido de um binóculo, iniciou minuciosa busca. Passados alguns minutos, percebeu alguma coisa boiando na margem oposta.

Eram os restos do barco da Polícia Florestal. Aparentemente, a pequena embarcação de alumínio havia se chocado contra uma formação rochosa e se partido. Junto aos destroços, foram encontradas duas mochilas de primeiros socorros e uma lanterna com o emblema da corporação. Não havia, no entanto, nenhum vestígio do capitão Silviano ou do soldado Régis.

Os cabos Silvio e Mateus retornaram então à sede da fazenda e, a partir da viatura, entraram em contato via rádio com seus superiores, pedindo instruções.

Imediatamente foi acionado um helicóptero que, partindo de Rio Preto, em apenas quarenta minutos já estava sobrevoando o local.

Após cerca de duas horas de busca, e já quase ao fim do combustível, o capitão José Stuppiello, piloto do helicóptero, informou aos policiais em terra que havia detectado uma coloração incomum na corrente da água, a cerca de três quilômetros do local onde foram encontrados os restos do barco.

Imediatamente, todo o contingente terrestre, que naquele momento já era constituído de mais de trinta homens, partiu para a região apontada pelo helicóptero. Lá chegando, houve confirmação das informações. As águas, que no local normalmente têm a coloração esverdeada devido à ação de algas, em determinado trecho assumia estranhos tons avermelhados. Alguns mergulhadores já se preparavam para uma incursão quando foi avistado o primeiro de muitos animais que começariam a sair do rio.

Totalmente desconhecidos, tinham o tamanho e a aparência de um jacaré de médio porte, possuindo, no entanto, uma espécie de casco, semelhante ao das tartarugas-marinhas, e com tonalidades que variavam entre o vermelho e o amarelo-ouro.

Assustados com o número de criaturas que surgiam das águas, alguns policiais sacaram de suas armas e haveria um verdadeiro massacre, não fosse o sangue-frio do capitão e piloto José Stuppiello.

Substituindo a munição normal por anestésicos, o capitão e seus subordinados conseguiram aprisionar dezenas de espécimes vivos. A maioria deles se encontra agora numa lagoa situada na cidade de Cardoso, gentilmente cedida pela prefeitura, e é motivo de curiosidade por parte de toda população. O restante foi enviado para universidades e entidades científicas.

Ao cabo de toda operação, só houve necessidade do sacrifício de um dos animais.

Ainda às margens do rio, o capitão José Stuppiello percebeu que um dos espécimes capturados estava tendo estranhas convulsões. Diante do olhar atônito da corporação, o mesmo homem responsável pela sobrevivência de toda espécie, munido apenas de uma faca, atracou-se com o animal, retalhando-o em questões de minutos. A seguir, o capitão Stuppiello introduziu as mãos nas entranhas ensanguentadas do bicho e, para surpresa geral, puxou lá de dentro dois grandes volumes.

Eram o soldado Régis e o capitão Silviano. Inacreditavelmente vivos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terapia ocupacional

21 de março de 2000

Minha mulher, volta e meia, aparece com uma novidade. Ela sempre foi assim, desde solteira. Uma dessas novidades, inclusive, fui eu - e o meu sogro até hoje ainda não se recompôs da surpresa.

Bem. A última mania dela é uma tal de Cromoterapia. Está fazendo um curso, pensando talvez em se profissionalizar. Quando ela encasqueta com uma coisa, gosta de ir fundo. Já fez uma porção desses cursos que misturam um pouco de misticismo com ciência. Ela chega um dia em casa e, como quem não quer nada, pergunta - Amor, você já ouviu falar da energia dos cristais? - e aí, pode se preparar: nas semanas seguintes, a casa se encherá de cristais energizantes e pedras filosofais.

Dessa vez, era a Cromoterapia.

- Amor, você já ouviu falar em Cromoterapia?

- Cromo-o-quê?

- Cromoterapia. A terapia através das cores. Deixa eu explicar... Cada cor influencia o ser humano de um jeito. E nós podemos mudar a maneira de ser, assim, só mudando a cor de nossas roupas. Ou de nossas casas. Entende?

- Entendo.

Na semana seguinte, já comecei encontrar rastros da tal Cromoterapia pela casa. Abria o armarinho do banheiro, para pegar a escova de dentes, e onde é que estava minha escova de dentes?

- É essa aí, vermelhinha. Eu comprei uma nova.

- Mas...aquela amarela estava novinha...

- É que a cor vermelha ajuda a combater as infecções.

Pouco a pouco, minha casa foi mudando. Um dia, uma cortina azul.

- É pra gente se acalmar um pouco.

- Mas quem é que está nervoso? Eu não estou nervoso.

- Está sim.

- Não estou não.

- Está sim.

- NÃO ESTOU NÃO!

No outro dia, a mesa do almoço estava lilás.

- Mas uma mesa lilás? Eu não consigo almoçar com essa coisa lilás embaixo do meu prato.

- É porque você não está equilibrado. O lilás vai equilibrar você.

- Eu não quero me equilibrar. Estou muito bem assim, desequilibrado. Porque é que eu vou querer me equilibrar agora?

Quando dei por mim, eu estava morando numa espécie de arco-íris. Cadeiras listradas de vermelho e jasmim. Lustres alaranjados. Os copos antigos sumiram da cristaleira, dando lugar a copos cor-de-rosa. Os pratos, cinzas.

- Mas cinza não é cor.

- É sim. O cinza ajuda na percepção dos sabores.

- Mas a comida fica com cara de morta.

- É porque a comida está morta. Ou você quer comer a coisa viva?

O ambiente em casa foi piorando. Os diálogos, cada vez mais ríspidos.

- Eu não vou sair com você vestida desse jeito.

- Mas o que é que você tem contra um vestido vermelho e amarelo?

- Isso nem parece um vestido... Parece a...a...bandeira da Espanha.

- E quem é que disse que a bandeira da Espanha é amarela e vermelha?

- Eu sei, ué..

- Sabe nada.

- Sei sim.

- Não sabe.

Mas, do mesmo jeito que as manias de minha mulher começam, terminam. Um dia cheguei em casa e tudo tinha voltado ao normal. Até minha escova de dentes, a amarelinha, estava lá, de volta. As cortinas, as mesas. Tudo com suas respectivas cores normais. Fui para o quarto, e lá estavam os lençóis. Brancos de novo. Só não conseguia encontrar a minha mulher.

Fui encontrá-la lá no fundo da casa, no jardim. Cavoucando a terra. Olhou para mim e sorriu:

- Você já ouviu falar nos Florais de Bach?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Papa e a tartaruga

25 de março de 2000

O final de mandato do papa João Paulo II (papa tem mandato?) ficará marcado na história por seus pedidos de desculpas pelos erros da igreja católica no passado.

Em 1992 o Papa já havia admitido que Galileu estava certo ao afirmar que era a Terra que girava em torno do sol, e não o sol em torno da Terra, como a igreja acreditava. O Papa pediu desculpas ao Galileu, ao Kepler e a uns outros que quase foram queimados na fogueira (alguns foram mesmo) por defenderem idéias tão absurdas.

Desde esse primeiro "mea culpa", o Papa não parou mais. Outro dia, pediu desculpas pela inquisição. Agora, aproveitando uma visita a Israel, parece que anda tentando se desculpar com os judeus pelo silêncio do Vaticano à época do Holocausto.

Devíamos todos seguir tão ilustre exemplo e começar a pedir nossas desculpas.

Não, amigo leitor. Não adianta fazer essa cara de quem não tem culpa de nada. É claro que tem, a sua memória é que anda fraca. Mas também não precisa ficar assim, tão chateado. Todos nós somos culpados de alguma coisa, só que a maioria de nossas culpas são coisinhas bobas, que só interessam à gente mesmo.

Eu, por exemplo, também tenho cá os meus tormentos. E um dos maiores é a lembrança de uma tartaruguinha que tive quando criança.

Eu morava em um apartamento, em Campinas. Meus irmãos e eu sempre quisemos ter um animalzinho de estimação, e cachorros e gatos eram proibidos no condomínio. Um belo dia, meu pai chegou em casa com uma surpresa. Era a tal da tartaruga.

Era dessas pequenininhas, que não passam do tamanho de um mouse de computador. São chamadas de tartarugas-de-aquário.

Só que a nossa veio sem aquário. Precisávamos arrumar urgentemente um habitat para o pequeno reptil (tartaruga é reptil? ou é anfíbio?).

Tentamos alojá-la em diversos compartimentos. Uma máquina de lavar quebrada. Uma bacia, onde eram lavados nossos uniformes de escola. Mas todos eles, por uma razão ou outra, acabavam não dando certo. A lavadora não dava porque ficava muito difícil pegar a tartaruga, quando ele se escondia lá no fundo. A bacia também não, porque minha mãe tinha que colocar nossos uniformes de molho, assim que chegávamos da escola.

E foi desse jeito que a nova residência do animal passou a ser a casa-de-bonecas da minha irmã. Não era uma mansão, está certo, mas até que era um belo sobrado. E esse foi o grande problema.

A tartaruguinha passava as tardes a escalar as paredes da casa-de-boneca e, ao chegar ao topo, sem ter para onde ir, caía. Era muito engraçado vê-la escalar as paredes, feito o homem-aranha. E depois cair. Virou a atração do prédio. Vinham os vizinhos de todos andares conhecerem a nossa pequena maravilha. E todo mundo ria muito a cada tombo dela.

A tartaruga parecia que estava na dela. Mesmo com platéia, continuava a escalar as paredes, sempre da mesma maneira. Ia até o topo, escorregava e caía. Subia de novo. E de novo caía. O dia inteiro. O mês inteiro.

Até que, um dia, quando fui alimentar o bichinho, encontrei a tartaruga de costas. Talvez minha memória de criança exagere um pouco, mas eu me lembro de encontrá-la com o pescoço virado para trás, e um pequeno filete de sangue escorrendo (tartaruga tem sangue?). Na sua última escalada, deve ter caído de cabeça. Sangrou até a morte.

Muito anos depois, ganhei de presente duas tartarugas iguaizinhas, que tenho até hoje. Desta vez, precavido, coloquei-as dentro de um pequeno aquário, onde elas não tem por onde escalar. Mas elas cresceram bastante e já ando pensando em fazer um aquário maior, mais confortável. Fiz até o projeto, com vários compartimentos, vidro fumê e plataformas. Plataformas acolchoadas, evidentemente.

Já até pedi um orçamento num vidraceiro, e um dia mando fazer. Se não para o conforto das tartarugas, ao menos para diminuir um pouco o meu peso na consciência.

Está certo que não é nenhum Holocausto mas, tal como o Papa, eu não pretendo viver com a morte daquela tartaruguinha nas costas até o fim do "meu mandato", que, aliás, já não deve durar tanto assim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A máquina-da-verdade

04 de abril de 2000

Durante a vida, que eu me lembre, apenas duas coisas conseguiram me dar, nem que por breves momentos, alguma esperança no futuro da espécie humana.

A primeira foi o seguro-de-vida.

Quando eu era criança, não entendia bem o que era um seguro-de-vida. Eu imaginava que era literalmente o que o nome quer dizer, ou seja, que pagando-se lá uma certa taxa, ficaríamos com nossa vida assegurada, e não morreríamos mais. É claro que devia ser uma taxa bem grande, haja visto o número de pessoas que eu via morrer a toda hora. Mas ela existia. E, se existia, talvez, se trabalhássemos muito, ao cabo da vida teríamos conseguido juntar o bastante e nos veríamos livres do pesadelo da morte.

Foi terrível quando descobri que eu só havia acertado mesmo no preço do tal seguro, e que ele, se garantia alguma vida, era a dos outros, não a minha.

A outra coisa era a máquina-da-verdade. Me lembro de ter assistido um filme no cinema, com meu pai. Era um filme de guerra, eu acho. Branco e preto. E os nazistas usavam uma máquina-da-verdade no herói. Um monte de fios presos na cabeça do pobre coitado o ligavam diretamente na máquina, que desenhava estranhos rabiscos numa folha de papel. Um dos nazistas ficava perguntando as coisas, o outro ficava analisando os tais rabiscos, e dizendo se o herói mentia ou não. O tenente norte-americano não teve chances e acabou delatando sua tropa, que foi destroçada pela SS. É claro que depois ele se vingou, mas essa já é outra história. O que me marcou mesmo, e para o resto da vida, foi a tal máquina.

Tal como a morte, a verdade é um grande mistério. Por exemplo, vamos dizer que uma pessoa diz que te ama.

- Então prove.

- Como, prove?

- Prove, oras.

- Mas...como é que eu faço para provar?

- Sei lá. Corte um braço fora, por exemplo.

- Co...co...cor...tar um braço?

- É. Se você cortar um braço, eu acredito que você me ama.

Aí a pessoa que diz que te ama pega e corta o braço fora. Com uma serra elétrica. Coloca o braço na linha do trem, sei lá. Mas ela corta o braço:

- E agora? Acredita que eu te amo?

- Hum... Por que foi mesmo que você cortou o braço esquerdo?

Tem coisas, que a gente só acredita por acreditar. O amor é só um exemplo. Toda nossa convivência social é baseada no pressuposto de que os outros estão dizendo a verdade. Trabalhamos trinta dias na esperança de que o patrão não estivesse mentindo quando afirmou que nos pagaria no fim do mês. A gente nunca vai saber com certeza se ele estava sendo sincero, até ele pagar.

Agora, há quantos anos já sabemos da existência da máquina-da-verdade? Se já existia no tempo dos nazistas, deve ter sido inventada ainda na década de trinta. E como é que uma das maiores invenções da humanidade ainda não chegou às nossas casas? Pois, se já chegaram rádios, televisores, microondas, computadores, mais um monte de tranqueira – porque é que uma máquina que poderia mudar completamente nossas vidas ainda não chegou?

Eu não entendo. Será que nenhuma multinacional nunca pensou nesse filão do mercado? Devem existir por aí milhões de pessoas ávidas pela verdade. Eu, por exemplo, gostaria muitíssimo de saber se a minha esposa me ama tanto quanto fala. E ela, se ontem à noite eu estava realmente no bar, com uns amigos.

Se todos tivessem uma máquina-da-verdade, o sistema judiciário não teria mais razão de ser. Se não houver mais jeito de mentir, quem vai precisar de advogados? Já imaginaram? Um mundo livre dos advogados?

Isso para não falar da religião. Se ficar provado, por exemplo, que os livros psicografados são verdadeiros, teríamos que rever não apenas nossa maneira de encarar a eternidade, mas também nossas leituras prediletas. Já imaginaram as obras póstumas de Franz Kafka? E o quanto Jean Paul Sartre teria que se explicar?

E para quem acha que máquinas-da-verdade não existem, domingo passado o Gugu Liberato levou uma de última geração no seu programa. Nada parecida com aquela dos nazistas. Coisa sofisticada, num computador. E nada de fios presos na cabeça do entrevistado. Aliás, a pessoa investigada nem precisa estar presente. É só colocar lá uma fita com a voz do sujeito, que ela responde se o que ele está dizendo é verdade ou mentira.

Mas é claro que uma invenção com tal poder revolucionário ainda não tem lugar no mundo, e vai ser sempre motivo de boicotes. O Gugu, ainda acho que de propósito, testou a máquina logo com uma fita do Celso Pitta. Não deu outra: a engenhoca pirou.

Devem estar tentando recalibrar até agora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reclame

03 de junho de 2000

Nos primórdios da televisão, muita gente não entendia direito qual era a razão das propagandas. Por que diabos, bem na hora que o programa estava ficando bom, eles colocavam os "reclames"? É. Era assim que a gente chamava as propagandas antigamente: reclames.

Não sei direito de onde o termo vem, mas imagino que seja exatamente de onde você imaginou. Do verbo reclamar. É que, na hora que começava a propaganda, todo mundo reclamava.

Eu me lembro do meu avô, reclamando:

- Eu não vou assistir esse programa. Tem muito reclame.

E não assistia mesmo. Ia lá para o seu quarto, vestia um pijama e lia um livro, dois hábitos já meio fora de moda desde aquele tempo.

Mas hoje em dia a coisa mudou. As propagandas se sofisticaram. Tanto é, que ninguém mais chama as danadas de reclame. Tem gente que tem até suas favoritas:

- Há quanto tempo não passa aquela do cachorrinho da Cofap, né?

- E o rapaz da Bombril? Anda sumido... Será que aconteceu alguma coisa?

Pouco a pouco, a propaganda acabou sendo reconhecida como a verdadeira mola mestra do capitalismo. Já não dava para viver sem ela. Se uma televisão não tem propaganda, não sobrevive, ora essa... Nem um jornal. Nem uma rádio.

O meu sobrinho mesmo, outro dia desses, veio pedir meu carro emprestado para que ele e uns amigos pudessem ir... para a praia! Ante o meu espanto, ele, com a maior cara de pau do mundo, perguntou:

- O que é, tio? Nunca ouviu falar de Patrocínio?

Mas com esse sobrinho, eu tenho um pouco de culpa. Acostumei ele muito mal. Desde aquela vez quando ele veio me pedir um dinheirinho para ir ao cinema.

- Apoio Cultural, manja?

Dessa maneira, a propaganda acabou por se tornar uma instituição nacional. Ninguém mais faz nada se não tiver uma patrocínio, um apoio cultural, ou coisa que o valha. Livros onde se mesclam poesias com comerciais de lojas de sapatos. Revistas onde não se sabe mais se o que estamos lendo é propaganda ou matéria. Times de futebol que a gente nem chama mais pelo seus nomes mesmo, mas pelo nome do patrocinador. E os pilotos de Formula 1, então? Uma verdadeira propaganda ambulante.

Não é de se espantar que o governo federal tenha gasto 18,8 milhões de reais para montar um estande na Expo 2000 em Hannover, na Alemanha, inaugurada no mês passado. Um dinheiro muito bem investido, segundo todo o alto escalão brasileiro.

E eles têm razão. Uma boa propaganda pode tirar uma empresa quebrada do buraco. Quem sabe não dá certo com um país também? Há, inclusive, inúmeros casos de políticos absolutamente medíocres que, através de uma boa propaganda, conseguiram se eleger para cargos de suma importância para a vida nacional. É só dar uma boa maquiada, esconder uma coisinha aqui, inventar outra lá, e pronto. A propaganda elegeu o cara.

O problema, me parece, é que o nosso presidente não entendeu direito o espírito da coisa. Ao comparecer na festa de inauguração da Expo 2000, e tentando explicar as razões do Brasil ter gasto tanto dinheiro para montar seu pavilhão, me saiu com essa:

"- O Brasil não pode deixar de mostrar (ao mundo) o que é"

Olha lá, hem presidente... Não vai me levar essa sua frase ao pé da letra, senão aí é que estaremos ferrados de vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chamem os bombeiros

08 de abril de 2000

Minha mulher passou uma semana fora. Deve chegar hoje à noite. Foi fazer um retiro espiritual em Itaici, uma espécie de Disneylândia para os retirantes espirituais. No embalo, demos folga para a empregada.
Ficamos em casa só minha filha e eu.

No primeiro dia, até que mantivemos a compostura. Ao acordar, ambos demos uma arrumada nas devidas camas. Lavamos nossos pratos depois do almoço. Na janta, porém, já se podia atinar com um futuro sombrio. Comemos uns sanduíches na sala, assistindo o Show do Milhão. Como já era tarde, acabamos deixando os pratos e os copos por ali mesmo, no tapete. E acabei esquecendo o vidro de maionese fora da geladeira.

No segundo dia, ao acordar, tropecei num dos copos e o resto do refrigerante se espalhou. Saí à caça de um pano. Onde é que as mulheres guardam os panos de chão? Acabei secando com um daqueles panos-de-prato novinhos, que ficam anos na gaveta, à espera de visitas. Enquanto isso, minha filha passeava pela sala, comendo um pãozinho requentado e tomando um copo de leite. Tudo sem pires ou pratos, evidentemente. As migalhas do pão se espalhando pelo tapete e pelo sofá.

Olhei para o relógio. A aula dela já tinha começado há pelo menos meia hora. Apressado, acabei deixando o pano ali mesmo, em cima da poça de coca-cola. Mais tarde, os restos do almoço e da janta foram se amontoando. Minha filha
até que tentou dar uma arrumada, e deu uma empilhada nos pratos. Foi quando ela achou o vidro de maionese. Estava começando "MIB - Os Homens de Preto" e ela, delicadamente, colocou a pilha de pratos em cima da TV e o vidro de maionese em cima de tudo. Dormimos com a TV ligada.

Lá pelo quarto dia, o sofá já estava, segundo a minha filha, insentável. Havia manchas de catchup, de maionese e de uma substância que eu não conseguia definir direito, mas, pelas outras manchas, imaginei ser mostarda. As casquinhas de pão tornavam o deitar-se uma experiência inviável.

Trouxemos do quarto um colchão limpo e jogamos na frente da televisão. Tinha um pano ali, atrapalhando, que eu empurrei com o pé. Mais algumas almofadas e já tínhamos novamente onde nos aninhar.

Acordamos no outro dia junto a restos de sanduíches de salame e sentindo um cheiro esquisito. Alertei minha filha que era melhor jogar aquela maionese fora, e ela disse que depois jogava. Precisávamos correr. Parece que se o aluno chegar três dias seguidos atrasado, o diretor da escola chama o pai para conversar. E eu não estava disposto a me encontrar com diretor nenhum.

Hoje, quando cheguei, tive que abrir as janelas da casa e ligar os ventiladores de teto. Tinha alguma coisa fedendo por ali. Descobri que era aquela frigideira, onde derretemos queijo no outro dia. Tentei alcançá-la, mas temi que a imensa pilha de panelas e pratos que se equilibrava sobre a pia perdesse a estabilidade, e despencasse sobre mim. Joguei um tanto de detergente em cima daquilo tudo para ver se o cheiro passava. Até que deu uma melhorada. Satisfeito, voltei para a sala. Empurrei alguns pratos com os pés, puxei o saco de biscoitos para o lado e me deitei.

Foi quando dei pela falta da minha filha.

Joguei o edredon para cima, e restos de pipoca voaram na minha cara. Olhei em baixo das almofadas. Levantei o tapete. Só encontrei um pano de prato amassado e meio úmido.

- Filha? Filha!! FILHA!!!

De repente, parece que ouvi sua voz. Desliguei a TV e fiquei atento. Procurei entre as pilhas de roupa suja. As embalagens de bombons. As cascas de tangerina. Da última vez que eu me lembrava, ela estava tentando encontrar o controle remoto. Devia estar em casa ainda. Dei uma espiada atrás do sofá. Nada.

Estou ficando maluco. Já procurei em cima do fogão. Na geladeira. No armário do quarto. Tudo em vão. Não sei mais o que fazer. Minha mulher chega hoje à noite da viagem, e eu perdi a filha dela.

Sou um homem morto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hipocondria

17 de junho de 2000

Amanheci com o rosto cheio de brotoejas. Brotoejas, não sei se você sabe, são umas bolinhas vermelhas. Que coçam.

- Então é sarampo.

- Que sarampo, que nada...

- Tô te falando...

- Onde já se viu? Um homem de quarenta anos... Sarampo... Além do mais, eu já tive sarampo quando era criança.

- E o que é que tem?

- Oras... Sarampo não pega duas vezes. Pega?

- Pega. O que não pega duas vezes é catapora.

- Catapora?

- É. Catapora. Quem sabe não é catapora. Você já teve catapora também?

- Sei lá. Agora você me confundiu. Qual é a diferença entre catapora e sarampo?

- A diferença é que uma só pega uma vez e a outra pega um monte de vezes.

- E caxumba? Será que não pode ser caxumba?

- Caxumba... Caxumba é aquela que incha o pescoço, não é? Você está com o pescoço inchado?

- Não.

- Então não é caxumba. Tem que ser sarampo.

- Ou catapora.

- É. Ou catapora. Em todo o caso, é melhor ir num médico.

- Médico? Mas será que precisa?

- Precisa. Porque, eu não sei qual dessas doenças, quando pega em adulto tem o perigo de descer.

- Como assim, descer?

- Descer, oras... Nunca ouviu falar?

- Não. Descer pra onde?

- Descer para o... para o... Ora, você sabe...

- Já disse que não sei! Descer para onde? Vai dizer que...

- É. Lá mesmo. Não sei qual dessas doenças, desce. E se descer, ó...

E ele apontou o dedo para cima e foi abaixando, abaixando, até apontar para baixo. Isso acompanhado de um barulhinho, que nem de uma bexiga murchando:

- Pfffuúúúúúússssssss....

Eu arregalei os olhos. Descer é que não! Corri para a Santa Casa. O médico de plantão me atendeu. Me levou até o consultório. Raspou uma das brotoejas com uma espécie de estilete e colocou a pele dentro de um plastiquinho. Disse para eu voltar amanhã. Eu disse que não. Eu ia ficar ali, esperando. Vai que no caminha essa coisa, sei lá, resolve descer. Fiquei lá umas cinco horas. Esperando. Enfim, o médico voltou com o resultado dos exames.

- Alergia. Você deve ter comido alguma coisa que te fez mal. Pode voltar para casa tranquilo.

Eu olhei para ele. Conferi os resultados dos exames, embora não entendesse nada daqueles números. Olhei para o médico de novo:

- Doutor. Alergia não desce, desce?

- Não. Não desce.

Respirei aliviado. A gente leva cada susto nessa vida...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A função do cronista

13 de julho de 2000

Por muito pouco não me tornei um arquiteto. Para ser mais preciso, por exatos seis meses. Esse era o tempo que faltava para que eu me formasse na faculdade Brás Cubas de Arquitetura, em Moji das Cruzes, na década de 80.

É engraçado como, quase sem perceber, passamos a dividir o tempo em décadas. A minha filha, por exemplo, ainda divide seu tempo em semanas: "a semana passada eu fui"; "essa semana eu vou"; "semana que vem eu irei". E o pai dela aqui, regurgitando recordações de duas décadas atrás...

Bem, como eu dizia, por muito pouco não fui um arquiteto. Na época eu estava decidido que essa seria a melhor maneira de ajudar a humanidade.

É sério. Convencido por um colega, meio comunista, de que através da arquitetura de uma cidade, de um bairro ou até mesmo de uma casa, poderíamos dar início à revolução, fui eu dar lá o meu quinhão em prol do socialismo mundial. E estávamos bem acompanhados. O Niemeyer está na luta até hoje, inclusive.

Com o desenrolar do curso, no entanto, fui percebendo que a coisa não era bem assim. As pessoas comuns estavam pouco se lixando para suas residências, contanto que houvesse um teto que às protegesse da chuva, e paredes, que às protegessem do vento e de eventuais ladrões.

Quem realmente se importava com a estética e a funcionalidade das moradias eram os milionários - e desenhar mansões de socialites para o resto da vida não estava de modo algum nos meus planos revolucionários.

Foi quando larguei tudo e resolvi dar uma repensada no futuro. O que é, afinal, que eu queria ser quando crescesse? Qual profissão poderia cumprir a função básica de me sustentar e, ao mesmo tempo, satisfazer essa vontade insana de contribuir de alguma maneira para o bem estar da civilização?

Passei anos fazendo experiências. Algumas muito boas, outras nem tanto. A que mais tempo durou foi a de padeiro. Não, eu não fui exatamente um padeiro, aquele que faz o pão, mas sim um capitalistazinho, proprietário de padaria. Durante quatorze anos. Foi uma experiência válida, afinal eu trabalhei e contribuí de alguma maneira com uma necessidade básica da população: a alimentação.

Pois bem. Foi atrás do balcão de uma padaria, sufocado entre broas de milho e croissants, que consegui, afinal, vislumbrar um ideal para o meu futuro. Mas não teve nada a ver com a alimentação em si, mas sim com os consumidores.

O contato direto com os clientes me ensinou muito sobre o ser humano. A solidão. Os medos. A felicidade. Nesses quatorze anos de convivência, eles me trouxeram charutos para comemorar nascimentos. Me trouxeram Raios X dos próprios pulmões. Comeram. Beberam. Deram risadas. Alguns esperavam de mim apenas um bom ouvinte, mas a maioria queria mesmo era ouvir alguém. O ser humano, mais até que de uma residência, precisa muito de palavras. De conforto, de incentivo, de revolta. Mas palavras.

Foi quando resolvi definitivamente o que eu queria, ou devia, fazer dessa vida. Larguei tudo que tinha - que não era muito, a bem da verdade - e vim escrever para o jornal.

Foi a decisão mais acertada que tomei desde que nasci. Hoje, desconhecidos me param na rua. Me cumprimentam. Comentam que se sentem quase íntimos. Seguem minhas crônicas há três anos afinal de contas, e chegam até a dar palpites sobre a maneira de eu educar minha filha. Concordam com muita coisa que falo. Discordam de outras. Mais ou menos como convivemos com nossas esposas, esposos, pais e mães.

Ok. Posso não estar atuando diretamente na vida das pessoas, como os arquitetos, os médicos e os políticos. Mas estou servindo, ao menos, de companhia.

Pode não ser grande coisa, mas já é um começo. Eu acho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se fosse bom, ninguém dava

20 de julho de 2000

Quando a gente tem dezoito anos, não consegue se imaginar dando conselhos. Então, quando me pego dando um, a primeira coisa que me vem à cabeça é a constatação óbvia de que eu não tenho mais dezoito anos - fato com o qual ainda não me acostumei totalmente.

Ter dezoito anos é cultivar olheiras, só para fazer charme. Ter dezoito anos é andar com uma calça vermelha e ninguém achar estranho. Ter dezoito anos é... é... é ter dezoito anos, puxa vida...

Bem. Hoje cedo minha filha foi viajar. Foi com os meus pais para Campinas, tirar umas férias. Férias de mim, pressuponho, já que do colégio já estava de férias há alguns dias. Na rodoviária, na porta do ônibus, após os usuais beijos e abraços, me vi na obrigação de dar algum conselho. Afinal, minha filha estava embarcando para uma das cidades mais violentas do país. Li outro dia desses, na "Folha de São Paulo", que Campinas era, comparativamente, mais violenta até que São Paulo e Rio de Janeiro.

E que conselho dar ali, naqueles poucos segundos antes do embarque, e com isso não parecer nem muito careta nem muito displicente?

O que me veio à cabeça foi um trecho de um livro que li há muitos anos, obrigado pela professora de português. Não lembro o nome do livro. Era de uma série, dessas de aventuras de adolescentes, que os professores dão para ver se seus alunos pegam o gosto pela leitura.

No tal livro, o personagem principal está prestes a embarcar numa excursão, junto com seus colegas de escola. A mãe dele, antes de deixá-lo partir, segura-o pelos ombro e pede para que, durante os passeios, ele nunca seja o primeiro. Nem o último.

- Fique sempre no meio, meu filho.

É um ótimo conselho, este. Os primeiros arriscam-se muito. Os últimos, correm o risco de serem esquecidos. Na dúvida, fique no meio. É muito mais seguro, embora, convenhamos, bem menos divertido.

O conselho daquela mãe ficou na minha cabeça por muito tempo, mas só veio mesmo ter utilidade agora, quase trinta anos depois. Bem ali, na porta do ônibus, olhei para minha filha e decretei:

- Fique sempre no meio, minha filha.

Ela já estava subindo no ônibus. Não dava muito tempo de responder. Ela apenas sorriu e galgou os degraus, abanando a mão. Me abracei à minha mulher e ficamos os dois, olhando o ônibus partir, dando tchauzinhos, com os olhos marejados.

Na volta para casa, já razoavelmente recuperada da despedida, minha esposa perguntou:

- O que é que você quis dizer com aquilo?

- Aquilo o quê?

- "Fique no meio, minha filha". Fique no meio do quê?

- Não é pra ela ficar no meio de nada. Muito pelo contrário. Era para ela não ser a última, entende?

E eu expliquei aquele negócio de que os últimos se perdem e os primeiros arriscam-se muito. Minha esposa insistiu.

- Não sei não. Se eu não entendi, ela também não entendeu. "Ficar no meio"... Onde já se viu? Que conselho mais esdrúxulo.

Ora bolas. Foi um dos primeiros conselhos que dei na minha vida. Me pareceu muito bom ali, na hora. Agora já foi. Pronto. Mas, por via das dúvidas, vou dar uma ligadinha hoje à noite, para ver como é que eles chegaram de viagem.

Se minha filha não entendeu direito o tal conselho, vai saber no meio do quê essa menina é capaz de se meter naquela cidade...Campinas anda muito violenta. Comparativamente, até mais que o Rio de Janeiro. Ou São Paulo.

Mas acho que já falei sobre isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aviões de papel

31/12/1997

Correio Popular, Campinas

Nosso aviãozinho de papel descia, desenhando círculos no céu de Campinas, até pousar macio, na calçada em frente ao prédio. Meu irmão e eu fixamos os olhos na rua e olhamos para meu pai, que corrigia as provas submetidas aos alunos do segundo ano do Colégio Notre Dame. Perguntamos se podíamos descer um pouco, - Para pegar o avião... Fazia calor e alguns colegas estavam batendo bola, com o portão do Orozimbo Maia fazendo as vezes do gol. - É claro, disse meu pai, sem desviar muito a atenção das correções. - Só não se atrasem para o jantar... Nós dois, garotos nem próximos da adolescência (essas coisas aconteciam mais tarde naquela época), descíamos as escadas apostando para ver quem chegava primeiro. O porteiro do prédio ria quando chegávamos ao térreo e simulava uma dura: - Sem algazarra, molecada... O fim da tarde era uma gritaria de moleques apelidando os gordos de gordo-pipa, os de óculos de quatro-olhos e os menores de café-com-leite. Os gols no portão de madeira do Grupo Escolar ecoavam na esquina como pancadas de martelo. A bola de capotão era dura e o dono dela nunca saia do time. Os medos se restringiam aos carros, que passavam devagar, às vezes silenciosamente, se desviando do jogo, como que para não atrapalhar, outras vezes buzinando, talvez com receio de que suas DKV’s tivessem a lataria avariada. O jogo terminava quando, literalmente, não conseguíamos mais ver a bola. A noite já vinha alta e nossos estômagos já nos alertavam do novo atraso para o jantar. Muito tempo depois saberíamos que nossa mãe só preparava realmente nossos pratos depois do anoitecer, já prevendo o atraso.

O que estou querendo dizer com tudo isso é que nessa esquina agora, quase trinta anos depois, ainda existe o Orozinbo Maia, com novas cores e novo portão, mas ele ainda está lá. O prédio da minha mãe também, embora o térreo tenha sido alugado para diversas lojas e os bares em volta quase não nos deixarem achar a entrada. O porteiro já não nos cumprimenta. Nos olha, desconfiado, todos os anos quando vamos visitar nossos pais no natal, por que todos os anos é um novo porteiro que está lá, sentado e com a mesma cara de sono. Mas não existem mais crianças. Nostalgia? Não, não estou com nostalgia. Estou fazendo uma constatação. Por volta das oito horas da noite as pessoas se trancam. Com seus computadores, com suas televisões, com suas mulheres, com seus livros, mas trancadas. Os meninos ainda devem soltar seus aviõezinhos. O voar ainda é mágico. Só que eles devem olhar pelas janelas e para o local de pouso de seu jato supersônico de papel e imaginar o quão distante aquela calçada fica dele. Os meninos olham para os seus pais e sequer tentam pedir para descer um pouco, encontrar os colegas. Primeiro: não existem mais colegas. Segundo: não existe mais a certeza de que voltarão atrasados para o jantar por que ficaram se apelidando uns aos outros. Talvez o atraso signifique que não voltarão mais.

Há alguns anos, quando minha filha completou o primeiro aniversário, tive que fazer uma escolha: ou ficar em Campinas, seguindo assim uma recém iniciada carreira na publicidade e esperar minha formatura na faculdade de jornalismo da PUCC ou me mudar para o interior, onde meu cunhado me convidava para uma sociedade numa pizzaria. Escolhendo a segunda opção, depois de alguns anos, me via angustiado. Nenhum de meus sonhos profissionais estava sequer próximo de se realizar. A vida por aqui, interiorzão, é pacata. O jornalista melhor remunerado é o responsável pelas colunas sociais. A publicidade engatinha e os carros com alto-falante ainda são uma das melhores opções na área. Só a tranquilidade de ver minha filha de doze anos indo sozinha para a escola me dá a certeza de ter feito a escolha certa.

O que é que vocês deixaram acontecer com minha cidade, esses anos todos que a deixei em suas mãos? Me lembro que, certa vez, me disseram que Campinas era uma cidade modelo. Confundi o "modelo" - no caso sendo usado como "padrão; similar aos níveis sociais e econômicos do restante do país" - ao "modelo" significando "exemplo a se seguir". Tenho até hoje comigo que o segundo "modelo" era também aplicável. Mas hoje em dia já não se pode abrir o jornal sem receber notícias tétricas de minha terrinha. Assaltos nem são noticiados mais. São casos de assassinatos, sequestros, balas perdidas e sei lá mais o quê. Outro dia o "Correio Popular" publicou, em primeira página, a notícia do lançamento de um livro que pregava o revide armado aos assaltos. Campinas cresceu? Campinas já era grande na minha época. Com bairros que eram e são maiores que a cidade onde hoje moro. Mas não é mais um exemplo a seguir.

Gilberto Dimenstein escreve sempre de Nova York, relatando as experiências do prefeito daquela cidade americana no combate ao crime. Enquanto isso os prefeitos de Campinas sonham com o cargo de deputado federal ou de, quiçá, governador. Os universitários, onde estão os universitários? Escondidos também? Que tal se as faculdades de arquitetura (ou direito ou jornalismo) dessem, como provas finais, tentativas de soluções para Campinas, e não projetos aleatórios? Projetos específicos para a terra que está formando esses alunos, numa espécie de retribuição.

O que eu sei é que daqui de Votuporanga (pertinho de Rio Preto) eu fico assistindo Campinas se desmanchar e olho para minha filha saindo, dizendo que volta para o jantar. Eu sei que ela vai se atrasar, mas não ficarei preocupado. Ela estará com as amigas, e o filho do dono da sorveteria estava de paquera, - você entende, né pai? Entendo, filha. E entendo que há alguns anos atrás fiz uma das melhores escolhas que um pai poderia ter feito. Escolhi que minha filha teria liberdade, e isso Campinas já não pode oferecer. É uma pena. Provavelmente fiz parte de uma das últimas gerações que conheceram Campinas a pé, e não trancado num carro, com os vidros levantados, sufocado porque esse maldito carro não tem ar-condicionado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nós e a Xuxa

16 de dezembro de 1997

Diário de Votuporanga

Vamos por partes. Digamos que sua filha (supondo que tenha uma) chegue hoje à noite em casa, com uma expressão de pura felicidade. Ela chega e, por conhecê-la, você sabe que tem notícias. Boas notícias. Você pergunta o que foi e ela faz charme. Você ri por dentro da brincadeira. Faz o jogo. Finge-se de curioso (não que não esteja). Após falsos "nem ligo", convence a menina a lhe contar.

- Eu estou grávida. De um mês!!!

Ok. Você é um pai liberal e o mundo não vai desabar por causa disso. Sua menina sabe o que está fazendo.

Não? Você não é um pai liberal? E o mundo vai desabar. Não se preocupe. Com o tempo as coisas se consertam. Experiência própria.

Bem, em qualquer uma das hipóteses você gostaria de saber de quem. Ou não?

- Bem, pai... É do "fulano". Sabe? Aquele que veio aqui, naquele dia.

Que dia, meu deus? Que dia foi esse que o "fulano" veio aqui e eu nem prestei atenção... E vocês vão se casar?

- Que é isso pai? A gente nem se conhece direito... O que importa é que eu terei meu filho. E você vai ser avô e ele vai ter um monte de tios e tias.

O pai liberal, o que acha? Acha que tudo bem, sua filha já está pensando por si. Vai tentar ajudá-la. Não vai? E o outro pai, o durão? Descabelar-se não adiantará muito. Vai acabar aceitando as coisas. Ou não?

O problema não está nem nos pais nem nas filhas nem em ninguém. O problema é a indiferença com a qual a sociedade trata situações absurdas. A sociedade brasileira é, teoricamente, católica apostólica romana. A religião oficial do país é essa. Essa religião proíbe a convivência conjugal de dois seres se não estiverem ligados pelos "sagrados laços do matrimônio". É um dos sete sacramentos. Um dogma indiscutível. Indiscutível? Pois pergunte à "sua" empregada doméstica se ela é casada. É? Pois oitenta por cento delas não são. E todas se dizem católicas. Ou quase todas. Pergunte por aí, para as pessoas de renda um pouco mais baixa que a sua. A sociedade resolveu a seu modo que esse não era um sacramento tão necessário assim. Você se espanta. Mas você fica com os olhos lacrimejados no seu domingo a tarde, quando a Xuxa Meneguel avisa que, enfim, conseguiu engravidar. E nós todos somos tios e tias. Há um certo burburinho na sala. O rapaz escolhido para pai é elegante e seu par de óculos dá um certo ar responsável. É um belo rapaz. Agora, esperem... Nossa filhas cresceram tendo a Xuxa como exemplo. Toda uma geração que tem, agora, por volta de dezesseis anos. Uma bela idade. Não é?

Eu não me atrevo a dizer que, com todo meu liberalismo, talvez não sinta uma fisgadinha doída se um dia acontecer um diálogo parecido ao descrito nos primeiros parágrafos desse texto. Mas, em todo caso, nada que me abalasse a ponto de deixar de tomar meu café da manhã no dia seguinte. E nunca gostei muito da Xuxa e seus programas matutinos. O grande problema reside no outro tipo de pai. Naquele que ainda cultiva uma rigidez completamente fora de tempo. Esses mesmos pais adoram o tipo "boa moça" que a Xuxa e toda sua equipe tentam enfiar-nos goela abaixo a tantos anos. Esses pais agora aplaudem e parabenizam a moça que lhes anuncia em festa exatamente aquilo que , caso acontecesse com suas filhas, tanto abominariam. Esses pais deixam suas crianças na frente da TV assistindo mulheres agarrando-se numa banheira.

Aos pais liberais, nada de anormal. A sociedade tendia a isso mesmo. Minha filha cresceu assistindo, além da Xuxa, o "Rá-Tim-Bum" da Cultura, por exemplo. Ela conhece os dois lados.

Aos pais "durões", que achavam uma gracinha quando sua filha aparecia vestida de mini-saia e com "xuquinhas" no cabelo, e a mostrava aos vizinhos, ah esses pais... Talvez elas já não queiram brincar com bonecas. E você ainda não aprendeu a conversar com ela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

História de uma quarta-feira de cinzas

03 de março de 1998

Aquela fila enorme e meu tio, lá na frente, em vez de colocar na boca das pessoas uma hóstia, enfiava seu polegar direito dentro de um cálice e o retirava de lá sujo de alguma coisa indefinida. Com essa coisa, marcava a testa das pessoas com uma cruz. Meu tio era padre em Agudos, perto de Bauru, e eu tinha uns dez anos. Era lá em Agudos que passávamos a maioria dos feriados. As famílias de minha mãe e de meu pai eram de lá. Eu estava começando a ligar o nome da quarta-feira pós carnaval com seu nome: "de cinzas".

"- Pai, o que é aquilo que o tio padre está fazendo nas pessoas?"- perguntei, enquanto nossa vez não chegava.

"- Está perdoando as pessoas pelos pecados do carnaval."

"- Carnaval é pecado, pai?"

"- Olha para frente e vê se para de falar..."

Na minha vez meu tio sorriu, fez a tal cruz e balbuciou alguma coisa em latim. Eu espionei dentro do cálice e, para mim, aquilo parecia mais um cinzeiro. Minha primeira reação, ao voltar ao banco da igreja, foi a de passar a mão na testa, para tentar tirar aquela marca. Meu pai segurou minha mão e disse que de maneira nenhuma podíamos tirar aquela marca. Era pecado.

"- Que nem morder hóstia, pai?"

"- Que nem..."- meu pai respondeu, num resmungo.

À noite, na cama, a tal cruz começou a coçar. Com o passar do tempo, aquilo tornou-se um suplício. Meus olhos lacrimejavam mas resisti bravamente. Eu não dormi aquela noite. E não encostei na minha testa. Porém, ao me levantar de manhã e ir até o espelho do banheiro, a cruz não estava mais lá.

"- É assim mesmo, filho. A cruz some sozinha para mostrar que a gente não tem mais pecados." - meu pai me disse, sorrindo.

Vinte e seis anos depois, ateu convicto, fico pensando naquela cruz. E te falo uma coisa: eu não limpei minha testa naquela noite. Juro por deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De saias

12 de março de 1998

 

Enquanto conversávamos, eu percebia que o suor escorria de sua testa. A gotícula ia crescendo, conforme descia pelas têmporas. Ao chegar à altura do pescoço, já havia se unido a uma espécie de riacho que descia do rosto e desembocava na gola da camiseta ensopada. Aquilo foi me agoniando, e aquele calor infernal parecia tomar o ar de meus pulmões. Eu já não conseguia compreender as palavras que saiam de sua boca e ele continuava a falar e a falar e aquele calor. Opinei, em vão, para que saíssemos, ao menos, de baixo do sol. Eu olhava para cima (à essa altura a voz do rapaz era apenas um blá-blá-blá interminável) e o sol ardia. Aí, interrompendo sei lá qual assunto, falei:

- Eu te digo uma coisa. Eu não me lembro de ter passado tanto calor assim na vida...

Ele concordou. Estou em Votuporanga já há anos e realmente essa vez está de amargar. Os dias estão modorrentos e nós nem sabemos se, ao sair do trabalho, queremos ir para uma lanchonete tomar a "fresca" ou ir direto para casa, tomar um banho, deitar debaixo do ventilador e ficar torcendo por uma daquelas chuvinhas de verão que estão caindo nos fins de tarde.

Foi aí que ela passou. Uma moça, seus vinte e poucos anos, numa saia esvoaçante, daquele tecido que parece seda, como é o nome daquele tecido? Bom, a moça passou e deixou no ar aquele perfume de shampoo que as garotas costumam deixar quando acabaram de sair de um banho. Ao ser brindada por uma pequena brisa, a garota segurou levemente sua saia de (como é que chama aquele tecido?) seda e sorriu.

- Ela não parece estar ligando para o calor... - meu companheiro disse.

É. Não parecia. Não havia sinais de suor, muito pelo contrário. Ela parecia estar gostando daquele sol infernal.

- É a saia - falei.

- O quê?

- É a saia. Usando saias, nós também não estaríamos assim, com tanto calor - respondi, olhando nossas grossas calças jeans - Agora me responda: Por que é que só as mulheres podem usar saias? Eu te falo uma coisa, eu já li uma vez que em 1956 um cara até famoso, o Flávio de Carvalho, saiu andando pelas ruas de São Paulo de saias. E ele era um homem de quase dois metros de altura e famoso na época. Era arquiteto e participou até da Semana de Arte Moderna. Ele ficou com calor, usou saias.

- E aí?

- E aí que eu vou comprar umas saias. Cansei do calor, eu não consigo pensar direito com esse calor todo. Está resolvido, vou comprar saias é agora mesmo. Mini-saias!!!

E saí, deixando meu companheiro boquiaberto. Lógicamente não comprei saia nenhuma, mas pelo menos não tive mais que ficar ouvindo a conversa daquele fulano. Quando cheguei em casa, tirei a camiseta e me joguei no sofá. Minha esposa se chegou e perguntou como é que eu estava. Eu respondi com uma pergunta:

- Como é que se chama aquele tecido que se parece com seda? Aquele, enrugadinho...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caminhadas

15 de março de 1998

- Pois eu, logo que acordo, vou fazer uma caminhada...

Meu deus, pensei. Outro desses. Agora ele vai querer me convencer a fazer o mesmo. É só esperar..."- E você? Não faz uma caminhada de manhã?"

- Não. Não faço.

Aí ele começou com aquele papo. Que era uma coisa que tinha mudado a vida dele. Que ele se sentia muito mais disposto no decorrer do dia, com vontade de trabalhar. Essas coisas. Que, além de tudo, sua saúde melhorara sensivelmente. Estava se sentindo saudável, diminuiu o cigarro. Até a bebida diminuiu. Parabenizei-o. São coisas realmente difíceis de se conseguir. E veja só, apenas com uma caminhada diária..."- E não é só isso... - animou-se, puxando-me para mais perto, quase fofocando - Até as mulheres começaram a me olhar de outra maneira. Mais sensuais, entende?"

É. Tinha lógica. Provavelmente ele deve ter perdido uns quilinhos. E, se diminuiu a bebida e os cigarros, sua conversa deve ter melhorado um pouco. E seu hálito.

- Você não quer começar a fazer essa caminhada comigo? É só uma hora por dia... Não dói.

Eu sabia. Demorou até mais que imaginei. Argumentei que não estava precisando. Estava até me sentindo meio magro. Me sinto tão disposto a trabalhar quanto qualquer um. E já não bebo há alguns anos. Recomendações médicas... Mas meus argumentos, pelo visto, foram insuficientes.

- Mas não é só isso. O gostoso da coisa toda é ir olhando a cidade, as ruas vazias, o céu. É um horário gostoso, não temos o que fazer naquela hora e meia. Ficamos com o tempo livre para observarmos melhor as coisas, sem pressa...

É. Ele agora estava com uma boa argumentação. Falou da vez em que viu umas nuvens e ficou, a caminhada inteira, seguindo-as com o olhar e percebendo como se transformavam. E da vez que viu um pássaro grande, parecia uma siriema, ali no centro, perto da concha acústica. Falou também do bêbado que ele encontrava todos os dias, voltando para casa, e que eles se cumprimentavam ao se cruzarem, quase sempre na mesma esquina. Era um bêbado pontual, ele riu. E disse para mim que aquilo era uma espécie de terapia. Eu tinha que experimentar.

Para te falar a verdade eu ando meio "estressado". Quem não anda? Aquelas últimas idéias me soaram até que bem. Uma hora e meia, só para a gente mesmo. Não é todo mundo que tem uma hora e meia no dia para organizar melhor os pensamentos.

- Até onde? - perguntei.

- Até onde o que?

- Até onde você caminha?

- Às vezes até o Pozzobon, às vezes até mais...

Ele morava perto da CESP. Caminhava até o Pozzobon. Era longe. Às vezes mais longe ainda. Respondi que ia pensar. Mas, para ser sincero, estava precisando desse tempo diário para relaxar.

Acordei disposto. Coloquei uma roupa leve. O despertador havia feito sua parte e me acordou uma hora e meia antes. Ainda amanhecia. Beijei minha esposa, ainda dormindo. Saí sem muito barulho. Parti por uma dessas vicinais de terra. Parei à beira de um pasto.

Desci do carro e fiquei olhando as nuvens e os pássaros. Suspirei:

- Uma hora e meia, só para mim...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um sonho de valsa

31 de março de 1998

Outro dia desses eu li, não me lembro onde: mediram as ondas elétricas que nosso cérebro emite quando a pessoa amada está em nossa presença. A pessoa amada, veja bem. Não a pessoa pela qual temos alguma atração sexual. Aquela pessoa pela qual suspiramos de vez em quando, até hoje, mesmo depois de tanto tempo juntos. Aquela pessoa, sabe? Você sabe quem é. Todos sabemos. Eu tenho guardada a reportagem em algum lugar, junto àqueles livros empoeirados no quartinho lá no fundo de casa. Se alguém quiser saber mais, me procure. Eu não vou procurar agora. Mas lá na reportagem tinha os nomes das tais ondas, captadas por eletrodos colados na cabeça de uns fulanos e impressas naqueles gráficos que ficam rabiscadinhos, com altos e baixos, sabe? aparece muito naqueles filmes de hospital, quando o paciente está tendo um ataque cardíaco ou algo assim.

O que estou querendo dizer é que conseguiram medir o "amor". Vejam vocês... Eles mediram outras coisas também. A raiva. A tristeza. Coisas assim. E cada sentimento com seu gráfico particular, cada um bem diferente um do outro.

Volto a insistir que tudo isso é científico. Provado e tudo. Saiu numa dessa revistas européias especializadas em publicar estudos avançados.

Bem, vamos à parte boa da coisa toda. Um dos pacientes comeu um chocolate. O chocolate, a marca, não foi especificado. Pode ser um diamante negro ou um prestígio. Sei lá. Pois mediram as ondas que o cérebro do homem emitia ao degustar um chocolate. E imprimiram um gráfico. Resultado: igualzinho ao gráfico do amor. O ser humano, ao ingerir um chocolate, emite ondas cerebrais idênticas às que emite quando na presença de sua paixão.

Há algum tempo atrás já haviam descoberto que o chocolate possui em sua fórmula alguns dos componentes ativos da cannabis. Cannabis, meu caro, se você não sabe, é a tal da maconha. Agora descobrem que o chocolate e o amor são mais ou menos a mesma coisa para o cérebro.

Se houve Adão, se houve Eva, se houve serpente, talvez não uma maçã. Talvez o cacau.

Há algo de perverso nisso tudo. Eu me lembro de minha primeira namorada. Quem não lembra? E lembro que, na minha cabeça de adolescente, aquela torrente de sentimentos era algo indecifrável. Um mistério que beirava o caos. Não havia maneiras de me concentrar em mais nada. As noites mal dormidas eram um martírio. Me lembro de sentir tremores. Ok, estou exagerando um pouco. Mas as lembranças que me vêm são exageradas. O chamado do telefone era ao mesmo tempo um alívio e uma preocupação. As esperas, ah, as esperas... Imaginando se ela viria ao encontro. Que talvez não devesse ter falado daquele jeito com ela a noite passada. Que agora ela não viria mais.

De repente, tudo isso esquecido quando a vemos descer do carro e olhar para gente, sorrindo. Uma sensação de paz e tranquilidade.

Só comparável a ... comer um chocolate?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juntos

02 de abril de 1998

(para Telma)

Estávamos sentados num gramado. Não me lembro das formigas, mas me lembro da borboleta. Você lembra daquela borboleta? (ela disse que lembrava). Eu lembro que estava meio calor. Não estava? (ela disse que não, estava até meio frio). Porque é que estávamos lá mesmo? (ela também não se lembrava, ou se lembrava vagamente). Eu sei que tinha um cheiro. Não sei se era do seu shampoo. O sabonete ou sei lá, das flores. Tinha flores, não tinha? (tinha, ela disse). Então era das flores. Aquele cheiro. Era domingo ou algo assim (não era não, era um dia de semana). Nós estávamos faltando do emprego? Mas eu nunca faltava de meu emprego (faltou aquela vez).

E depois a gente foi passear lá no bosque. Antes tomamos uma cerveja num barzinho, não foi? (foi, era um barzinho escuro e o dono colocou uma mesa na calçada e ficou olhando para a gente, parecia que ele estava com inveja da gente, lembra? você ainda comentou). Eu não lembrava nada daquilo. Nem da mesa do bar. Mas lembrava daquele dia. Perfeitamente.

E depois fomos para o bosque (foi). E passeamos naquelas trilhas que o bosque tem, tudo era meio úmido. Eu lembro agora. Estava meio frio mesmo. Havia até uma certa neblina. Neblina tinha, não tinha? (não lembro, acho que tinha sim). Tinha sim. Neblina eu tenho certeza que tinha. E eu lembro que o pavão abriu o leque colorido para você. E nós dois ficamos olhando para ele e eu comentei que os pavões não precisam de alucinógenos. Eles tinham um no rabo. E nós rimos. (é, disse ela, rindo). E eu ri também. Quantos anos depois? Quantos anos já fazem? (uns quatorze, quinze, menos eu acho, acho que fazem treze anos). É mais ou menos a idade da filha. Quantos anos está a Gabi mesmo? Treze? (doze, ela falou).

Doze anos. Veja você... Mas ela está para fazer aniversário. São quase treze anos (é). Eu lembro que eu ia para a praça pedir diretas-já (é mesmo! tinha aquelas passeatas e tudo). É, tinha. E aquelas rosas amarelas que a gente andava na lapela. Lembra quando fomos votar de branco. Era o símbolo da campanha do Suplicy. Era para senador? (deputado? não, era senador mesmo, fomos nós três, você, a Gabi e eu). A Gabriela já tinha nascido? (tinha, estava aprendendo a andar, ela foi de branco também). E hoje o Lula quer fazer acordo com o Quércia... Veja só, como o tempo passa (é). Ainda teve a vez do "fora-Collor", lembra? (lembro, mas isso já é bem mais recente). É. E eu pendurei uma bandeira preta na frente da padaria. Para protestar, lembra? (lembro). E quando o Collor caiu, de gozação, eu mandei imprimir na gráfica uns panfletinhos escritos "fora-Itamar" (é, e meu pai ficou bem bravo com você). Foi mesmo. E nós rimos de novo.

Quatorze anos. Às vezes eu achava que não ia durar (eu também, lembra aquela menina que morava comigo? dizia que não ia durar e eu ficava encanada). Eu lembro dela. Como ela se chamava mesmo? (nem lembro).

Ficamos em silêncio uns minutos. Aí a Elba Ramalho cantou a última frase da música. "Pavão Misterioso", sabe?

...não temas, minha donzela, nossa sorte nessa guerra...

Pouco depois fomos dormir. É bom não estar sozinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conversa franca

14 de abril de 1998

 

- Pai, a gente precisa voltar...

- Porquê?

- Esqueci uma coisa. Já tinha esquecido ontem. Hoje tenho que levar.

Fiquei olhando para a escola. Todas as crianças entrando e os pais indo embora. E minha filha tinha esquecido uma coisa.

- Que coisa?

- Um negócio lá, para a aula de arte.

Aula de arte. O que será que essas professoras dão numa aula de arte? Essas pinturas modernas, nem precisa muita técnica. E para um trabalho escolar sempre tem aqueles arquivos no computador, com uns desenhinhos. Não precisa nem saber desenhar mais. Olhei no relógio. Dava tempo de voltar para casa, pegar a tal coisa e voltar. Com folga.

- Mas é importante mesmo?

- É, pai. Vamos, se não não vai dar tempo.

Engatei primeira e saí. Bravo. Não sei também por que fiquei bravo. Não tinha nada para fazer até lá pelas oito da manhã. Em vez de ficar em casa vendo aqueles desenhos animados idiotas, ficaria um pouco mais com minha filha. Bater um papo...

- E as coisas, filha? Como vão?

- Ahn ?

- As coisas, filha...Como vão indo para você?

- Ahn...Bem., eu acho. Que coisas?

Que coisas? Boa pergunta. O que é que eu posso perguntar para uma garota de doze anos? Posso perguntar como é que ela vai na escola. Ou se ela já arrumou algum paquera. É isso.

- E então? Como é que vão as coisas na escola? Já arrumou algum paquera?

- É...Tem um carinha, mas não é nada não...

- Ah...

Aí, idiota. Ela tem um paquera. E agora? O que é que você fala? Sua filha de doze anos tem um paquera. Veja só...Ela não é muito nova? Doze anos... Perguntar para alguém. Se é normal ou não. O que é que eu fazia mesmo com doze anos? Eu não lembro de uma paquera. Para falar a verdade, eu não me lembro dos meus doze anos.

- Pai, cuidado com o cara aí, da bicicleta...

- Eu estou vendo filha...

Chegamos em casa e ela desceu. Olhei para ela. Uma mocinha. Colocando a chave na porta, entrando, logo depois saindo, com um embrulho na mão. A coisa. E se fosse um presente para o tal namorado? Ela esqueceu do aniversário dele ontem, tinha que levar hoje. É isso.

- Isso aí é o presente do seu namorado, não é? - eu disse, saindo com o carro.

- Que namorado? Pai, é um moleque lá que eu dou umas olhadas. Que nem o Leonardo de Caprio, acho ele bonitinho, só isso. Não é namorado.

- Então o que é essa coisa?

Estávamos já quase de volta na escola. O trânsito começava a piorar, os pais parando em fila dupla, crianças atravessando. Minha filha olhou para mim e riu, mas começou a desembrulhar o presente do namorado. Chegamos à entrada da escola e ela me mostrou: uma caixa de giz de cera.

- É para a aula de artes, pai...Tchau.

Eu fui embora mais devagar que o de costume. Pensando no dia que ela nasceu, naquele dia que ela foi atropelada e eu desmaiei de susto e nem consegui ajudar, na primeira vez que ela viu o mar. E agora, veja só...Minha filha está namorando...

- E namorando um artista...- pensei, resignado - Um artista...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Viagra: Desenterrando Maristela

14 de maio de 1998

Já era pai de família. Três filhos: duas meninas mais velhas e um garoto de quinze anos. Não precisava provar mais nada para ninguém. Nem para a esposa, que estava muito satisfeita, obrigado. O problema era com ele mesmo. Tentava não pensar no assunto mas, todas as vezes que via a notícia no jornal ou na televisão, a maldita idéia voltava a perturbar. Ficou esperando o tal do remédio ser liberado para o Brasil. As pessoas estavam mandando importar, não ia demorar muito. Leu no jornal que a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária estava tentando, junto à empresa fabricante, a antecipação da comercialização do produto. Na mesma reportagem havia uma descrição aproximada do comprimido: um lozangozinho azul. Chegava em casa à noite, cansado, e ia dormir. Não queria pensar no assunto mas, em seus sonhos, o maldito comprimido surgia. Aparecia como um balão, às vezes. Flutuando e azul. Em outras aparecia como uma estrela no céu.

Numa dessas noites tentou manter uma relação sexual com a esposa e não conseguiu. Nunca mais havia acontecido. Nem com a esposa nem com qualquer outra. Desde aquele dia, há trinta anos atrás. Ele tinha quinze. Dois amigos mais velhos resolveram ir na zona. Perguntaram se ele queria ir. Não podia dizer que não, o que iriam dizer? Foi. Os amigos tomaram umas cervejas e ele tomou também. Aí os amigos começaram a brincar com ele, dizendo que era virgem. Ora, se ele era, se ele não era, ninguém tinha nada com isso. O que não podia aguentar era aquela gozação. Disse que não era. Então os amigos pagaram um mulher adiantado. A filha da dona. Ele estava meio bêbado, não lembra direito o que aconteceu depois. Lembra que foram para o quarto e ele não conseguiu nada. Perguntou quanto eles tinham pago para ela. Maristela disse. Ela se chamava Maristela. Ele pagou o dobro para ela não falar. Que ele não tinha conseguido, entende?

E nunca mais conseguiu esquecer aquele dia. Ficou incrustado assim, na sua cabeça. O dia, o nome da prostituta e a casa em que estavam. E agora lançam esse comprimido que causa a ereção uma hora depois de ingerido. Uma maravilha. Só que inventada trinta anos atrasada.

O Viagra, enfim, chega ao Brasil. Não é barato. Vai até à farmácia e compra uma cartela. Não precisa de mais que uma. Doze comprimidos. Viagra. É um nome danado para um remédio para...para isso. Parece ser de uma coisa, sei lá, ilegal.

Pega o ônibus no dia seguinte e, em vez de ir para o emprego, vai até aquele bairro. Se lembrava mais ou menos. Ela ainda deve trabalhar por lá. Essas mulheres não mudam de vida. E ela era filha da dona. Maristela. No trajeto tomou um comprimido. Uma hora, dizia a bula. Uma hora e faria efeito. Continuou lendo. Informações ao paciente: Cuidado, pode causar priapismo. O que diabo seria priapismo? Parou de ler. Não ia querer ficar preocupado. Não hoje. O ônibus chegou. Fim da linha, estavam quase fora da cidade. Era ali mesmo. Sabia o caminho de cor. Sonhou quantas vezes esses anos todos. Achou a casa. Entrou. Algumas mulheres na sala. Não estavam acostumadas com fregueses assim, de manhã. Perguntou se alguém conhecia a Maristela. - A filha da dona. As mulheres se olharam e disseram que sim, conheciam a Maristela. Uma delas se levantou e disse que iria chamá-la. Talvez demorasse um pouco. Ele se sentou e pediu um copo de água. Tomou mais dois Viagra. O que será priapismo? Quinze minutos, meia hora. Sentiu que estava ficando excitado. Muito excitado. Quarenta minutos, entra no recinto uma senhora, seus sessenta, sessenta e poucos anos:

- Pois não. O senhor queria me ver?

Trinta anos. Como você foi estúpido. - Desculpe, não. Quer dizer, foi um engano. Obrigado. Bom...ãhm...trabalho. Bom dia para todas. E foi embora. Com uma senhora ereção e a sensação que estava velho. Mais velho que a Maristela.

- Eu estou é ficando gagá... - e riu sozinho, no ônibus, voltando para casa. Para sua mulher e seus três filhos. Duas meninas e um garoto. De quinze anos.

obs: priamismo é uma ereção descontrolada e constante. O Viagra ainda não tinha sido liberado no Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quanto foi?

11 de junho de 1998

Era um velório. O que é que se podia fazer? Há um defunto, há um velório. Mesmo os mais chegados, os que realmente sentiam alguma coisa mais forte pelo defunto, sabiam. Dia errado. Já se esperava algum constrangimento. Os médicos disseram para enterrá-lo logo depois do meio-dia. Eles se entreolharam e, constrangidos, aceitaram. Mas não dava. Jogo da seleção. Abertura da Copa. Quando informavam o horário do enterro para os amigos, diziam: - Depois das duas, lá pelas três da tarde. Era uma boa hora. Haveria tempo para as pessoas colocarem seus humores nos devidos lugares. Lá pelas onze só restavam os filhos. Nem os primos que vieram lá do Rio de Janeiro ficaram. Mas era compreensível. Não havia clima. O filho mais novo quase foi com um dos primos cariocas. Disse que era preciso alguém para fazer sala para as visitas. A irmã e o irmão mais velho fuzilaram olhares. Ele desistiu da idéia e sentou-se, mal disfarçando o mau humor. Lá pelo meio-dia começaram a pipocar os rojões. Primeiro tímidos, depois ensurdecedores. Os três irmãos se entreolharam. Já tinham conversado sobre isso. Era esperado. Ficariam calmos, não havia o que fazer. Quietos, deixaram os minutos passarem. Meio-dia e meia. O silêncio do velório só era cortado pelo barulho do isqueiro, acendendo mais um cigarro do filho mais novo, e pelos suspiros da irmã. A cada suspiro da irmã os dois irmãos se revolviam nas cadeiras de madeira. Olhavam para ela e se sentiam culpados. O pai ali, morto, e seus pensamentos voltados para coisas tão...tão...mundanas... Ouviram rojões novamente. Os dois irmãos se olharam. O mais velho se levantou e sentou-se próximo ao mais novo:

- O que é que você acha?

- O que eu acho do quê?

- Ora, você sabe, os rojões...

O mais novo disfarçou um sorriso. - Não sei. Com a Argentina eu ouvi uns rojões. Têm uns caras que quando o Brasil joga mal, torcem para o outro, de sacanagem. O mais velho se levantou. Pediu um cigarro para o mais novo e foi até a entrada do velório. Ninguém. Absolutamente ninguém. - Podia ter um barzinho aqui por perto, nem isso. A irmã suspirou, trazendo-o de volta. Olhou para o pai, ali no caixão. Acendeu o cigarro. Estava parando de fumar, mas não hoje. Voltou a se sentar com o irmão. Repararam na irmã. O olhar perdido. De vez em quando um suspiro. Invejavam a sua integridade naquele momento desconfortável. Os amigos com desculpas esfarrapadas abandonaram o velório. E ela suportando tudo, firme. Certo, o pai já vinha doente. Já estavam conformados há tempos. Mas nada que desculpasse estarem alheios ao momento fúnebre. A irmã não. Ela demonstrava sua dor. De vez em quando, lágrimas rolavam de seus olhos. E suspiros. Passaram-se mais alguns incontáveis minutos e um senhor, velho amigo de seu pai, entra pela porta do velório. Os três, quase que surpresos, encaram o homem. Ele se dirige à moça. A abraça e lhe dá os pêsames. Depois vem em direção a eles.

- Pergunta para ele, o mais novo fala, ao ouvido do irmão.

- Pergunta o quê?

- Quanto está o jogo, ué...O que é que você acha?

- Pergunta você... Onde é que já se viu?

Nenhum dos dois perguntou. O velho ficou mais alguns momentos, rezou um pouco. Ou, pelo menos, fez o sinal da cruz. E saiu. Os dois se enervaram um com o outro. O mais velho sentou-se do outro lado da sala. - Perguntar quanto está o jogo... Com o pai ali, morto...

Uma hora ou duas depois, os amigos começaram a voltar. O jogo tinha terminado. Eles aguentaram até agora. Não perguntariam para ninguém, até enterrarem o pai. Agora era questão de honra.

Pai enterrado, se despediram de todos. Subiram no carro. O irmão mais velho de motorista, a irmã ao lado, o mais novo atrás.

- O que é isso na sua orelha? - o mais novo perguntou para a irmã, apontado um pequeno volume que lhe saltava do ouvido.

- O quê? Isso? É...É...para surdez. Eu não ando escutando muito bem...

O irmão puxou da orelha dela: um radinho AM/FM. Do Paraguai.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A luta continua

02 de julho de 1998

Ela começou a falar e falar. Falar que as coisas não podiam ficar do jeito que estão. - Você entende?, ela perguntava. Eu com a cabeça dizia que sim. Ela continuava. Dizia que seria muito mais fácil se as pessoas dividissem as coisas, se houvesse uma espécie de teto para os salários.

- Por que a gente precisa tanto do lixeiro quanto do médico, não precisa?

Eu respondia que sim. É claro. Tanto do médico quanto do lixeiro.

- Ou dos advogados, eu disse.

- É isso. Você está pegando a idéia.

E dizia que ninguém podia viver assim, fingindo que não via. Que era hora de se unir. As pessoas precisam de mais espírito de luta. Os estudantes têm esse espírito de luta.

- E os intelectuais têm o respeito da sociedade... Têm que se unir, criar um movimento, sei lá...

Eu me levantei e fui tomar um café. Falei para ela esperar um pouco, eu ia até ali fora, fumar um cigarro. Eu não gostava de fumar em ambientes fechados. Ainda mais com uma criança de dezesseis anos por perto. Ela me disse que podia fumar. Ela mesma já havia dado uns tragos. Não achou graça, mas cada um podia fazer o que bem entendesse na vida. Era mais uma coisa que ficava martelando a cabeça dela. Por que é que as pessoas interferiam tanto na vida umas das outras. Será que não podiam tomar conta das próprias vidas? Por ela, liberavam tudo.

- Drogas, tudo...

Ela vinha me seguindo, lá para fora. Chegamos na varanda e eu acendi meu cigarro. Dei um trago comprido, tentando parecer pensativo. Olhei para ela e perguntei:

- E de que maneira você pretende implantar essas suas idéias?

Ela me disse que já tinha uma porção de amigos, que se reuniam toda semana. Que eles faziam até planos. Precisavam fazer panfletos, espalhar a idéia. Por que não era uma idéia regional. Era uma coisa que poderia se transformar numa bola de neve. - Quem é que não quer igualdade? Todo mundo quer igualdade. Até as religiões querem a igualdade. Embora as religiões também sirvam para amansar a população, mas essa é outra história. O que estou querendo dizer é que para difundir as idéias é preciso dinheiro. Para tudo precisa dinheiro. E dinheiro só os que não querem mudanças têm. Então (nesse ponto ela olhou em volta e abaixou o tom de voz) nós achamos que devemos tirar dinheiro na marra. Sequestros, sei lá. Mas só de banqueiros, esses caras. Tipos Robin Hood, entende?

- Entendo, eu disse, dando outro trago no cigarro e soltando a fumaça pelo nariz.

Ela continuou dizendo que tinha uns amigos que entendiam demais de computador. Eram hacker's. Explicou que hacker's são caras que entram em outros computadores pela internet e fazem o que querem. Perguntou se eu nunca tinha ouvido falar neles, já tinham entrado até nos computadores da CIA. Eu já tinha ouvido falar.

- E o que é que tem os hacher's?, perguntei.

Ela respondeu que os amigos dela poderiam entrar nos computadores do governo, desativar cobranças de impostos, trocar números de contas bancárias. Instalar o caos. E aí eles se aproveitariam e...tomariam o poder!!!

- Tomariam o quê?

- O poder! Tomaríamos o poder! Fundaríamos uma sociedade mais justa, onde a riqueza do país fosse dividida igualitáriamente. Logo outros países veriam que esse é o único modo possível de viver. Se aliariam a nós, num imenso bloco. Seríamos a outra face do neo-liberalismo. Você não entende? Eu estou falando do futuro. Um futuro que, queiramos ou não, vai acontecer. O homem evolui para isso. Seria a sociedade perfeita!

Eu acabei meu cigarro. Joguei no chão e pisei, esmagando os últimos sinais de brasa com a ponta do sapato. Sorri.

Ela tinha acabado de inventar o comunismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma gata

14 de julho de 1998

Era noite e ela ainda não havia voltado. Fez de conta que não estava ligando, continuou assistindo TV como se não estivesse acontecendo nada. Olhava pela janela de vez em quando. Voltava para a frente da TV, controle remoto na mão. Ficava olhando a telinha azul despencando imagens sem sentido. O controle remoto criou uma nova programação. São programas onde imagens aleatórias de desenhos animados e de comentaristas políticos se intercalam, numa corrida sem sentido. São programas diferentes todos os dias, mas iguais em sua falta de objetividade. Desligou a TV, ligou o aparelho de som. Sintonizou uma rádio, para não precisar ficar trocando de CD. A música sertaneja invadiu as FM’s. Ele era do tempo em que as FM’s só tocavam música americana. Ou MPB. Não faz muito tempo não, até você deve se lembrar. E agora...só sertaneja. Ou pagode, essas coisas. Levantou e olhou pela janela de novo. O relógio. Ela devia ter chegado há mais de três horas. Deveria haver uma explicação lógica. Começou a tocar outra do Leandro e Leonardo. Resolveu colocar um CD. Aquela casa estava uma confusão. Procurou. Entre suas coisas tinha um CD com a trilha sonora do "Blade Runner", não achava. Desistiu de procurar. Devia estar perdido debaixo de alguma dessas almofadas. Ela gosta de almofadas. Tinha tantas por causa dela. Primeiro gostava daquelas menores, depois ele começou a trazer para casa aqueles almofadões. Deitavam e ficavam assistindo TV. Eles nem sentavam mais no sofá. Com o tempo, dispensou os dois módulos, um com três lugares, outro com dois. A sala ficou maior, arrumou mais almofadas. A sala estava lotada. Tropeçava nelas quando entrava em casa, no escuro. De vez em quando ela estava ali, enroscada com as almofadas, dormindo. Tropeçava nela também. Às vezes se agarrava em suas pernas e o fazia cair. Ele ria, se abraçava a ela e fazia cócegas na sua barriga. Ela não aguentava cócegas na barriga. Se davam bem.

Resolveu comer um pouco. Foi até a cozinha e esquentou um pouco de leite. Um pouco de leite quente o acalmava. Fez uma gemada. Bateu as gemas com açúcar e colocou no leite. Ficou mexendo com a colher de pau, até dissolver bem. Ela adorava gemada. Deixou um pouco na caneca, no caso dela voltar. Abriu a geladeira e tinha uma bolachas de maizena no pacote aberto. Pegou algumas. Gemada e bolachas maizena.

É o que há.

Agora sim, havia ficado bem tarde. Novamente se aproximou da janela, a xícara com a gemada na mão, deu uma última expiada. Talvez não volte hoje. Já havia feito isso muitas vezes. Acabava voltando. Voltava com o rabo entre as pernas, como que a pedir perdão. Ele sorria e sempre a desculpava. Não era de guardar rancores.

Mais uma hora ou duas se passaram, percebeu que iria dormir sozinho aquela noite. Ligou a TV novamente. Deixou na Globo mesmo, a transmissão não se interrompia. Sempre acordava quando deixava em outros canais, a programação acabava, acordava com o chiado da TV fora do ar. A Globo ficava a noite inteira. Arrumou umas almofadas, se deitou. Estava passando um filme de adolescentes de férias, seios, garotas loiras de biquini. Os olhos começaram a piscar. Fechou os olhos. Ainda ouvia o filme, depois nem isso. Dormiu.

Acordou com o hálito quente e forte dela. Era um cheiro conhecido. Depois de um tempo a gente se acostuma com os cheiros. Ela tinha um hálito diferente, adocicado. Sentia até saudades daquele cheiro. Ela se acomodou ao seu lado, buscando o calor de seu corpo. Ele a abraçou e sorriu.

Ela sempre voltava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atenção dona de casa

01 de agosto de 1998

"Caminhão carregado com galinhas "Cross" de 2,3 kg está com problemas mecânicos em frente ao Posto do Villar. Sendo a carga composta de animais vivos, precisamos vendê-la urgentemente. Os preços estão pela metade do custo...São 5 galinhas "Cross" por R$5,00 ou 12 por R$10,00 e você ainda leva ovos de brinde. Favor levar sacos ou sacolas. Somente hoje..."

O rádio estava insistente. Perguntei para a cozinheira, lá do serviço, se era um bom preço.

- Ótimo preço, sim senhor. Para estar vendendo assim, o dono deve estar em apuros.

Cocei a cabeça. Galinhas vivas. Mas, segundo ela, estava mesmo valendo a pena. (pena?). O problema seria matá-las. Por que uma coisa é você tirar um frango de dentro de um saco plástico, destrinchar e colocar dentro de uma panela de pressão e outra, bem diferente, é você olhar para a cara de uma galinha, e ela ali, olhando para você. Ela deve olhar para gente, não deve? E aí a gente pah! corta a cabeça dela. Sangue.

Sangra, não sangra?

- Sangra, confirmou a cozinheira. E bastante.

Então. Não sei se eu dou conta. Um amigo um dia viu uma galinha botar um ovo. Nunca mais comeu nem omelete.

- Faz o seguinte. O senhor vai lá, compra e trás aqui. Eu mato para o senhor. E limpo.

- Por que limpa? Ela vem suja?

- As penas. Tem que tirar as penas...

Ah é. As penas. Tinha me esquecido das penas. Combinei lá, com ela. Depois do almoço eu traria as galinhas.

- E você limpa as cinco?

- Doze. Se o senhor não se incomodar, pode trazer doze que eu vou levar umas para casa, para criar no quintal...São doze por dez, não é?

Era. Doze galinhas por dez reais. E não eram galinhas quaisquer. Galinhas Cross.

- Como é que são as Galinhas Cross?

- São galinhas, como as outras, só que de marca.

De raça, ela devia estar querendo dizer. Quase hora do almoço. Comecei a procurar por lá uns sacos, ou sacolas. O rapaz pedia no rádio: levar sacos. Entrei na cozinha do emprego e dei uma procurada. Dentro de um armarinho encontrei um pacote de Sanito, desses pretos, grandes. Achei que dava. Em vez de ir para casa, almoçar, fui para o Posto do Villar. Comprar galinhas.

Uma fila enorme. Não deu nem para almoçar. Paguei primeiro e disse que vinha com o carro até ali. A gente já joga as galinhas para dentro. Melhor, não é?

- É, não se preocupe. E elas estão com as pernas amarradas. Não vão sair por aí, correndo.

Encostei o carro ao lado do caminhão. O rapaz veio com as galinhas. Peguei os sacos e comecei a abrir. Cabiam umas três galinhas em cada um. Fomos ajeitando aqui e ali.

- Amarra bem a boca do saco.

O rapaz ria e falava que não era bom, elas poderiam morrer sufocadas. É mesmo. Galinha respira. Deixamos as bocas dos sacos meio abertas. Paguei os dez reais. Dei uma última olhada para o caminhão e para as galinhas. O rapaz não ia ter muito prejuízo. Pelo jeito, ia vender tudo até a tarde.

Cheiro forte. De ração, de galinha, sei lá. Abri as janelas do carro, para ventilar. As galinhas começaram a cacarejar. Penas começaram a fazer redemoinhos. O carpete, os bancos, meu cabelo, tudo coberto de penas. Uma delas, acho que com o bico, rasgou o saco. Começou a bater as asas, achei que ia sair voando. Galinhas voam? Fechei as janelas.

Afinal as coisas deram mais ou menos certo. As galinhas foram mortas e limpas e a cozinheira levou as dela. Acabei nem cobrando.

- Fica pelo serviço...

Cheguei em casa, os cinco frangos na geladeira. Por que vivas, são galinhas. Mortos e depenados são frangos. Também não sei por que. Minha mulher fez um, naquela tarde mesmo. Ficou meio duro.

- São as galinhas. É tudo galinha velha. Tenho certeza.

À noite, precisei abastecer o carro. Por curiosidade, fui ao Villar. Queria dar uma olhadinha, ver se o rapaz tinha vendido a carga.

Cheguei em tempo de vê-lo dando partida no caminhão e partindo. Parecia feliz. O frentista do posto disse que o caminhão nem estava quebrado nem nada. Eu dei risadas, olhando as penas no banco do passageiro.

Pode ter sido meio desonesto. Mas o vendedor de galinhas era um gênio publicitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O boi

13 de agosto de 1998

- Olha lá. Ele não está olhando. Vamos tentar de novo.

Abriram as portas da viatura da Cesp e tentaram se aproximar do poste. Mas nem bem a porta era destravada, o boi vinha a galope (bois galopam?) em direção a eles, fazendo com que voltassem correndo, batendo as portas ao entrarem no carro. O boi ainda dava uma pequena volta pela caminhonete, como que a se certificar que todos tinham entrado. Voltava para o pequeno tufo de grama que crescia junto ao poste de luz, arrancava um pouco e ficava mascando. Despreocupado, de vez em quando levantava a cabeça e fitava os ocupantes da velha Veraneio.

- E agora, que é que a gente faz?

Os quatro ficaram em silêncio. Um deles resolveu ligar para a central da Cesp.

- Não é mais Cesp. É Elektro. Vai falar Cesp aí no rádio que o pessoal fica bravo. Já avisaram. É para falar Elektro.

- ‘Tá bom, ‘tô sabendo...

A secretária atendeu. Pediram para chamar o supervisor. Explicaram a situação.

- Quer dizer que as quatro moças ainda não trocaram aquele fusível só por causa de um boi? Vocês sabiam que um bairro inteiro está sem luz por causa disso? E que a rádio da cidade está fora do ar desde as nove da manhã? Façam-me o favor... Consertem isso urgente!

E bateu o telefone. Os quatro dentro da Veraneio se olharam. E os quatro olharam para o boi. Mas o que diabos fazia um boi em pleno perímetro urbano?

- Deve ser de alguém que mora por aqui, um deles falou.

É isso. Resolveram perguntar nas redondezas. O motorista ligou o motor e engatou primeira. Ao olhar para frente, lá estava ele. O boi. Agora bem na frente da viatura, fechando o caminho. Começaram a buzinar. Ligaram as luzes do carro. Bateram nas portas. Nada. Tanto buzinaram, tanto sinal de luz, a bateria pifou.

- Bem que eu avisei que esta bateria estava por um triz...

Um deles começou a rir. Aquilo tudo era muito idiota.

- Quatro marmanjos trancados dentro de um carro sem bateria e um boi bravo do lado de fora. Se a gente contar isso para os outros, ninguém vai acreditar...

É. Ninguém ia acreditar. Nem o supervisor da Cesp...

- Elektro!

É. Elektro. Nem o supervisor da Elektro. Capaz que levassem uma repreensão. De repente, podiam até ser despedidos. Tinham que tomar uma atitude.

- Vamos fazer o seguinte. Dois descem pelo lado de cá, pode ser o motorista e eu. Enquanto o touro corre atrás da gente, os outros dois sobem no poste.

Era uma idéia. Não era a melhor idéia do mundo, mas era uma idéia. Se colocaram a postos. Dois nas portas da esquerda da Veraneio, dois nas portas da direita. Com as mão nos trincos.

- Vai. Eu vou contar até três. Quando eu contar três, nós dois saímos, aí os outros dois correm para o poste. Um, dois e... JÁ!

E correram. O boi atrás deles. Deu certo. Os outros dois correram para o poste e subiram. Olharam para os dois que corriam do boi. O boi desembestado vinha nos seus calcanhares. Deram a volta na caminhonete, não ia dar tempo de abrir a porta e entrar. Correram para o poste e subiram também. O boi embaixo, fungando e batendo com o casco no chão de terra batida. Feito aqueles touros nas arenas. Os quatro funcionários da companhia de luz pendurados no poste. Feito bolas de natal.

- E agora?

- Já que estamos aqui, vamos trocar essa droga de fusível...

Ficaram lá mais uma meia hora depois de restabelecida a energia elétrica do bairro. Não passava ninguém. O tempo ameaçando chuva.

Aí passou o menino. Seus dez, doze anos. Com uma cordinha, se aproximou do animal. Os quatro ainda gritaram.

- Cuidado, menino...

- Ele é bravo, vai para lá, chame seu pai, alguém...

O garoto sorriu. Passou a cordinha em volta do pescoço do boi e foi levando o animal embora. Os quatro olhando para o garoto, sem acreditar.

- Mas como é que pode?

- Sei lá, vai ver é de estimação...

Conversando assim, nem desceram do poste nem perceberam outra viatura da companhia se aproximando. Era o supervisor:

- O que é que as quatro moças estão fazendo aí em cima? Nós ligamos para a viatura, ninguém atendia, viemos ver o que é que tinha acontecido. Onde é que está o tal touro?

Os quatro olharam para o boi e para o garoto. Ainda dava para vê-los dali, de cima do poste. Mas o supervisor lá embaixo não. Os quatro se olharam.

- Touro? Que touro?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguém por aqui come canetas

20 de agosto de 1998

- Minha caneta sumiu de novo... Mas não é possível...

A caneta dela. Tinha sumido. E ela tinha razão para reclamar. Quando não precisava de caneta, sempre tinha umas cinco por ali, dando sopa. Mas era alguém dizer ao telefone "- anote aí meu endereço" que PAH, todas as canetas sumiam. Começava a vasculhar as gavetas, dela mesma e dos companheiros do escritório. Acabava achando uma, mas quase sempre vermelha e acabando a tinta. Aí o fulano do lado de lá do telefone dizendo "- posso falar?" e ela "- espera um pouco..." com o isqueiro queimando a ponta da caneta para ver se escrevia. Mas ela não estava num de seus melhores dias. Se levantou raivosa e deixou o telefone de lado:

- Eu não vou mais atender freguês nenhum...

- Não é freguês. É cliente. Freguês é de padaria, boteco, essas coisas. Aqui é cliente.

- Cliente, freguês, é tudo a mesma coisa. Se essa firma não tem condição de deixar uma caneta disponível para cada funcionário, que se dane como é que chamam os fregueses...

E saiu. Os colegas acharam que ela não voltaria mais, de tão duro saiu pisando.

- Nossa...Só por causa de uma caneta..., comentaram, quando a viram sair.

Mas não demorou muito ela voltou. Com duas caixas fechadas de caneta Bic azul. Cada caixa com cinquenta. Eram cem canetas. Todos ficaram olhando. O chefe da seção, em particular, abaixou até os óculos e deu uma espiadinha por cima deles. Ela percebeu.

- Comprei com o meu dinheiro. Meu. E as canetas são minhas. Quem quiser comprar, dois reais cada.

E colocou as caixas em cima da mesa. Não duraram nem duas semanas. O chefe da seção mesmo, um dia, chegou para ela:

- Me empresta uma caneta?

- Dois reais. A vistinha.

- Mas o que é isso? Só para eu anotar o telefone de um cliente...

- Dois reais.

Ele comprou. Irritado, mas comprou. No fim do mês havia vendido quatro caixas de caneta, só ali na sua seção. Resolveu comprar mais algumas caixas e espalhar uns xerox com propaganda nas lojas em volta do escritório: Vende-se canetas. Foi quase um milagre. De dez em dez minutos alguém entrava. Procurando se era ali que se vendia canetas. Ela subiu o preço para três reais.

- Oferta e procura, vocês entendem...

Passou um tempo, começou a ganhar mais com as canetas que com o salário do escritório. O chefe começou a se irritar com o entra e sai das pessoas procurando canetas.

- Olha, eu não tenho nada com seus negócios particulares, mas seus clientes estão começando a atrapalhar o andamento do escritório.

- Fregueses.

- O que?

- Fregueses. Clientes são aqui do escritório. Os meus são fregueses.

E entregou a sua carta de demissão. Abriu uma loja no centro da cidade, especializada em vender canetas de porta em porta. Foi um achado. Começou a ganhar muito bem. Nada de fortunas, mas já era bem mais que o salário do escritório. Ainda outro dia passei por lá. Queria que os seus vendedores passassem de vez em quando no meu serviço. Volta e meia precisava de canetas. Falei com ela, que me atendeu com um sorriso:

- Mas é claro...Será um prazer. Deixa eu anotar seu endereço para entregar para um dos vendedores...

Colocou um bloco de notas em cima do balcão. E começou a abrir e fechar gavetas. Desesperadamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O inventor do leite condensado merece um prêmio

06 de setembro de 1998

 

- Não estou magra. Só estou mais saudável.

Eu fiquei olhando para ela e depois olhei para minha mulher. Minha mulher deu de ombros e sorriu. Seja lá o que for, a amiga dela estava muito esquisita. E magra. A pele estava branca. Abatida. Acho que percebi olheiras. E ela continuou com aquele papo de naturalista e tal. Que nós deveríamos tomar cuidado com o açúcar. Que o açúcar era um veneno. Sem contar as outras coisas.

- A carne, por exemplo. É um veneno. Câncer e tudo.

Ela era amiga de minha mulher e o papo era entre as duas. Resolvi me intrometer.

- Você não acha que esse papo está meio ham...ultrapassado? Meio "anos 60"?

- Ultrapassado nada. Super atual. Você não leu a "Veja" dessa semana, não?

E ela tirou a "Veja dessa semana" da bolsa. Era quarta feira e a "Veja" de segunda já estava toda amassada. Já deve ter mostrado para um monte de gente. Para provar que estava superatualizada.

- Dêem uma olhadinha aqui.

E ela nos mostrou aquela imensa lista de alimentos. Os que fazem bem e os que fazem mal. Igual a todos aqueles artigos que vocês já devem ter visto. Aquelas deliciosas feijoadas, aqueles hambúrgueres que jamais comeremos em lanchonete alguma, pois só existem nessas fotos, e as picanhas, ah, as picanhas... cor-de-rosa por dentro, com uma capa de gordura tostadinha... Câncer. Sempre câncer. Podia dar alguma outra coisa. Por exemplo: não coma feijoada por que feijoada dá resfriado. Ou: não coma picanha se não você pode ficar com caspas. Não. Sempre dá câncer.

- E vocês sabem: com câncer não se brinca.

De modo algum. Quem sou eu para brincar com o câncer. Tanto que eu ia fumar um cigarro mas olhei o primeiro item lá, na lista da "Veja". É lógico que o cigarro era o primeiro colocado. Não sei quantos por cento das mortes. Resolvi adiar meus tragos. Um pouco de respeito não faz mal para ninguém.

- E o açúcar, então? Um assassino branco. Mata mais que a cocaína.

- Espere aí...Onde é que está escrito isso?, disse minha mulher, puxando a revista para seu colo.

- Não está escrito. Mas aposto que mata.

Nós três caímos na risada. A descontração abriu espaço para que eu me levantasse e fosse até a varanda. Fumar meu cigarro.

Quando entrei novamente, as duas ainda comentavam sobre a reportagem. Falavam sobre os bolos de chocolate e de avelãs, que eram um perigo. As avelãs tinham sei lá que substância cancerígena. E o chocolate, deixar as crianças comer tanto chocolate...

- Caminho certo para o câncer. Sem contar as cáries.

Um bolo de avelã, veja você. E chocolate.

Sei que, com esse papo todo de comida, acabei ficando com vontade de comer um doce.

- Querida. Vê se você não tem aí na bolsa uma bala, qualquer coisa assim

Não tinha. Comecei a ficar nervoso. De dez em dez minutos abria a geladeira. Uns pedaços de alface murcho, um resto de coca-cola que sobrou do último fim de semana. Até tomei. Sem gás. Joguei o resto fora por que a amiga de minha mulher disse que refrigerantes, além do câncer de praxe, sem gás então, nem se fale...

- O refrigerante tem gás para proteger o líquido da proliferação dos micróbios...

- É mesmo? Para não proliferar micróbios? Taí. Essa eu não sabia.

Nunca tinha pensado sobre isso. Gás por causa dos micróbios. Boa essa. Dieta também é cultura. Pouco depois, lá estava eu novamente. A geladeira aberta, coçando a cabeça. Quem sabe uma lata de leite condensado, esquecida em algum canto.

Não tinha leite condensado, mas achei o açucareiro. Olhei para a sala, as duas estavam lá, com a revista no colo, ainda comentando a respeito dos males dos alimentos e tudo. Me escondi atrás da geladeira, enchi uma colher de açúcar e engoli de uma só vez.

Limpei os cantos da boca com as costas da mão e voltei para sala.

Com a deliciosa sensação de ter voltado, por instantes, aos meus dez anos de idade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pornografia II

24 de setembro de 1998

Minha mulher e eu, na sala. Assistindo TV. Aguardávamos a chegada da filha, que tinha ido para uma festa. Eu estava comendo uma daquelas bananinhas. Daquelas, que vem embrulhadas numa espécie de celofane, sabe? Antigamente chamavam de "mariola". Ando tendo umas cãibras à noite. Na batata da perna. Estou lá, no maior sono do mundo, sonhando com a Meg Ryan e, de repente, é como se o mundo virasse de ponta cabeça. Não é possível que exista dor maior no mundo. Parece que alguma coisa está querendo sair de dentro da perna, a gente acorda assustado, não sabe direito o que está acontecendo. Estávamos nos braços da Meg Ryan e de repente estamos ali, no quarto, nos contorcendo de dor. Aliás, a personagem vivida pela Meg Ryan no filme "A Cidade dos Anjos" disse que o homem suporta a dor oito vezes menos que a mulher. Deve ser por causa do parto, essas coisas. Mas não é possível que o parto doa mais que uma boa cãibra. Não é possível.

Bem, eu sei que me falaram para comer bananas. Que as cãibras cessariam. Tem ferro, fosfato, sei lá o quê. O problema é que eu nunca fui muito chegado em bananas. Não é exatamente o gosto da banana. É a banana como um todo.

Tudo bem enquanto elas estão lá, no cacho. Bonitas, vistosas. Amarelas, quase douradas. Vem até água na boca. Aí a gente escolhe uma. A que nos chama mais atenção. Quase sempre a maior, em diâmetro e comprimento. A separamos do restante do cacho e os problemas começam. Se o pecado está dentro de nossas cabeças, como li não sei onde, então estou condenado aos infernos. Por que não consigo olhar para uma banana e não fazer uma certa comparação. Não consigo. Seguro a banana e fico observando de longe. Às vezes até olho em volta, para ver se não tem ninguém espiando. E a banana ali, olhando para mim. Está certo. Bananas não olham. Mas ela fica ali, com aquele seu jeito meio...ela fica ali, encurvada. Me olhando. E eu olhando para ela.

Respiro fundo e tomo coragem. Aproximo a banana de minha boca. Entende que não é uma aproximação normal? Ela ali, cada vez mais próxima, chegando. Com aquele jeitão. Aí temos que descascar a banana. Quando eu era adolescente, descascar era gíria para uma coisa, não sei se ainda é. E eu ali, quase quarenta anos, uma filha que frequenta festas noturnas, e prestes a descascar uma banana. E para descascar, normalmente, a gente vira a banana em nossa direção. Ela é encurvada. Então ela fica ali, descrevendo uma pequena curva. Em direção à nossa boca. Se oferecendo. Normalmente, nessa hora, eu olho em volta novamente. Para me certificar que não tem ninguém observando. Se há alguém, desisto. Bananas não devem ser comidas em público. Se estou sozinho, arrisco.

Seguro na ponta da banana. Na ponta. Uma pequena pressão com o dedo e separo um pedaço da casca. Puxo para baixo, deixando a polpa à mostra. Mais um pedaço da casca e, de repente, ela está ali, desnuda. Subitamente a banana assume uma dupla coloração. A cor da casca quase até a ponta e outra, a da polpa. A casca formando uma espécie de flor em torno daquela ponta. Uma segunda pele.

A sensação de estar sendo observado é inevitável. Quase escondo a banana atrás de mim, mas isso soaria ainda pior. Ela fica ali, na minha mão. E eu já não sei se a seguro assim, com a ponta dos dedos, ou agarro com toda a mão, como se segura em torno de uma garrafa de coca-cola.

E a trago até a boca. Às vezes mordo com os olhos abertos, mas a maioria das vezes fecho os olhos. Por que a cena é terrivelmente constrangedora. O entreabrir de minha boca, a aproximação da banana, o fechar dos dentes em torno da ponta descascada. De repente me vem à cabeça que alguém entrou no recinto. E eu ali de olhos fechados. Com a banana na boca. Nunca iriam entender que é por que eu não queria ver a coisa toda. Abro os olhos e afasto rapidamente a banana. Mas não há ninguém. Olho novamente para a banana. Ela está sem a ponta. Sem a ponta. Eu estou mastigando a ponta dela. Aquela massa adocicada na minha boca vai ficando cada vez mais grossa. Por que a banana não é como a maçã ou a pêra, que são quase crocantes. A banana é macia, mole, carnuda. Carnuda?

Bem, mas isso faz parte do passado. Descobri as bananinhas. Muito melhores, industrializadas. Você desembrulha e joga na boca. Mastiga e pronto. Adeus cãibras noturnas. Eu estava ali, comendo minha bananinha e pensando nessas coisas. Minha filha chegou da tal festa. Da porta, fez tchauzinho para alguém que estava na calçada. Entrou e me viu.

- Boa noite, pai. O que é que você já tá mastigando?

- Bananinhas. Quer uma?

- Obrigado, pai. Mas eu prefiro a fruta mesmo.

Ela caminhou até a cozinha. Ia comer uma banana.

E eu não podia fazer absolutamente nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gramínea monóica

29 de setembro de 1998

- Os de frutas vinte centavos. Os de leite, quarenta.

Os preços dos sorvetes. Eu nunca entendi por que esses sorvetes de carrinho são tão baratos. Se é uma fábrica de fundo de quintal que faz, provavelmente em pouca quantidade, porque eles custam vinte centavos e os da Kibon custam um real?

- Eu sempre quis perguntar. Por que é tão barato?

- O quê?

- Os sorvetes...Porque os sorvetes do senhor são tão baratos perto dos da Kibon, por exemplo?

Ele coçou a cabeça.

- Eu não sei não senhor. Qual o senhor quer? De fruta? Ou de leite?

- Por que – continuei – a Kibon deve fazer milhares de sorvetes por dia. Milhões até. Mais sorvete do que a fábrica do senhor...

- A fábrica não é minha, não senhor. Eu trabalho para a fábrica.

- Certo, não importa. O que estou querendo dizer é que a fábrica para a qual o senhor trabalha não vai fazer em toda a vida o que a Kibon faz num dia só, entende?

- Entendo...

- E que quanto mais se faz, mais barato fica.

- Porque?

- Porque o quê?

- Porque fica mais barato se fizer mais?

- Por que...por que...por que pode comprar em maior quantidade, entende? Se comprar mais, compra mais barato, ganha mais prazo. E vende mais barato. E, se vende mais barato, vende mais. É o capitalismo.

- Certo. Entendi. Leite ou frutas?

- O quê?

- O sorvete. Leite ou frutas?

Ele não tinha ouvido nada do que eu tinha dito. Olhei para ele e fiquei até com dó. E ao mesmo tempo, inveja. A ignorância, às vezes, é confortante. Não sabe nada do que está acontecendo, da crise, dos juros aumentando, do pronunciamento do presidente, não sabe nada. Sabe que o de frutas é...

- Quanto é o de frutas mesmo?

- Vinte centavos. E o de leite trinta.

- Olha, eu sei que estou sendo chato. Mas... porque? A fruta é mais barata que o leite? Porque trinta o de leite e vinte o de fruta?

Ele coçou a cabeça de novo. Disse que não sabia, mas que desde que ele mesmo comprava sorvete era assim: o de leite era um pouco mais caro. Eu percebi que estava extrapolando. Estava me aproveitando da estupidez daquele homem. A maioria dos homens são assim, apenas vão vivendo, não se perguntam nada. Nem perguntam nada para ninguém. Ignorantes.

- Me vê um de milho, então...- falei.

Ele me deu o sorvete. Agradeci, coloquei as moedinhas na mão dele e me virei, já indo embora. Não dei nem dois passos, ele me chamou:

- Moço...Faltam dez centavos...

- Como assim? O de frutas não é vinte?

- Os de fruta são.

- Então...Milho é fruta. Vinte centavos.

- Olha...o senhor vai me desculpar, mas milho não é fruta. Milho é uma erva, da família das gramíneas. O sorvete que o senhor está comendo é feito com os grãos dessa gramínea.

- Gramínea? O milho não é fruta?

- Não senhor. Fui criado numa fazenda e sei muito bem o que é o milho. Gramínea monóica. O senhor sabe o que é monóica?

- Mo...monóica? – balbuciei, incrédulo.

- Monóica é a planta que tem as flores fêmea e macho separadas mas no mesmo indivíduo.

- Macho e fêmea...no mesmo indivíduo? Monóicas?

- É. Monóicas.

Paguei os dez centavos que faltavam. Boquiaberto. Ele pegou a moeda e deu uma mordidinha, como fazem aqueles cowboys, em filmes americanos. Jogou a moedinha para cima e a pegou de novo, no ar. Olhou para mim, sorriu e deu uma piscadinha.

Eu merecia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jogue o lixo no lixo

01 de outubro de 1998

 

- Nessa época ele está muito ocupado. É época de eleições e está quase chegando o dia da votação. O senhor sabe, não sabe?

- Sei. Inclusive eu cheguei até a pensar em votar nele. Mas eu acho que não vou mais.

Ele estava com um saco nas costas, desses de farinha de 60 quilos. A recepcionista olhava desconfiada.

- O que é que o senhor quer com ele?

- Falar. Ele quer o meu voto, não quer? Tem que falar comigo. Ou não pode?

A recepcionista olhou para o rapaz. Até que era simpático.

- O senhor aguarda um minuto? Vou ver o que eu posso fazer. Pode se sentar ali, no sofá, enquanto espera.

O rapaz se sentou. Colocou o saco ao seu lado e puxou uma revista, que eles deixavam ali, em cima de uma mesinha. Dessas revistas com propagandas do partido.

A secretária se dirigiu à sala do candidato.

- O senhor está muito ocupado?- ela perguntou, ainda da porta, que apenas entreabriu.

O candidato estava sentado em sua cadeira, com o computador em frente. Conferia os últimos resultados da pesquisa, pela Internet. Os óculos de leitura na ponta do nariz.

- Não. Estou só dando uma conferida nas pesquisas. Está apertado, mas acho que vai dar. Cada voto é importante nesse momento... Eu já te dei uns santinhos para você distribuir no seu bairro, não dei?

- Deu sim. Um monte. Olha, se o senhor não está muito ocupado, tem uma rapaz aí fora. Quer falar com o senhor. Diz que ia votar no senhor, parece que não vai mais.

Ele fez sinal com a mão, para que ela entrasse e fechasse a porta. Ela se aproximou.

- Você acha que ele vai pedir alguma coisa?

- Não sei. Ele está com um saco nas costas. Mas não parece ser um mendigo, nem nada. Está até que bem vestido...

- Um saco? Mas será que não é uma bomba, ou algo assim? Nós temos que estar preparados para esse tipo de coisa...

- Que bomba nada. Ele tem até jeito de ser uma boa pessoa. Educado...

- Ah. Manda entrar. Nesse momento eu não posso me dar ao luxo de perder um voto sequer. Manda entrar.

Ela saiu. Chegou para o rapaz do saco:

- Pode entrar. Ele está aguardando.

O rapaz agradeceu, juntou seu saco e entrou na sala. Foi atendido com um sorriso, braços abertos:

- Bom dia. Muito prazer, em que posso ajudá-lo?

- Olha, o senhor não pode me ajudar em absolutamente nada. Aliás, eu acho que sou eu quem pode ajudá-lo. Eu estava olhando aqui, um desses santinhos. É do senhor, não é?

O candidato pegou o santinho. Lá estava, a foto dele, o sorriso. Tinha saído bem na foto.

- É. É meu.

- Então. Eu percebi que ele não tem data nem nada...

O candidato olhou o santinho de novo. É, realmente não tinha data. Mas para quê que precisava de data?

- Não, não estou falando que precisa. Foi só uma observação. Se não tem data, pode usar de novo. Não pode?

- Pode. Porque não?

- Então...olha aqui o que é que eu trouxe para o senhor...

O rapaz, calmamente, abaixou e levantou o saco que havia trazido. Virou de cabeça para baixo e despejou sobre o chão não sei quantos santinhos, panfletos e canetinhas do candidato.

- Essa sujeirada toda o senhor jogou no quintal da minha casa. E eu fui juntando. O senhor pode usar de novo, se quiser...mas nas próximas eleições. Por que nessa aqui, ó...

Deu uma "banana" para o candidato e foi embora. Com a alma lavada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Qualidade Total

31 de outubro de 1998

Parece que virou mania. Qualidade Total. Auto-estima. Essas coisas. E volta e meia tem as palestras. Circulam no comércio, nas faculdades. Os panfletos:

Dia 10 de novembro, no auditório da faculdade, palestra sobre "Qualidade Total na Era da Globalização", ministrada pelo professor em "Marketing e Psicologia Aplicada", doutorado pela Universidade de Oxford, Marcos Canheiristck.

- Marcos o quê?

Qualquer nome, não importa. É um nome aleatório. Mas normalmente os nomes tem uns ipsilons e uns dáblios. Acho que para ficar mais imponente, sei lá. Os patrões pedem para seus funcionários não perderem. Que a palestra é uma maravilha. Os funcionários coçam a cabeça:

- Outro seminário de Globalização? Eu não aguento mais ouvir falar de Globalização...

Mas acabam indo. Tem de ir. Os patrões vão. Talvez até para ver quais funcionários são interessados na coisa toda.

- Que coisa?

Sei lá. As coisas que eles falam lá. Qualidade Total. Marketing Pessoal. Essas coisas. Parece que sem a tal da Qualidade Total, não se pode mais viver. Ninguém nem tinha ouvido falar de qualidade total a três, quatro anos. Você já tinha ouvido falar?

- Acho que é invenção nova. Deve ser parte da tal da Globalização. Não existia Globalização também, existia?

Há três ou quatro anos? Acho que não. Tudo invenção nova. Mas já existem especialistas. São aqueles com os dáblios e os ipsilons no nome. Sabem tanto que resolvem dar palestras. Ganham bem esses caras, para dar essas palestras.

- Quanto?

Não sei assim, certinho. Mas eles ganham mais numa dessas palestras do que nós ganhamos no ano inteiro. Isso eu te garanto.

- Mais do que nós ganhamos no ano?

É. Se bem que nós não ganhamos tão bem assim. Mas que eles ganham uma grana preta, ganham.

O problema são as palestras. A gente vai nessas palestras e eles ficam mandando a gente abraçar o cara que está ao lado da gente. E a gente fica com aquela cara de idiota, abraçado com um sujeito que nunca viu na vida. Uma droga. É o que são essas palestras.

Outro dia desses, fui numa. O cara lá, dando a palestra. Vestido num terno amarelo. Parecia o Máskara. O auditório lotado. Mandava a gente levantar as mãos e gritar que era bom.

- Como assim?

A gente tinha que gritar: Eu sou maravilhoso! Eu sou capaz! Com os braços levantados para o ar. E ele falando: É isso, é isso que eu quero ouvir. Para animar a gente, entende? E ele começou a cantar uma música do Roberto Carlos. Aquela, que fala que o importante são as emoções que a gente viveu. Sabe?

- Sei. Chama "Emoções" mesmo.

Então. E eu olhava, e todo mundo estava emocionado. E ele falava que a gente precisa ir trabalhar com esse astral. Sabe? de festa... Não ir trabalhar desanimado de jeito nenhum. Amar o colega de serviço, amar o patrão, amar todo mundo. Eu fui ficando emocionado, emocionado, teve uma hora que eu não aguentei. Tasquei um beijo na boca dele.

- Você fez o quê?

Tasquei um beijo na boca dele. Não aguentei. Todo mundo eufórico, ele pedindo para a gente abraçar quem estivesse sentado ao nosso lado. O cara que estava sentado do meu lado esquerdo abraçou o que estava do outro lado. O que estava do meu lado direito, abraçou o outro. Fiquei sem ninguém para abraçar. O fulano que estava dando a palestra estava passando por ali, me segurou pelos ombros, olhou nos meus olhos...Eu não aguentei.... Beijei mesmo...

- Mas...Mas...E ele?

Saiu cuspindo. E limpando a boca. Ele não estava preparado para a Globalização Total.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minha filha adora cerejas

03 de dezembro de 1998

- Um sorvete.

- Qual sorvete?

- Qualquer um. Daqueles grandes. Como chama mesmo? Cheio de castanhas e daquelas melecas de chocolate. E chantili.

- Um Sundae?

- É. Um Sundae. Bem grande.

- Qual sabor?

- Sei lá...Chocolate? É. Chocolate. Tem cereja?

- Sabor cereja? Tem.

- Não "sabor cereja"... Cereja mesmo, daquelas para colocar em cima de tudo. Não aquelas gominhas vermelhas que só parecem cerejas. Cerejas mesmo. Tem?

- Tem.

- Põe duas ou três, então. Pode cobrar a mais se quiser.

Sentei na mesinha de plástico e fiquei esperando. Há quanto tempo não tomava um sorvete? Um Sundae? Coisa de ano. Mais até. Anos. E sempre com alguém. Dessa vez eu ia tomar sozinho. Desde criança queria fazer isso. Tomar um sorvete inteirinho, sem ninguém me enchendo o saco. Por que as pessoas ficam olhando a gente tomar sorvete. Não deixam a gente tomar sossegado. Com aquele olho em cima:

- Deixa eu dar uma experimentada no seu?

Por que é que as pessoas sempre querem experimentar os nossos? Tiveram ali, a oportunidade de pedir o delas. Não pediram? Então. Aí querem experimentar os nossos.

- Pode. Claro.

Aí a gente fica torcendo para não pegarem a cereja.

- Você gosta da cereja?

Se eu não gostasse, tinha pedido para não colocar.

- Gosto, mas pode pegar...

Aí pegam a nossa cereja. A única. Só vem uma. Talvez ela seja tão gostosa por isso mesmo. Aposto que se colocassem três ou quatro não ia ser tão gostoso. Nessas sorveterias que vendem sorvete por quilo, tem aqueles potinhos cheios de cereja e sempre sobra. Ninguém pega um monte de cereja justamente por que tem um monte. A vida é assim: a gente gosta das coisas que tem pouco. Ou que não tem.

- Pronto!

Era a moça. Com meu Sundae. Enorme, como eu imaginava. Cheio de groselha, tingindo o copo de vermelho. Aquela espuma de chantili por cima. Castanhas. Aqueles riscos marrons e pretos feitos com caramelo e chocolate. E, gloriosa, a cereja em cima.

- Cadê as outras cerejas?

- Outras cerej... Ah, desculpa... Me esqueci...O senhor queria mais cerejas, não é? Quer que eu vá colocar mais?

Não quis criar problema.

- Não. Deixa para lá. Quando tem pouco, é mais gostoso.

Fui tomando o sorvete. Desviando do chantili para ele durar mais. As castanhas indo para o fundo do copo. A cereja descendo conforme eu tirava o sorvete de sua base. A calda de chocolate escorrendo pelo copo, lambuzando a mesa. Uns guardanapos resolvem. O dedo, vez ou outra, resvala no chantili e eu lambo os dedos. Não dá para ter pudores quando se está tomando um Sundae.

Enfim, restam, lá no fundo do copo, um caldinho derretido, algumas castanhas de caju e, gloriosa, a cereja. Vermelha como os batons. A colher de cabo comprido vai em direção a ela. Capturo a cereja. Venho trazendo calmamente até a boca.

- Pai?

Olho em volta. Minha filha entra na sorveteria.

- O que é que está fazendo aí, tomando sorvete sozinho?

- Nada filha...É que...É que...

Ela se despediu das amigas e se sentou. A cereja, ainda na colher, se equilibrava.

- Reconheci o carro, parado aí fora...Ai que lindo!!! Guardou a cereja para mim?

Dei risada. A única pessoa em toda a face da terra para quem eu daria aquela cereja apareceu.

Fiz até aviãozinho com a colher, para lembrar de quando ela era criança.

- Zuuum... Lembra? Quando você não queria comer e eu fazia assim?

Ela lembrava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Buzinando

15 de dezembro de 1998

Um fusquinha. Branco.

- É só para andar na cidade. Tá mais que bom...

Estava. Lógico que estava. Ninguém precisa de um carro importado para andar na cidade. Aliás, se for só para andar na cidade, não precisa de quase nada. Ar condicionado, por exemplo. A gente anda tão pouco. Nem dá tempo de gelar e a gente já tem que descer.

Outro dia, peguei carona com um amigo. Um carro zero. Já ia abrindo a janela.

- Não precisa abaixar o vidro. Tem ar.

- Que bom que tem ar. Ar é sempre bom. Me sinto muito mal quando falta ar.

- Ar condicionado, estou querendo dizer.

- Ah.

Essa mania nacional de abreviar as coisas. Resolveram abreviar "ar condicionado" para "ar", simplesmente. Espera aí. Ar é essencial, ar condicionado é opcional. Ou não é?

- É, mas com esse calor, não há quem aguente.

- Claro que há. Olha aí, nas calçadas. Os caras não apenas não tem ar condicionado como não tem carro. Como que não tem quem aguente?

Eu estava começando a me irritar. E irritar o cara. Para quem estava de carona, era hora de calar a boca.

Já estávamos quase chegando e o tal ar condicionado não tinha condicionado nada. Se tivéssemos aberto a janela, tinha sido melhor.

- Pelo menos tinha batido um ventinho, falei, enquanto me despedia...

Mas onde estávamos mesmo? Ah, no fusquinha. Branco. Do outro amigo. Não tinha ar condicionado nem tinha cinto de segurança. Quer dizer, cinto tinha. Mas não conectava com aquela peça que fica embaixo, no banco. Ficava aquele negócio solto, balançando.

- Não tem problema... É só para andar na cidade.

Pelo jeito, não tinha mesmo. O carro não ultrapassava seus quarenta quilômetros por hora. Uma batida nessa velocidade, com cinto ou sem cinto, dá na mesma. A não ser que seja uma batida policial. Por que aí dá multa. Montamos no fusquinha. Andamos dois ou três quarteirões ouvindo aquele blém-belelém. Mas o fusca tinha tanto barulho que achei normal. Num sinal vermelho alguém da rua avisou, apontando a porta. O cinto tinha ficado para fora. Abri a porta e puxei para dentro. O amigo, dirigindo, se distraiu com a coisa toda e deixou o carro morrer. No meio da rua.

Nhe-nhe-nhe-nhem.

Não pegava. Nós parados, no meio de um cruzamento.

Nhe-nhe-nhe-nhem.

- Eu acho que aquele cara não está vendo a gente...

Era um ciclista. Vinha descendo a rua que cruzava com a nossa. Olhava para a paisagem. Olhava para o jardim, para o céu. Mas não olhava para a frente.

Meu amigo assustado. O ciclista chegando perto.

- Vai bater.

- Faz alguma coisa. Buzina, sei lá...

- Não tem buzina.

- Como não tem buzina?

- É só para andar na cidade. Não tem buzina. Não precisa...

- Agora tá precisando. Por exemplo.

O ciclista chegando perto. Muito perto. Meu amigo não teve dúvidas. Abriu a porta, colocou o corpo para fora do carro e gritou:

- Bih-Bih... Bih-Bih !!!

O ciclista acordou. Percebeu o fusca parado no meio do cruzamento em cima da hora. Desviou. Não bateu de raspão.

Meu amigo tentou dar a partida de novo. Agora pegou. Engatou primeira, arrancamos. Segunda. Terceira. Olhei para ele. Rindo.

- Bih-Bih?

- O que é que tem? Fiquei nervoso na hora, não sabia o que gritava.

- Mas... Bih-Bih?

- É, por que? Buzinei, só que com a boca. Deu certo não deu? E não me enche o saco que você tá de carona...

E fomos embora. Rindo e ouvindo outro blém-belelém. Agora era o cinto do lado dele que tinha ficado para fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia em que o Papai Noel beijou o amigo dele na boca

25 de dezembro de 1998

Quem não foi Papai Noel um dia, não sabe o que é natal. Já tive o meu ano. Sim senhor, já fui Papai Noel num desses natais da vida. Me lembro como se fosse agora. Quer dizer, não assim tão perfeitamente. Mas lembro.

Estava muito calor. Resolvemos que ia ter um Papai Noel diferente aquele ano. Ninguém estava disposto a colocar uma daquelas fantasias européias, quentes. A festa ia ser no rancho do meu sogro, à beira do rio, em Cardoso. Também não tinha presente para todo mundo. Era muita gente. Então resolvemos dar uns sorvetes. Compramos umas casquinhas, uns vinte quilos de sorvete, e ficou combinado: eu me vestiria de Papai Noel e sairia distribuindo sorvetes, no meio da festa.

Tudo certo. Compramos uns panos vermelhos. Fizemos uma espécie de "poncho" com ele. Sabe o que é um poncho, não sabe? Aqueles cobertores incas, ou peruanos, sei lá. Ele pegam o cobertor, fazem um furo no meio e enfiam a cabeça. Só que são feitos com pele de lhama, aquele bicho esquisito. Sabe? Bom...Então a gente fez um poncho com um pano vermelho. Colamos uns chumaços de algodão com cola mesmo. Em volta do buraco da cabeça e nas bordas. Arrumamos um cinturão. Com uma fivela de um palmo de largura, dessas de rodeio. Eu iria de bermuda, ficou combinado. E tênis. Estava muito calor, como já disse. Seria uma espécie de Papai Noel tropical. Não ficou mau não. Falando assim, parece que ficou uma porcaria. Mas não...Até que ficou bom. Arrumamos um gorro também, esse já oficial. Era de um Papai Noel desses profissionais que ficam nas lojas, distribuindo balas.

No dia, tomei umas cervejas. Todo mundo tomou cervejas. Era natal, puxa vida... Mas eu tomei um pouco mais que os outros. Estava ansioso. Me vinham lembranças de quando meu pai era o Papai Noel. E o medo e a curiosidade que ele despertava em mim e na criançada toda. Meu pai tem uma voz grave, meio rouca. Até hoje tem. A gente ouvia um "rô-rô-rô" lá fora, na rua. Para falar a verdade, eu sabia que era meu pai. Os filhos reconhecem os pais, ora bolas. Mas nem por isso eu não ficava ansioso e amedrontado, igualzinho às outras crianças.

As crianças tem esse poder, eu acho. De se auto-hipnotizar, ou algo assim. Sabem que não existem papais-noéis ou coelhos da páscoa, mas acreditam assim mesmo.

Na hora em que eu vestia a fantasia, era em meu pai que pensava. E na minha filha. Eu ia ser o centro da festa. Enquanto vestia o gorro, me lembrava das festas que passaram. Uns parentes que eu nunca mais vou ver. Alguns graças a deus, inclusive. Enquanto procurava um travesseiro para colocar debaixo da fantasia, para ficar barrigudo, me lembrava de meu pai. Ele não precisava de travesseiro. Era meio barrigudo mesmo. Hoje emagreceu. Minha mãe pôs ele na linha. Eu ia passar mais um natal longe deles. Tomei mais algumas por causa disso. De saudades.

A vida é engraçada. Quando a gente é criança, acha que essas festas são as melhores coisas do mundo. Família, presentes, comida, doces. Não necessariamente nessa ordem. Depois fica adolescente e acha que é tudo uma droga. Essa tradições e essas coisas de família. Não quer mais participar. Até participa, mas emburrado com as criancinhas e falando no ouvido delas que Papai Noel não existe, só para acabar com a festa.

Depois a gente cresce. Casa. E, quando a gente se dá conta, o Papai Noel é a gente mesmo. Dá para acreditar? Não dá para acreditar. Gritei para o pessoal que estava abastecendo o freezer:

- Abre mais uma aqui, para o Papai Noel!

Um Papai Noel bebendo cerveja... Não dá mais para acreditar nem em Papai Noel. Me olhei no espelho. Estava bom. Não era assim de se falar "- Olha, que belo Papai Noel", mas dava para o gasto.

Ouvi lá fora, os preparativos. Os mais velhos gritando para as crianças que o Papai Noel já estava para chegar. A criançada gritando. Olhei no espelho de novo. Meu coração estava disparado. Tomei mais uma. Para me tranquilizar. Eu ia ser o Papai Noel. O centro da festa. A razão de tudo. Não sei como meu pai aguentava. Um amigo entrou com um copo de Whisky. Virei.

Eu sei que, quando saí com o saco nas costas, com um isopor cheio de sorvete, estava completamente bêbado. Tudo bem, todo mundo estava. Mas eu estava mais. E estava com saudades do meu pai. Estava carente, entende? Comecei a distribuição de sorvetes, as criancinhas atrás de mim. As um pouco mais velhas gritando:

- Não é Papai Noel nada! É o tio Artur!!!

Eu até tentava fazer uns "rô-rô-rô", mas minha voz sempre foi meio esganiçada. Fui expulso de um coral, uma vez. A molecada ficava falando que eu não era Papai Noel coisa nenhuma. Uns puxavam a minha barba. Que por sinal era minha mesmo.

Os adultos me dando cerveja. E eu tomava. O que tivesse no copo. Tomava meio escondido da molecada, mas tomava. No meio da festa, eu já tinha tomado muitas. Muitas mesmo.

Foi aí que um amigo me abraçou. Olhou para a minha cara, olhos lacrimejando. E começou a falar, com a língua arrastando, que eu era o melhor amigo dele. Que me amava. Essas coisas que a gente fala quando está bêbado. Aí ele segurou o meu rosto assim, com as duas mãos, e me tascou um beijo. Um beijo bem dado, na boca. Eu estava ruim, não conseguia afastar o cara. Quando consegui me desvencilhar, olhei em volta. Umas dez criancinhas olhando para mim, olhos esbugalhados. Uma delas saiu correndo em direção à mãe, gritando:

- Mamãe, mamãe! O Papai Noel beijou o homem na boca!

Eu te falo uma coisa. Devo ter deixado lá umas dez criancinhas traumatizadas para o resto da vida. Onde já se viu? O Papai Noel beijando homens na boca?

Tem umas coisas que só os profissionais deveriam se meter a fazer. Ser Papai Noel, por exemplo: não é para qualquer um. Senti falta do meu pai. Nem precisava de travesseiro. E um "rô-rô-rô" memorável. O melhor Papai Noel que eu já conheci.

Pena que minha filha não vai poder dizer o mesmo do pai dela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cinema cheira a tutti-frutti

07 de janeiro de 1999

Os dois garotinhos. Uns cinco anos. Nem deixaram as luzes se acenderem e correram em direção à tela. Queriam passar a mão. Para quê? Para ver do que era feito? Ou só porque a mãe proibiu?

A sessão de cinema estava no fim. Passavam os letreiros. As pessoas já se levantavam. Tinham acabado de assistir "O Príncipe do Egito". Um belo desenho animado. Dos melhores. Mas podia ser qualquer outro filme. As duas crianças se desvencilharam com alguma dificuldade dos pais. A sala ainda estava escura. Os pais tendem a segurar seus filhos com mais força. Nem os pais sabem se por medo de perdê-los ou por puro medo do escuro. Assim mesmo os dois se soltaram. Pularam uma pequena corrente de ferro que separa a platéia da tela. Se aproximavam correndo mas, ao chegarem a mais ou menos dois metros da enorme armação branca, diminuíram seus passos. Foram desacelerando devagar até que, ao ficarem bem próximos, já quase podendo alcançá-la, pararam. Estenderam as mãos. Trêmulos.

Talvez, por um breve instante, tenha passado por suas cabeças que suas mãos poderiam atravessar o pano branco e que seriam tragados para uma outra dimensão. Com certeza já tinham assistido a algum filme em que algo parecido aconteceu. Em "O Último Grande Herói", com o Schwarzenegger aconteceu. Em "A Rosa Púrpura do Cairo", do Wood Allen também. Porque não aconteceria com eles?

Um deles não teve coragem de tocar no tecido branco até que o outro o fizesse. O primeiro garoto relou o dedo indicador. Retirou rapidamente. Tocou novamente com o dedo. Depois com a palma da mão. Só aí o outro garoto, tomado de coragem, repetiu o gesto. Os dois ficaram lá, por um ou dois minutos. Acariciando a tela. Rindo. Pelo que percebi, não trocaram palavras. Ficaram lá, talvez tentando entender como era possível surgirem tantas cores e personagens daquele simples pedaço de pano.

- Voltem aqui agora mesmo!

A cena toda aconteceu em menos de cinco minutos. As crianças pulando a corrente. A aproximação da tela. O toque. E agora o grito dos pais, bem atrás de mim:

- Seus pestinhas...Querem se perder, é? Vem aqui já, com a mãe. Olha que eu vou chamar o lanterninha, hem?

Eu ri. A mãe dos "pestinhas" era do tempo em que os cinemas ainda tinham "lanterninhas". Aposto que as crianças nem sabiam o que era isso. Todo mundo por aí sabe quem eram os "lanterninhas", não sabe? Acho que deve ter uns que não sabem. Pois bem, os lanterninhas eram uns caras que encontravam lugares para as famílias que chegavam atrasadas para as sessões. Como as luzes já tinham sido apagadas, procuravam com suas lanternas (daí o nome, meu caro) um lugar para os clientes. Estavam sempre uniformizados, com bonés e tudo. Com o tempo passaram a exercer outras funções. Lembrar aos casais um pouco mais eufóricos que aquela era uma casa de respeito, por exemplo.

Os dois garotos olharam para a mãe e voltaram. Devagar, quase não querendo. Olhando para trás e para o alto. A tela, comparada ao tamanho das crianças, ficava ainda maior. Todos foram saindo. O cinema foi ficando vazio.

Eu sempre deixo os mais apressados irem primeiro. Não tenho pressa de sair do cinema da mesma maneira que, acho, os religiosos não devem ter pressa de sair de seus templos. Fico um tempo olhando a tela apagada, as cadeiras vazias.

Mas naquele dia, quando o cinema já estava quase vazio, tomei uma resolução. Me levantei e rumei decidido em direção à enorme tela.

O que aqueles garotos fizeram eu sempre quis fazer. Tocar o pano branco. Nunca fiz. Ou porque não deixaram, ou porque fiquei com medo. Resolvi que ia ser hoje. Não ia morrer sem tocar a tela do cinema. De jeito nenhum.

Pulei a corrente e segui para o pano branco. Cheguei mais ou menos onde estavam os meninos. Minhas mãos tremiam. Olhei para trás, talvez temendo um lanterninha. Finalmente tomei coragem e encostei a mão.

A tela. Não era nada do que eu imaginava. Era grossa, como uma espécie de lona. E tinha algo que era úmido, parecia borracha. Apertei um pouco a mão e o pano pareceu se esmagar. Puxei a mão, devagar. Um pedaço da tela veio grudado. E era cor-de-rosa!

Cheirei e cheirava a tutti-frutti.

- Chiclete...Aqueles dois...pestinhas...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessas horas não me aparece um para dar carona

09 de janeiro de 1999

Guarda-chuva numa mão, a outra no bolso. Resmungando. Todo mundo tem carro. Todo mundo. Olhava em volta e era o que via. Chuva e carros. Com pessoas dentro. A gente só percebe mesmo que não tem carro quando chove. Porque a gente se molha.

O guarda-chuva ajuda, mas é um aparelho que inventaram para as pessoas que trabalham atrás de um balcão. Ele só deixa seco os cabelos, os ombros e metade da barriga. A metade de cima. Da metade da barriga para baixo a gente se molha. E se você traz o guarda-chuva um pouco para frente, ele começa a pingar nas costas. E está calor e a gente está quente porque está andando. Aí escorre aquela água gelada pelas costas. Sabe? Quando você está na beira da piscina, ainda pensando se entra ou não entra? E aí alguém joga água e aquela é a água mais gelada do mundo? Então, é aquela água que escorre pelas costas. Mas se você põe o guarda-chuva para trás, aí então molha o bolso da camisa e molha o cigarro e quando a gente vai fumar está tudo molhado e cheirando a cigarro velho.

Pensando nessas coisas e olhando os carros passarem. Será que não tem ninguém conhecido indo para os meus lados? Olho para trás e os carros passam. Olho para o guarda-chuva. Ouço o barulho de mais um carro vindo. Olho para trás de novo. Uma droga de poça d’água. Enfio o pé. Nem poça d’água era. Era um buraco na calçada. Chegava na altura da meia. Tirei o pé e olhei. Minha botina de couro. Era daquelas de pelica. Bege. Ficou marrom escuro depois de molhada. Fiquei ali parado, no meio da chuva. Olhando para os meus pés. Um sapato marrom escuro, o outro bege. Pareciam de pares diferentes.

Eu estava de saco realmente cheio daquela chuva. Desde o ano-novo não parava de chover. Uma semana chovendo. Minha roupa estava cheirando mofo. Minhas meias cheirando mofo. Meus cabelos. Eu estava cheirando mofo. Nem lembro mais como era o céu azul. Talvez, enquanto você estiver lendo essa crônica, o sol já esteja aí, esquentando. E você reclamando do calor. Mas eu estou na quinta-feira e está chovendo ainda. Parado ali na calçada, a água entrando pelo sapato que eu acabara de enfiar no buraco. Olhei para o céu cinza. E eu não lembro mais como era o céu azul. Olhei para baixo de novo e enfiei o pé seco no buraco. De raiva. Que pelo menos ficassem os dois sapatos da mesma cor. A água espirrou. Lembrei de "Cantando na Chuva". O Gene Kelly dançando e chutando as poças d’água. Pisei com força numa pocinha que tinha, um passo ou dois depois. Olhei para a enxurrada que passava, beirando o meio fio. Num pulo, caí com os dois pés no meio dela. Escorreguei, mas com o guarda-chuva numa das mãos, consegui me equilibrar. Igual aqueles caras que andam na corda bamba, no circo.

A essa altura já estava completamente encharcado. Comecei a rir. Coloquei o guarda-chuvas assim, nas costas, como se estivesse desfilando. E comecei a assobiar. Aquela música do filme, sabe? "...just singin’, and dancin’ in the rain..." E comecei a rir sozinho. A quanto tempo não tomava chuva? Uns mil anos. Em vez de desviar das poças, pulava nelas. Com os dois pés. Deixava a água escorrer... Sem problemas. Chegaria em casa e tomaria um banho quente.

Comecei até a andar mais devagar. Queria mais era tomar toda aquela chuva. Lavar a alma... Fechei os olhos e virei meu rosto para cima. O guarda-chuva aberto, mas virado para baixo. A água escorrendo. As lágrimas somem na chuva, disse não sei quem.

Aí a buzina tocou. Levei um susto. Era um vizinho lá de casa, oferecendo carona. Falei que não queria. Ele ficou olhando para mim, sem acreditar. Insistiu. Aí eu mandei ele pastar e ele me chamou de mal agradecido. Saiu cantando o pneu.

A gente não pode começar a se divertir que sempre vem um chato encher o saco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A árvore das bolas da praça São Bento

10 de janeiro de 1999

Aquela árvore que fica ali, na Praça São Bento. Alguém já reparou? Aquela que tem aquelas bolas que parecem cocos. Olha. Já andei um bocado por aí. Não muito. Mais que um tanto de gente e menos que outro tanto. Mas nunca vi alguma coisa parecida. Alguém por aí já viu uma árvore daquela sem ser ali, na praça São Bento?

Tenho um cunhado que é piloto da TAM. Já viajou para onde você nem imagina. Já morou no Recife, em Salvador. Já morou em Goiás. Em Bogotá. O viajante em pessoa. Um dia desses veio me visitar. Acordou de manhã e veio me levantar. Queria fazer uma caminhada. Ele sempre foi meio gordinho. E é alto, quase dois metros. Precisa caminhar todo dia por que os pilotos tem lá uma média estatura/peso que precisam manter. Se não, são suspensos por tempo indeterminado. E não são tempos para ser suspenso por tempo indeterminado. De emprego algum. Saímos nós dois, andando. Quer dizer, ele saiu andando. Eu tinha que quase correr. As passadas dele davam quase duas das minhas. Andei duas quadras e voltei para casa. Fui pegar o carro. Eu, graças a deus, não preciso caminhar. O meu emprego não exige que se tenha um peso razoável ou qualquer coisa assim. Voltei para casa, peguei o carro e voltei atrás dele. Ele iria caminhando, eu ao seu lado, de carro. Batendo um papo. Só que aí não encontrava mais meu cunhado na cidade. Fiquei dando voltas. Subi a Pernambuco não sei quantas vezes. A Amazonas. Aí comecei a andar pelas ruas menos conhecidas. Não achava. Não era possível que ele se perdesse em plena Votuporanga. Já tinha morado em São Paulo. No Rio. Já tinha morado até em Nova York, numa temporada. Não ia se perder aqui.

Estava calor, comecei a transpirar. Resolvi dar uma passadinha pela praça São Bento, tomar uma água de coco. Sempre tem um carrinho por lá. Quando estacionei, nem tinha saído do carro, lá estava ele. Meu cunhado. Conversando com o jardineiro. Debaixo de uma daquelas árvores. Estava com um bloquinho na mão, anotando alguma coisa. Ele sempre anda com esse bloquinho. Diz que é para escrever um livro, um dia. Fui em direção a eles.

- Mas como é que o senhor sabe?

- Não sei como é que eu sei. Só sei. De ouvir por aí...

- Por aí onde? Quem é que falou para o senhor que a árvore tinha esse nome? "Astézia" ? Com ésse ou com ?

- Sei lá. Mas fala assim. As-té-zi-a. Astézia do Amazonas.

- Ah, já estamos chegando em algum lugar... Ela vem do Amazonas?

- Não... É o nome inteiro dela: Astézia do Amazonas.

Algumas pessoas que passavam por ali, fazendo caminhada, começaram a parar em volta dos dois. E dar opiniões. Talvez achando que meu cunhado fosse um repórter ou algo assim.

- Eu também, nunca vi uma árvore tão estranha...

- Minha neta acha que é coqueiro. Ainda mais que vê o homem ali, vendendo água de coco.

- Outro dia desses uma dessas bolas caiu na cabeça de um velhinho. Juro. O coitado foi parar no hospital.

- Astézia nada... Essa árvore chama Castanha de Macaco. Eu li numa revista.

Aí meu cunhado prestou atenção.:

- Leu? Leu onde? Que revista?

- Numa revista. Não lembro, mas tenho certeza. Castanha de Macaco. E parece que é originária do Pará. As castanhas vêm de lá, não vêm?

Meu cunhado coçou a cabeça. Quando ele começa com essas coisas, não para mais. Antes que alguém falasse mais alguma coisa, puxei ele pelo braço e falei para a gente ir embora, que já era quase hora do almoço. A roda foi aos poucos se desfazendo. Meu cunhado ainda se abaixou e pegou uma das bolas. Perguntou para mim se dava para comer.

- Acho que não. Pelo menos nunca vi ninguém comendo.

- E para que serve então?

- Sei lá. Quem foi que disse que as coisas tem necessariamente de servir para alguma coisa?

Ele concordou comigo, rindo.

Nós dois ainda ficamos por ali mais uns dez minutos. Debaixo da árvore. Observando aquelas bolas esquisitas e sentindo o cheiro das flores grandes e roxas que ela dá nessa época do ano.

O som de uma das bolas caindo nos despertou. Estávamos atrasados para o almoço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O incrível homem de quatro olhos

12 de janeiro de 1999

Num sensacional furo de reportagem, a equipe do "Diário de Votuporanga" mostra, em primeira mão para todo o Brasil, a foto inédita do único homem conhecido que conseguiu sobreviver até a vida adulta com dois pares de olhos. O repórter Silvio Dorneles, do "Diário", após ser assediado por jornais e TV’s de todo o país para que apresentasse o "furo" como sendo de suas equipes, preferiu lançá-lo em nossa própria cidade.

"- Esse será um dia muito especial para Votuporanga. O Brasil todo estará com os olhos voltados para nosso município...", disse Dorneles.

O homem, que aparenta ter seus cinquenta anos, foi encontrado quase sem querer por nosso repórter. Ao passar o natal com sua mãe, em Palmeira d’Oeste (cerca de 100 km a oeste de Votuporanga), Dorneles ouviu numa padaria no centro da cidade um estranho diálogo. Dois homens conversavam a respeito de um terceiro que, ao que parecia, era uma espécie de foragido da polícia. O ouvido afiado de Dorneles e sua rapidez de raciocínio fizeram com que, disfarçadamente, se aproximasse. Um dos homens que participava do diálogo chegou a mencionar o "Programa do Ratinho" e sua intenção de procurá-los. Começava ali, sem Dorneles se dar conta, a história de uma das maiores reportagens já escritas na imprensa brasileira.

Ainda sem entender muito bem do que se tratava, Dorneles pediu uma cerveja e aguardou até que os dois resolvessem ir embora. Quando os dois saíram, pagou sua conta, se levantou e acompanhou-os até a calçada. Palmeira D’Oeste é uma cidade pacata. Teria que segui-los com todo o cuidado do mundo. Três quadras depois, os dois homens se separaram. Dorneles resolveu seguir o que citara o "Programa do Ratinho". Sempre se esgueirando entre as árvores e os muros da pequena cidade, nosso repórter conseguiu manter-se fora do alcance da vista de seu alvo. Observou quando ele entrou no número 23 da rua Benjamim Constant, ainda no centro da cidade.

Por ser um repórter com pouca experiência, titubeou em frente à residência. O que falaria? Que ficara ouvindo conversas alheias na padaria e que sorrateiramente seguira o proprietário da casa? Mas seu tino de repórter acabou vencendo sua timidez. Bateu na porta. O proprietário atendeu, sem camisa e com um cigarro entre os dedos. Dorneles, sem saber o que fazer, abriu sua carteira e mostrou sua carteirinha de funcionário do "Diário", onde se lê claramente a palavra "Imprensa". Tempos depois, já em Votuporanga, Dorneles confessou que se inspirou em filmes policiais norte-americanos, imitando o gesto tão comum em tais películas. O proprietário da casa puxou-o pelo braço para dentro de sua casa e, antes de fechar a porta, ainda deu uma espiada para fora, certificando-se de que ninguém o tinha visto entrar.

O diálogo que se seguiu foi, a princípio, inacreditável. O homem jurava que, num sítio muito próximo dali, conhecera há alguns anos um homem que possuía não dois, mas quatro globos oculares. Dorneles riu ao imaginar que se tratava de uma brincadeira de mal gosto e se levantou, decidido a ir embora. Foi aí que se deu o impossível. O homem, que preferiu manter-se incógnito, foi até o fundo de sua casa e de lá voltou com um álbum de fotografias. Trêmulo, começou a folheá-lo. Apontou uma página e passou o pequeno volume para nosso repórter, explicando que a foto era de alguns anos atrás, mas que o homem continuava vivo e ainda vivendo por lá.

Ao ser indagado do por quê de nunca ter procurado a imprensa, o homem declarou que jamais pensou em destruir a privacidade do "quatro-olhos" que, com o passar do tempo, tornara-se seu amigo, mas passava por dificuldades financeiras desde que se viu desempregado de uma fábrica de móveis.

Dorneles percebeu imediatamente o potencial daquelas declarações. Ao observar que o homem parecia titubear em suas respostas, imediatamente ofereceu-lhe todo o dinheiro que havia trazido em sua viagem, uma quantia mais que razoável. Nas negociações ficou acertado que o repórter poderia levar o álbum de fotografias imediatamente e, numa próxima oportunidade, teria acesso exclusivo a maiores detalhes sobre o caso.

Tendo consciência de se tratar de um caso excepcional que fará com que o interesse nacional se volte para nosso município, o corpo editorial do "Diário de Votuporanga" resolveu publicar um "fac-smile" de uma foto do álbum já na edição de hoje, sendo que a reportagem completa sairá só na próxima quinta-feira, nesta mesma coluna.

Votuporanga é uma cidade com um futuro glorioso pela frente. Com essa reportagem, certamente nosso município ficará em evidência em todo o país. Esperamos com isso estar contribuindo para o progresso de nossa indústria de turismo e, porque não, de todo o comércio da cidade, que indiretamente se beneficiará de um marketing gratuito em toda a região.

(Ler a reportagem completa dia 15 de janeiro, quinta-feira. Nesse dia, a tiragem do "Diário de Votuporanga" será, excepcionalmente, de 150.000 exemplares.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O quatro olhos era uma fraude!!!

14 de janeiro de 1999

Terça-feira passada, nesse mesmo espaço, foi anunciado que hoje, quinta-feira, dia 15 de janeiro, seria publicada uma reportagem sobre a suposta existência de um homem com quatro olhos que, também supostamente, moraria na cidade vizinha de Palmeira d’Oeste.

Lamentamos o fato de que, infelizmente, nosso repórter Silvio Dorneles viu-se envolvido num grande golpe que tinha como objetivo extorquir-lhe o dinheiro que trazia consigo.

Logo após os fatos narrados na reportagem anterior, onde o jovem e ambicioso repórter foi chamado a uma residência à Rua Benjamim Constant, nº 23, em Palmeira d’Oeste, para tomar conhecimento da existência do tal homem "quadriocular", o sujeito responsável pela "descoberta" apoderou-se do dinheiro de Dorneles e não foi mais visto, embora ainda não tivesse relatado os detalhes que completariam a reportagem sobre o caso.

Desconfiado, Dorneles esperou mais um dia e, ao voltar à residência, encontrou um casal de velhinhos (os dois com um par de olhos normais) que diziam que sua casa havia sido arrombada enquanto passavam o natal na casa de seu filho, residente em Campinas.

Dorneles, esperançoso na volta de sua fonte, guardou segredo desses detalhes até ontem quando, infelizmente, esse jornal já havia publicado a reportagem com a foto do "homem de quatro olhos".

Após minuciosa investigação descobriu-se que a tal foto não passava de uma montagem feita pelo filho do dono da padaria de Palmeira d’Oeste, no seu computador recém adquirido. Utilizando-se do programa Adobe Photoshop, a criança de seis anos havia feito a montagem unicamente para divertimento dos pais, que gabam-se entre os amigos da agilidade com que o menino maneja o teclado de seu Pentium II.

Ao que parece a foto foi encontrada no balcão da padaria pelos dois larápios, que se utilizaram dela para iludir o ingênuo repórter.

O jovem Silvio Dorneles, após pedir demissão, fez uma declaração formal isentando totalmente esse jornal dos problemas que porventura tenha causado e pedindo desculpas públicas frente a população votuporanguense.

Esse jornal, no entanto, consciente de que todos os homens são passíveis de erros, resolveu dar uma segunda chance ao jovem repórter. Este, com o rosto irradiante, agradeceu e prometeu que esse jornal não iria se arrepender.

Qual não foi a nossa surpresa quando, algumas horas mais tarde, Silvio Dorneles irrompe na redação do jornal, cambaleando e com as vestes totalmente rasgadas, aos berros de "- Parem as máquinas! Parem as máquinas!". Ao cair nos braços do colunista Artur de Carvalho, chacoalhava vertiginosamente um calhamaço de papéis e de fotografias. Passou os papéis ao colunista e veio a falecer ali mesmo.

O teor desses documentos vem a tona hoje, numa espécie de compensação pós-morte relegada pelo jovem e persistente repórter.

Prepare-se, leitor. Sua frustração ante a notícia da não existência do homem de quatro olhos vai ser plenamente recompensada pois, além de mudar totalmente a sua maneira de ver uma importante figura brasileira conhecida internacionalmente, finalmente vai se desvendar um dos mais bem guardados segredos envolvendo o mundo esportivo. O repórter Silvio Dorneles, em suas últimas horas de vida, vendeu todas as suas posses em troca de tais informações. O segredo de quem seriam suas fontes infelizmente morreu com ele.

Saiba ainda, amigo e leitor do "Diário de Votuporanga", que você está lendo esta notícia com exclusividade internacional:

Foi descoberto que Ronaldinho, jogador de futebol atualmente defendendo as cores da Inter de Milão e afastado temporariamente da seleção brasileira, pertence ao sexo feminino! Você está lendo perfeitamente bem, amigo leitor. Dorneles descobriu que o nosso Ronaldinho é mulher!!!

E tem mais. Sabe aquele dia? Aquele, da decisão contra a França? Então...

TAVA PRA DESCER !!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lição de Anatomia

06 de fevereiro de 1999

Minha irmã fazia odontologia, em Campinas. Acabou não exercendo a profissão, nem nada. Casou com um piloto da TAM e hoje é uma feliz dona de casa. Mas um dia, no tempo da faculdade, nem me lembro por quê, precisei falar com ela. Fui até à faculdade e me informaram que ela estava tendo aula de anatomia. E me apontaram lá, um corredor. Era seguir reto que eu chegava na sala. Não tinha erro.

Me lembro de uma sensação de claustrofobia ao caminhar por aquele labirinto de corredores e estudantes sorridentes. Mas o caminho realmente não deixava margem para erros. A cada cinco ou seis metros uma placa, com uma flecha vermelha em baixo, e escrito "Departamento de Anatomia". Em algumas delas algum estudante engraçadinho desenhou aqueles ossinhos cruzados, atrás de um crânio humano. Aquele símbolo que tremulava na bandeira dos piratas. E aos poucos fui me dando conta para onde eu estava indo. O Departamento de Anatomia. Deveria haver cadáveres por lá, não deveria? Eu nunca havia visto um cadáver na vida. Eu tinha dezesseis anos e a única pessoa morta que já tinha visto era uma tia, que tinha morrido uns dois anos atrás. Mas isso não era um cadáver propriamente dito. Era só a minha Tia Toninha, dentro de um caixão. Além do mais não era nem dez horas da manhã. Cadáveres assim, logo cedo. Podia muito bem ser o fim de um grande dia.

Cheguei em frente a uma porta pesada. De ferro ou alumínio. A placa em cima: "Anatomia". O estudante não tinha alcançado aquela, ficava bem no alto. Mas cheguei a imaginar a caveirinha com os ossos cruzados. Respirei fundo e entrei. Estava gelado. Lembrei de uma música do Gilberto Gil. Uma que, num dado momento, ele canta "...morrer deve ser tão frio…". O Gil nunca me pareceu tão tétrico. E o cheiro de…de…do que era aquele cheiro? De formol?

A sala era uma espécie de galpão. Comprido. Havia um grupo de estudantes lá no fundo. Várias mesas com bacias de metal em cima. Imaginei o que continham. E eu ia ter que passar por todas até chegar aos estudantes. Fui andando. Não sabia se apressava os passos ou se tentava parecer normal. Mas não dava para parecer normal. Em cada uma daquelas bacias havia um pedaço de alguém. Numa bacia, uns pés azuis, flutuando. Me lembro que estavam se mexendo. Por que estavam se mexendo? O formol (ou o que diabos aquilo fosse) estava parado. E o pé ali dentro, se mexendo, devagarinho, junto com uns pedacinhos que eu não me arriscava a imaginar o que fossem.

Na outra bacia havia três mãos. Se fossem duas, vá lá... A gente está acostumado com duas mãos. Mas havia três. Como que para nos avisar que foram arrancadas de alguém. Meu estômago começou a embrulhar. Aquele cheiro, parecia benzina, sei lá... Dei uma parada em frente a uma das mesas, para dar uma recuperada.

E foi aí que fiz uma das maiores descobertas da minha vida. Li, escrito a caneta, num pedaço de esparadrapo. Colado numa bacia: "aparelho digestivo". E lá estavam, os intestinos. Sei lá se os delgados ou os grossos. Intestinos. E na bacia ao lado, a mesma letra, num outro pedaço de esparadrapo, escrito : CÉREBRO.

Fiquei uns bons minutos olhando o cérebro. Ele ali, ao lado dos intestinos. Não sei se por estarem dentro do formol, até a cor deles estava meio parecida. Aquelas coisas meio torcidas, parecendo linguiças. A curiosidade me fez levar o dedo até a bacia do cérebro. Quando meu dedo já estava quase para tocar a superfície do formol, uma mão no meu ombro. Era minha irmã.

- O que é que você está fazendo aqui?

- Eu? Eu…Isso aqui é um cérebro? – perguntei, apontando para a bacia.

- É. Um cérebro. Está escrito aqui, ó…cé-re-bro.

- E aquilo ali. Um intestino?

- Isso. Por quê?

- Já reparou? Olha bem para os dois.

- O que é que tem?

- Olha direito. Você não acha os dois muito parecidos?

- É. Um pouco. Mas o que é que tem?

- Nada. Não tem nada. Só achei engraçado…

Aí eu dei lá, o recado que tinha que dar para ela. E fui embora.

Mas aquilo nunca mais saiu da minha cabeça... O cérebro e os intestinos, vejam só. Cara de um, focinho de outro…

Não é constrangedor?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De que tamanho pode ficar um coqueiro?

04 de março de 1999

- Pai. Abre um coco?

As coisas começam assim, simples. Uma meiga garotinha, olhar singelo. Piscando. Cílios longos. Parece até desenho animado. Querendo beber água de coco.

- É claro, filhinha. O que é que o papai não faz por você? – e corre atrás, brincando que vai pegar. Ela ri.

Ela vai fazer as coisas dela. As crianças são cheias de coisas por fazer. Caixinhas que devem ser empilhadas. Pedaços de fios que devem ser amarrados e depois deixados num canto qualquer da sala. Essas coisas. Ele vai abrir o coco. Tem dois coqueiros no quintal de trás de casa. Bonitos. As visitas, especialmente as que vem das cidades maiores, São Paulo, Campinas, ficam admiradas. Não tem quintal por lá. Ainda mais assim, com coqueiros.

- E dá coco o ano inteiro?

- Dá. O ano inteiro.

As visitas sempre arrumam um jeito de pegar um coco ou dois. Estão de férias. Passam a tarde rindo da inabilidade de todos em abrí-los. Acabam conseguindo. Tomam a água. Comentam em como deve ser bom ter água de coco assim, sempre à mão. As crianças raspam as castanhas.

Depois que as visitas vão embora, os coqueiros são praticamente esquecidos. De vez em quando, à noite, ouve-se um farfalhar de folhas e um tum. É um coco que caiu. Seco. Por que ninguém o apanhou. Cocos de casa não fazem milagres.

Ele ficou embaixo de um dos coqueiros. Mãos na cintura, olhando para cima. O coqueiro parecia mais alto. Provavelmente estava mesmo. Apanhou o bambu que usava para essas ocasiões. Não alcançava. Quanto era possível que os coqueiros crescessem por ano? Abaixou-se e pegou uma pedra. Olhou para cima de novo. O coqueiro devia ter uns seis metros de altura. Fez aquela pose que os jogadores de basebal fazem, sabe? Quando vão jogar a bolinha. As pernas meio para frente, uma delas meio levantada. Joelho dobrado. Um dos braços indo devagarinho para trás, a pedra na mão. Já ia quase jogando. Parou.

- Idéia idiota...

Podia errar. Acertar alguma coisa no quintal do vizinho. Tentou com o bambu de novo...

- Não é possível que essa droga de coqueiro tenha crescido tanto assim...

Estava começando a falar sozinho. Sempre falava sozinho quando ficava irritado. No emprego, quando o computador começava a dar pau, resmungava com o monitor: "- Vai, cara...só mais esse arquivo e eu paro...ah, agora não! Agora não!!!". Os colegas ficavam olhando, mas não falavam nada. Já estavam acostumados. No quintal, ele olhou em volta para se garantir que não tinha nenhum vizinho observando. Olhou para o coqueiro e falou em voz alta, fazendo um sinal com a mão:

- Não saia daí... Eu já volto...

Quinze minutos estava de volta. Foi até uma loja de ferragens, comprou um cano desse de PVC. Uns sete metros. E um arame. Tinha tido uma idéia. Numa das extremidades do cano, fez uma espécie de laço, amarrando uma das pontas do arame. Passou a outra ponta por dentro do cano. Quando ele puxasse o arame aqui embaixo, o laço lá na outra ponta teoricamente se fecharia. Fez um primeiro teste com o capacete da moto, que estava pendurado no guidão. Perfeito.

Olhou para cima de novo:

- Vamos ver, agora...

O sol já estava a pino. O que aqui em baixo parecia tão simples, lá em cima no coqueiro ficou um pouco mais complicado. As folhas do coqueiro não deixavam o laço envolver o coco. O cano de PVC mostrou-se mais flexível do que parecia à primeira vista. Conforme o vento batia, as folhas desviavam o cano, fazendo ele balançar como um mastro de bandeira num jogo. Os braços começaram a doer. A cada cinco minutos, tinha que parar para dar uma descansada. O sangue parecia faltar, as mãos iam ficando brancas. Colocou seu invento no chão, as mãos na cintura e olhou para cima. Chacoalhou a cabeça, desanimado.

Uma hora depois, a filha dava o último gole na água do coco. Ria para o pai. O pai orgulhoso, perguntou se ela queria mais:

- Pode mais um, pai?

- É claro, filhinha. O que é que o papai não faz por você? - e corre atrás, brincando que vai pegar. Ela ri. - O senhor me vê mais um, faz favor...

O homem puxou mais um coco ali do meio do gelo. Com duas ou três facadas, estava aberto. Colocou o canudinho. O pai pegou e passou para a filha que riu e correu para junto das outras crianças, no play-ground do jardim. Ele orgulhoso, puxou a carteira e perguntou para o vendedor de cocos:

- Quanto?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Setenta e seis tigres

11 de maio de 1999

Comprou ingressos para a família toda. Quatro. A mulher, a filha mais velha, o caçula. E para ele mesmo, é claro. Fazia que não queria ir e tudo, mas estava ansioso desde que o circo tinha chegado na cidade. Não sabia se gostava mesmo do circo ou gostava das lembranças que ele trazia.

Lembrava de quando ia com o pai para o circo. A mãe não gostava de ir. A mãe andava sempre com salto alto, jóias. Não ia no circo por que o salto alto sempre afundava na serragem. A irmã ficava com a mãe, para ela não ficar sozinha. Iam só ele e o pai. O espetáculo já começava na entrada do circo, com o algodão-doce. Ficava olhando para a máquina. Aquele algodão-doce se formando e o homem enrolando no palitinho. Era mágico.

Agora os algodões-doces vêm em sacos de plástico e não tem mais serragem para as mães afundarem seus saltos. Isso sem contar que um idiota resolveu contar na TV como é que se fazem as mágicas e as mágicas perderam a graça.

Mas não seriam esses detalhes que o impediriam de ver os Raríssimos Tigres Brancos de Bengala. Só existiam setenta e seis Tigres Brancos de Bengala em todo o mundo e aquele circo tinha dois. Dois.

- Vamos, moçada...Já estamos atrasados...

- Atrasados nada, pai... Falta quase uma hora...

Era a filha adolescente. Ela não estava muito animada com o passeio.

- Só que eu quero mostrar antes os Tigres Brancos de Bengala para seu irmãozinho.

- Ele não quer ver tigre nenhum...Olha lá, a cara dele... Ele não está nem sabendo aonde a gente vai...

A filha tinha razão. Enquanto a mãe ia enfiando a roupa no menino, ele reclamava que aquela blusa pinicava.

- Tá, tá...Mas se apressa assim mesmo...

A filha coçou a cabeça. Os adolescente geralmente não gostam muito de ir com o pai e com a mãe no circo. Acho que não gostam de ir com o pai e com a mãe em lugar nenhum. Fica chato, entende?

- Só me falta ter algum amigo lá...- ela resmungava, enquanto colocava uma camisa de gola longa, para levantar e se disfarçar no caso de encontrar alguém conhecido.

Montaram no carro e foram. O circo estava lá. A tenda iluminada parecia... parecia...

- Olha pai! Parece um disco voador! – falou o caçula, enquanto passava o dedo entre a blusa e o pescoço. A blusa estava pinicando.

Parecia mesmo. Um disco voador. Aquelas luzes todas. Holofotes. Pararam na entrada. Lá estavam eles, pintados num enorme out-dor: Os Raríssimos Tigres Brancos de Bengala. O pai ficou ali, olhando para cima. Fascinado.

- Vocês sabiam que só existem setenta e seis no mundo? E aqui tem dois! Dois!!!

A esposa sorriu. A filha resmungou que ele já tinha falado aquilo mil vezes. Ele queria que todo mundo fosse ver os tigres na jaula, mas a filha não quis. Vai que tivesse alguém da escola por lá, e levantou a gola da camisa, disfarçando e olhando em volta.

A esposa falou para ele ir com o caçula que ela e a filha iam arrumando um lugar. A mãe beijou o filho e falou para ele segurar bem na mão do papai, se não o papai se perdia. O menino riu para ela. Ele segurou na mão do pai bem forte e os dois foram para a jaula dos tigres.

Eram maiores do que ele imaginava. Enormes. E brancos. Ele ficou boquiaberto. O pai também. O menininho quis chegar mais perto. Soltou da mão do pai e se aproximou da jaula. O pai continuou lá, parado. Não estava nem percebendo ele. A blusa continuava pinicando. Ele tirou a blusa e ficou segurando a blusa na mão. Chegou ainda mais perto da jaula. O tigre olhou para ele. O tigre tremia. Talvez estivesse com frio. Ele olhou para a blusa e não pensou duas vezes. Jogou sua blusa para o tigre se esquentar. O tigre parecia ter gostado. Segurou sua blusa entre os dentes. O menino achou que ele sorriu.

- Onde é que está meu filho? Meu filho... MEU FILHO!!!

Ele olhou para a jaula. Lá estava, um dos últimos setenta e seis Tigres Brancos de Bengala. Com o seu filho na boca!!!

- O MEU FILHO!!!

Aí a coisa foi mais ou menos rápida. Tinha um guarda, ali do seu lado. Ele não ia conseguir explicar em tempo. O maldito tigre já estava com o menino na boca. Arrancou o revólver do coldre do guarda e, antes do guarda perceber o que estava acontecendo, descarregou seis tiros no tigre. Uma gritaria. Pessoas fugindo. O guarda o agarrou. O filho que estava ali, ao seu lado, não entendeu nada. O guarda arrastava seu pai que gritava:

- Só setenta e cinco agora, desgraçado... Só setenta e cinco!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus às borboletas

25 de maio de 1999

À Telma,

pelo nosso aniversário

 

Os casais. Todos eles têm lá suas recordações. O que já não há mais são casais que duram tempo suficiente para começar a ter recordações. Mas isso não vem ao caso.

Minha mulher e eu também temos nossas recordações. Numas tardes de domingo, quando esquecemos de ligar a TV e sem a gente perceber, de repente uma recordação vem à tona. São coisas bobas, como sempre são as coisas dos namorados. O que quer dizer que eu aqui, contando coisas que só dizem respeito a mim e a minha mulher, estou sempre correndo o risco de contar histórias que lhe soarão bobas. Mas é a isso que vêm, os cronistas. Contar suas recordações como se de todos fossem.

Bem, uma de nossas recordações mais frequentes é a de uma tarde que passamos num campo florido. Sim senhor. Nós temos, minha esposa e eu, entre nossas recordações, um belo campo florido. Não é todo mundo que pode se gabar disso. Um campo florido, digno desses melhores filmes americanos, onde ela vem correndo, cabelos esvoaçando. Com o passar do tempo, inclusive, ela passou a vir correndo em câmera lenta. Nossas recordações são assim, vão se aperfeiçoando com o passar do tempo.

Aí nós dois nos encontramos no meio do caminho e nos abraçamos. Cercados de flores. São flores do campo, sabe? Dessas com as quais se fazem buquês nas floriculturas de hoje em dia. No meu tempo, floricultura só vendia rosa. Flores do campo era lá mesmo que ficavam: nos campos. Bem, após nos encontrarmos no meio do campo florido, nos abraçamos e damos alguns rodopios. Tudo isso em câmera lenta, com direito a close nos pés dela, levemente levantados do chão.

Nos sentamos, enfim, no topo de um pequeno morro e passamos a observar a paisagem. Tudo está envolto por uma névoa branca. Uma aparência de inverno, apesar do sol.

E aí aparece uma borboleta amarela. Minha esposa e eu divergimos muito dessa nossa recordação em comum. Ela diz, por exemplo, que não era um campo florido, mas uma praça lá em Souzas, perto de Campinas. E que não tinha câmera lenta nenhuma. Mas nós dois concordamos que havia uma borboleta. E nós dois nos lembramos perfeitamente de sua cor amarela. Nós dois sentados ali, em cima do morro (ou na praça de Souzas, não importa) e a borboleta ficou uns bons quinze minutos voando à nossa volta. Nós dois, e com isso também concordamos, ficamos calados até a borboleta resolver ir embora. Quinze minutos. Eu me lembro até do barulho das asas da borboleta, mas dessa parte minha mulher não lembra. Uma borboleta amarela. Imortal, cá em nossas recordações.

Bem. Aí eu li uma notícia outro dia desses, na Folha de São Paulo: Linda Rayor, professora de entomologia (estudo de insetos) na Universidade Cornell, em Ithaca, Estado de Nova York (EUA), estudou os efeitos do chamado Milho Bt sobre as borboletas e as mariposas. Acontece que os tais Milhos Bt são modificados geneticamente para produzirem eles mesmos os venenos para os insetos que gostam de comer suas folhas. Então não precisa jogar inseticidas e essas coisas no milharal, porque o milho já vem com veneno, entende? Um veneno lá, especial, que só faz mal para os bichos e não para os seres humanos.

Tudo maravilhoso, certo? Errado. Sabe as borboletas e as mariposas? Então, elas comem pólen. É a comida delas, sabe? Você deve se lembrar, dos tempos da escola. As borboletas desenrolam uma espécie de tromba e comem o pólen. E as borboletas não sabem quando um milho é modificado geneticamente ou não. E elas comem o pólen lá, dos Milhos Bt e morrem. Mas não assim, na hora. Dá tempo delas levarem o pólen para outros lugares e modificar os milharais de lá também. Além disso, a doutora Rayor descobriu que o milho pode contaminar e modificar outros tipos de plantas. As flores do campo, por exemplo.

Disso tudo, chegamos à conclusão que, daqui uns tempos, talvez não haja mais borboletas. Quem nunca viu uma, só poderá vê-las espetadas naqueles alfinetes, nas coleções. Está certo que o mundo não vai acabar por causa disso, mas com certeza a coisa vai perder um pouco da graça.

E tem uma coisa. Vai ser muito difícil convencer os mais jovens dos poderes que aqueles animaizinhos exerciam sobre os casais. O poder de os calar por mais de quinze minutos, por exemplo.

Ou de se eternizarem em suas mentes por mais de quatorze anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Receita de frango

08 de junho de 1999

Meu sogro. Sou casado há quatorze anos. Há quinze, mais ou menos, conheço meu sogro. Desempenhou sempre seu papel muito bem. Impõe o devido respeito quando necessário. A devida distância, quando não pretende se envolver demais. E, claro, os devidos apertos de mão em aniversários, natais e anos novos. Ajudou quando precisei, sem nunca pedir nada em troca. Brigas? É claro que há brigas. Mas brigas há com nossos pais, com nossas mães, nossos filhos, nossas esposas. Todas as pessoas que amamos, uma hora ou outra, dão uma escorregada. Ou nós damos uma escorregada com elas. Intimidade eu nunca esperei. Somos de geração diferente. De lugares diferentes. De criação diferente. Somos...ahmm...diferentes. Um do outro, entende?

Pois passados quinze anos, quando já não esperava mais, recebi do meu sogro um presente. Talvez o maior que já recebi nesses quinze anos:

Um elogio.

É, um Elogio, digno de um "E" maíusculo. Estávamos passando o fim de semana no rancho dele. Por não gostar muito de pescar e ultimamente estar meio que impossibilitado de beber, resolvi assumir a cozinha no domingo. Adoro cozinhar. Não existe tranquilizante melhor. A gente não pensa muito em filosofias de vida ou outras bobagens. Só pensa em deixar o almoço gostoso. Eu preparei um franguinho, uma maionese. Nada muito especial. Quem estava por lá ajudou. Uns picavam umas verduras enquanto outros faziam o arroz.

O frango eu fiz sozinho. Desde a hora de descongelar até a hora de desligar o forno. Passando pelos temperos e tal. Nada de especial, confesso. Um pouco de limão, um pouco de alho. Uns furos na carne branca para o tempero pegar. Comidinha caseira, sabe? Daquelas que caem redondo na segunda-feira, depois dos churrascos e das feijoadas do final de semana. Mas, para os que ainda queriam festa, lá fora, na varanda, acendi a churrasqueira e coloquei umas linguiças de porco e uma picanha bem gordurosa para assar.

Eu estava lá, assando minha picanha, cigarro no canto da boca, olhando a paisagem, quando precisei de alguma coisa lá da cozinha. Sal grosso ou coisa que o valha. Entrei na casa e dei com meu sogro almoçando, seu prato na mesa, em frente à TV. Passei por trás dele, entrei na cozinha, peguei o que havia ido pegar e já ia saindo quando resolvi dar uma puxadinha de saco. Ofereci uma picanha, que devia estar no ponto. Meu sogro olhou para mim, agradeceu mas recusou. Ia ficar só com aquele franguinho. Ainda falou:

- Experimenta. Está uma delícia.

Ele não sabia quem havia feito a comida e tudo. Passou a manhã inteira pescando. Voltou seus olhos para a TV e tascou uma dentada na coxa do frango que segurava com a mão. Colocou o osso novamente no prato e, lambendo os dedos, repetiu:

- Uma de-lí-ci-a.

Embora nem ele mesmo soubesse, em quinze anos, aquele era o primeiro elogio que me fazia. Pelo menos assim, tão diretamente. É claro que me deu vontade de soltar um "Fui eu que fiz", mas me contive. Talvez estragasse tudo.

Acho que fui um bom pai nesses anos todos. Um esposo até que razoável, pelo menos em comparação com uns caras que conheço. E o elogio acabou vindo por causa de um frango assado.

Bom, se tem algum genro por aí, em perigo, e quiser passar lá em casa, resolvi colocar a receita do frango à venda. Não é difícil não, qualquer um consegue fazer.

O preço é um pouco pesado, mas se você pensar na relação custo benefício, sai praticamente de graça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pára de inventar

10 de junho de 1999

Os grandes inventores são umas figuras esquisitas. Pode pegar aí, uma fotografia. Eles tem uns bigodes esquisitos, usam roupas esquisitas. São esquisitos, enfim. Talvez também porque só os conheçamos assim, através de poses para fotografias e de filmes antigos. Qualquer um fica parecendo um personagem de comédia se aparecer num daqueles filmes mudos, onde todo mundo fica andando rapidinho.

Suas invenções então, vou te falar uma coisa, não sei como é que acabaram funcionando. Para começar pelo 14-Bis, que voava ao contrário. Mas tem mais um monte. Você já viu uma fotografia da primeira lâmpada, do Thomas Edson? É um monte de fios e coisinhas ligadas que a gente tem a ligeira impressão que aquilo acendeu foi por puro acaso. Agora, se a lâmpada era assim, imagina só a câmera de cinema (invenção do velho Thomas também).

Mas não é sobre essas grandes invenções que eu queria falar. Eu queria falar sobre as pequenas invenções. O copo, por exemplo.

Alguém deve ter inventado o copo, não deve? Então houve uma época em que o copo não existia e as pessoas bebiam água com as mãos. E, logo depois de beberem sua água, as pessoas deviam querer enxugar as mãos. Aí elas enxugavam no quê, se as calças e as toalhas ainda não tinham sido inventadas? Ou tinham? E quem foi que inventou a toalha e as calças? E seus inventores, ficaram ricos com isso?

É uma coisa complicada, se você pensar bem.

Desde criança eu tenho uma fantasia que não é bem uma fantasia. É mais um medo de que aconteça. Tenho medo que assim, de uma hora para outra, eu seja transportado para o passado. Dá até para fazer, segundo outro inventor esquisito, o Einsten. Chegando lá, depois de encontrar um bando de moradores, eu começo a falar das maravilhas do nosso tempo. O carro, a TV e a caneta esferográfica. Os pobres coitados ficam todos abismados com o mundo maravilhoso em que vivo. Um lá não acredita muito nas minhas histórias e fala então para eu provar. Me manda construir um carro. Eu dou risada e explico para ele que não dá para construir um carro assim, do nada. Ele coça o queixo e fala então para eu construir uma TV.

Então tá. Mesmo se eu conseguisse construir uma TV, onde é que eu ia ligar a danada? Ia pendurar a tomada numa pipa (se é que eu ainda lembro como é que se constrói uma pipa) e ficar esperando um raio cair, como o Benjamim Franklin?

Aí eu digo para ele que também não sei construir uma TV. Aí é ele quem ri, mas resolve me dar uma última chance de provar que não sou um mentiroso. Me manda construir uma caneta esferográfica. E eu também não sei construir uma caneta esferográfica. Você sabe construir uma caneta esferográfica? Eu acho que ninguém mais sabe como construir uma caneta esferográfica. Para te falar a verdade, eu acho que elas nascem em caixas, dentro das livrarias. Nem um lápis. Eu não sei nem construir um lápis. Como é que eles fazem para colocar o grafite dentro daquele pedacinho redondo de pau? Alguém aí sabe? E quem foi que inventou o lápis? E a caneta? E o clips?

E o computador? Se alguém aí respondeu Bill Gattes, pode ir tirando o cavalinho da chuva. O Bill Gattes inventou uma outra coisa, que eu não estou lembrado agora, mas ele já usava um computador quando inventou a tal coisa.

A verdade é que as coisas mais esquisitas do mundo vão sendo inventadas por uns caras mais esquisitos ainda e a gente, quando vê, está cercado de quinquilharias sem as quais provavelmente viveríamos muito bem. Por exemplo. Eu gostaria muitíssimo de saber quem foi que inventou o Paulo Maluf.

E o Zagallo? Alguém aí sabe quem inventou o Zagallo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cura

24 de junho de 1999

Foi descoberta, no interior da América do Sul, uma doença nova. Misteriosa, ataca diretamente os neurônios. Estão estudando ainda. Ninguém sabe exatamente como age. Pesquisadores da Universidade de Pichard, Ohio, EUA, estão perplexos por tal doença não ter sido descoberta antes. "O vírus que causa a doença existe há pelo menos um milhão de anos", afirma o doutor Herman Taylor.

O que está deixando os estudiosos mais perplexos, no entanto, não são os modos de contágio da doença, mas sim os sintomas do ser humano infectado. O doente se sente...feliz.

É, feliz. Feliz como nunca se sentiu antes.

"Não sei se podemos chamar a isso de felicidade. É um distúrbio neurológico, entende?"- tenta explicar o doutor Taylor - "O paciente tende a aceitar melhor a realidade. Isso já aconteceu antes, mas somente depois do paciente ter sofrido algum traumatismo grave".

A doença, ao que parece, é de transmissão aérea, o que faz com que se torne extremamente contagiosa. Não havia sido "descoberta" pelo resto do mundo apenas porque, até bem pouco tempo atrás, todos os infeccionados eram de uma tribo que vivia isolada no interior da Bolívia. Após alguns membros do exército boliviano manterem contato com alguns de seus membros, no entanto, a infecção espalhou-se como uma praga. A Bolívia manteve tudo em segredo, mas a situação tornou-se incontrolável e tiveram que pedir ajuda aos americanos.

O doutor Herman Taylor afirma também que o vírus é de fácil manipulação e que uma vacina com efeito curativo estará pronta em no máximo seis meses. Já foi enviado para a Bolívia, inclusive, um lote para testes e, junto com as vacinas, viajaram jornalistas do mundo todo. Os relatos desses jornalistas são impressionantes.

Ao se aproximarem da comunidade perceberam um grande tumulto. O governo boliviano havia colocado a região de quarentena e o local estava completamente cercado. Os jornalistas imaginaram que o tumulto era causado por tentativas de fuga, mas estava acontecendo exatamente o oposto. Muitas pessoas tentavam entrar. Mais tarde, ao entrevistarem diversos doentes, entenderam a razão daquela tentativa de invasão. Os pacientes infeccionados não pareciam doentes. Estavam fortes e corados, esbanjando saúde. Sua memória permanecia intacta. Só se sentiam mais...mais...felizes.

No hospital improvisado no meio da aldeia, só se ouviam risadas e conversas. Alguns pacientes colocaram uma mesa do lado de fora da barraca principal e começaram a brincar com um estranho jogo de cartas. Todos pareciam se divertir muito. Mais à noite, as mulheres cantavam cantos que pareciam vindos do além. Os homens se debruçavam em suas camas e seus olhos se enchiam d’água. Mas não se via tristeza neles. Apenas uma melancólica...felicidade.

Quando os médicos tentaram explicar que haviam trazido a cura para a doença, os pacientes riram muito. Ninguém ali parecia saber que estava doente. Com a ajuda dos soldados, no entanto, as vacinas foram aplicadas e, no prazo de dois dias, absolutamente todos os homens infeccionados já estavam de posse de suas faculdades mentais. Aparentemente o teste com a vacina obteve êxito total.

No dia em que partiram, todos os jornalistas relataram o estranho silêncio que reinava na aldeia. O movimento era mais ou menos o mesmo do dia em que chegaram. Os habitantes seguiam sua vida normal na aldeia. Mas faltava alguma coisa, que ninguém conseguia explicar. Até que um deles falou, com a cabeça baixa, o que todos já haviam percebido, mas ninguém tinha coragem de falar.

Faltavam as risadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Homo Malborus

27 de julho de 1999

De há muito desconfiava-se que as multinacionais da indústria do fumo utilizavam-se de estratégias ilegais para alavancar seus lucros. Havia evidências de que certos produtos químicos eram adicionados às folhas de fumo, causando uma dependência ainda maior do consumidor. Agora, nos Estados Unidos, a sociedade civil organizada conseguiu vencer uma série de ações judiciais movidas contra essas indústrias, causando uma verdadeira avalanche de novos processos em todo o mundo.

Pois vou me juntar a eles.

Sou um fumante. Desses antigos. Comecei aos treze, quatorze anos, não me lembro bem. Mesmo antes de começar a fumar, acho que eu já podia ser considerado um fumante.

Quando via Paul Newman dando aquelas tragadas fundas, fazendo as bochechas murcharem, e depois soltar a fumaça na cara de algum delegado de polícia. Ou quando, em "Casablanca", o cigarro que pendia no canto da boca do Humphrey Bogart deixava fugir um fino fio de fumaça, que se misturava com a silhueta da Ingrid Bergman, na neblina. Eu fumava com eles.

Os americanos já começaram aí. Glamourizando um hábito que é, para dizer o mínimo, muito estranho. Porque não há quem não concorde que fumar é esquisito. Pegar aquele pequeno pedaço de papel com um monte de coisa dentro. Acender e inalar a fumaça, direto para os pulmões.

Antigamente, pelo menos, sabíamos o que é que os cigarros continham: folhas de fumo. Agora nem isso sabemos mais. Lemos nos maços: "Mistura de fumos, açúcares, papel de cigarros, extratos vegetais e agentes de sabor". Açúcares? O que quer dizer, exatamente, "açúcares"? E os diabéticos, será que podem fumar? Ou existe alguma espécie de cigarro dietético?

E "extratos vegetais"? O que são? O alface é um extrato vegetal. Mas a cocaína também é. Não é?

Você já deve estar aí, falando: "- Mas então, por que esse cara não pára de fumar?". Bom. Não é tão simples assim.

Vamos nos colocar numa situação real. Por exemplo: Você encontra a esposa do seu chefe. Já são conhecidos há muito tempo, mas não são íntimos. Ninguém, em sã consciência, fica íntimo da esposa do chefe. Bem. As pessoas que não fumam já estão treinadas. Colocam as mãos nos bolsos. Ou na cintura. Sabem exatamente o que fazer com as mãos. E os que fumam também sabem. Buscam imediatamente um cigarro no bolso da camisa. Um isqueiro no bolso da calça. Acendem o cigarro. Dão uma primeira tragada. Até tudo isso acontecer, já está se despedindo da esposa do chefe. Porque, também, ninguém fica tanto tempo assim conversando com a esposa do chefe.

Agora, tirem o cigarro da mão do fumante e você vai ver uma coisa. Não há bolsos suficientes no mundo para conter todas as mãos que parecem brotar dele ao se ver sem seus cigarros. A mão na cintura dá a aparência de estar numa posição, digamos, delicada demais. O tal do encontro se torna interminável. E nosso fumante acaba falando um monte de bobagens, tentando driblar seu nervosismo.

Tire o cigarro de um fumante e você estará tirando dele toda uma postura adquirida durante anos e anos de treinamento. Não é fácil, como já disse.

Bem. Já não bastasse tudo isso, os cigarros agora deram para vir completamente "murchos". É, murchos. Com pouco fumo dentro deles. Estamos lá, fumando, de repente a brasa do cigarro cai no chão e o cigarro apaga. Já queimei não sei quantos tapetes em casa. E a barra de duas calças. As indústrias estão colocando cada vez menos fumo dentro dos cigarros. E vendendo pelo mesmo preço.

Cigarros não se vende por quilo, já reparou? Então ninguém pode controlar o quanto de fumo eles colocam lá dentro. Em vez de aumentarem os preços, colocam menos fumo. E os idiotas dos viciados aqui, se estrepando.

Estou entrando com um processo contra a Philiph Morris, a Souza Cruz e o que mais pintar por aí. Quero que os cigarros sejam vendidos por quilo.

Posso até ficar sem saber o que é que eu estou fumando, mas quero saber pelo menos o quanto eu estou fumando.

Já dei um bocado de lucro para esses caras. Acho que mereço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anos dourados o escambal

05 de agosto de 1999

Recomeçaram as aulas. Na segunda-feira de manhã fiquei ali, de longe. Observando minha mal-humorada filha arrumar suas coisas para o primeiro dia de aula.

As pessoas são engraçadas. Morrem de saudade dessa época. A adolescência. Que foi uma maravilha e tal. As festinhas. As primeiras descobertas. O sexo. Essas coisas.

Eu não entendo. Acho que essa foi simplesmente a pior época da minha vida. Para te falar a verdade, só de sentir o cheiro da mochila da minha filha me vem um enjôo no estômago.

Não é brincadeira não. Sabe aquele cheiro de caderno? De livro novo? Misturado com um cheiro de plástico. Um cheiro meio adocicado, sei lá... Me embrulha o estômago. Por que será que desde o meu tempo de escola essas coisas têm o mesmo cheiro? Será que não mudaram os materiais de fabricação, nem nada?

Bem, esse enjôo todo tem lá a sua razão de ser. É porque me faz lembrar do pesadelo que foi a minha vida escolar. E minha adolescência, de uma maneira geral. Não gosto nem de lembrar.

Vamos começar pelo número de braços. Não sei aonde eles foram parar conforme fui crescendo mas, na adolescência, eu tinha pelo menos uns cinco braços. E as calças, como até hoje, têm no máximo quatro bolsos. Dois na frente, dois atrás. Quer dizer, faltavam bolsos para tantas mãos. Hoje em dia é até pior. Tem umas calças que nem bolsos tem.

Pois bem. Uma bela manhã você está ali, completamente atrapalhado com aquele monte de braços e mãos, e de repente encontra aquela gatinha. No corredor do colégio. Ficam os dois ali, parados, um de frente para o outro. Ela sorri e fica esperando que você fale alguma coisa. E o que é que você fazia com todas as suas mãos? Todas as cinco?

Bem. No meu caso, algumas das minhas mãos até que encontravam seus respectivos bolsos, mas as outras, normalmente, esbarravam nas coisas que se encontravam à minha volta. Essas coisas, por sua vez, eram muito frágeis e se quebravam com extrema facilidade.

Enquanto eu estava ali, agachado e envergonhado, juntando os cacos, aquela gatinha com a qual eu sempre quis conversar já estava de costas para mim. Batendo papo com aquele loirinho de olhos verdes que tocava violão nas festinhas. Uma droga.

E tem o sexo, também. Ah...os mistérios do sexo...

Mistérios... Para te falar a verdade, o que eu queria mesmo, naquela época, era acabar logo com aquilo tudo. Na minha classe, éramos cerca de vinte garanhões de doze anos, todos com uma vasta experiência sexual. Ninguém perguntava nem respondia nada, com medo dos outros descobrirem que éramos tão virgens quanto um pintinho (opa). Mas, uma hora ou outra, acabou acontecendo a "primeira vez" para todo mundo.

O problema é que, quase sempre, a primeira vez não "acontece".

Me lembro que, um dia, um colega mais velho me levou para "conhecer" uma moça. Eu e mais uns três da minha idade. Chegamos lá, na "casa" da moça, e ele combinou alguma coisa com ela. Ela entrou no quarto com um de nós três. Ficamos os outros do lado de fora. Ouvidos colados na porta. Dando risada. Logo depois meu colega saiu. E entrou eu. Deitei na cama suando frio. Eu sabia que estavam todos lá, do lado de fora, tentando ouvir alguma coisa.

Bem, não vamos aqui entrar em detalhes sobre a minha vida sexual, mas a minha primeira vez aconteceu sim, só que muitos anos depois e em situação muito menos constrangedora.

Você ri, né? Ri porque não foi com você. Hoje em dia eu nem consigo ter relações normais com minha esposa se a porta do quarto estiver fechada. Tem uns que não conseguem se a porta estiver aberta. Tem até lá a sua razão de ser. Pudor, ou coisa parecida. Já eu não consigo se a porta estiver fechada.

Fico ouvindo aqueles risinhos dos colegas da minha classe...Um pesadelo, meu amigo...

Um pesadelo...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você sabia que já pode escolher o sexo do seu filho?

21 de agosto de 1999

Olha. Eu sei que nessas tantas crônicas que eu já publiquei, acabei por contar diversas "mentirinhas". Faz parte do jogo, entende? Tirar o leitor da monotonia do cotidiano é um dos ofícios de qualquer pretendente a cronista.

Bem. Mas dessa vez, é sério. Mesmo.

Eu li no jornal "O Globo", do Rio. E depois, para me garantir e não passar informação errada, fui investigar. E confirmei. Noutros jornais e na Internet.

Você sabia que já existe tecnologia disponível que permite escolher o sexo do seu filho? Não é ficção, nem nada. Já existe mesmo.

Nos Estados Unidos, a Genetics & IVF, clínica especializada em reprodução humana, dispõe de um equipamento, chamado Microsort (nada a ver com a Microsoft, do Bill Gattes), que permite selecionar o sexo do bebê.

Você leu direito? Você quer ter uma filha? Ok. Menino? Ótimo. É só pedir.

Mas não é uma coisa simplesmente ma-ra-vi-lho-sa?

Quem diria que eu iria acabar vendo isso acontecer? Negócio de ficção científica. Nem os filmes americanos, daqueles mais futuristas, arriscariam prever uma coisa dessas para antes do ano 2.000. E aí está.

Uma maquininha com nome esquisito. Deve ter ali, dois botões. Um cor-de-rosa, outro azul. Ou com os símbolos dos sexos. Aqueles círculos, com uma cruz ou uma flechinha embaixo, sabe? Então.

Dois botões. Você aperta e escolhe: John ou Mary?

É. Tem que ser John ou Mary. João e Maria ainda não pode. Sabe por quê? Porque, por incrível que pareça, esse aparelho só existe nos Estados Unidos. Mas não é porque eles são mais desenvolvidos que a gente, não... É claro que são mais desenvolvidos, mas não é por isso. É porque, no Brasil, esse aparelho é PROIBIDO. Qualquer tipo de manipulação envolvendo embriões é proibido pelo Conselho Federal de Medicina brasileiro.

Dá para acreditar? O homem evoluiu a tal ponto que já pode escolher o sexo do filho. Nada de ficar fazendo crochêzinho cor-de-rosa e depois nascer um garotão. E aí eles pegam e me proíbem de escolher.

Eu simplesmente não acredito.

E pior. Quando eu comecei a comentar essa notícia lá no escritório, a maioria também era contra a tal máquina. Que não podia. Que era anti-natural. Que eu estava pensando que era o quê? Deus? Que só Deus podia escolher o sexo das crianças.

Mas, espera aí. Se a máquina existe. Está lá, pra quem quiser e puder pagar. E me proíbem de usar... Oras, quem está escolhendo o sexo do meu filho não é Deus. São os que me proibiram de usar a máquina. Entendeu? Deus não tem nada com a história. Eu quero uma menina. Não me deixam usar a máquina. Nasce um menino. Quem escolheu o sexo? Foram os que me proibiram de escolher. Porque ia nascer uma menina. Eles não deixaram. Então nasceu menino só por causa de quem me proibiu a escolha. Entendeu agora?

A outra veio falar que, o que é isso? O que seria do mundo se, por exemplo, todo mundo resolvesse ter só meninos?

Seria uma grande porcaria, é claro. Já imaginou, um mundo só com meninos? Mas eu duvido que uma coisa idiota dessas ia acontecer. Porque diabos iriam escolher só meninos? Não iriam. Eu tenho certeza.

Mas o que eu acho mesmo é que eu tenho o direito de escolher. Inventaram a máquina. Está lá...e não me deixam usar? Quer dizer que se inventarem a cura contra o câncer e, para chegar à ela, fosse preciso manipular umas drogas de embriões, no Brasil ia ser proibido?

E o que é que faz esse tal de Conselho Federal de Medicina, que eu nunca ouvi falar? Será que esses caras não tem coisa melhor para fazer do que ficar se metendo na vida sexual dos meus filhos?

E, quer saber de uma coisa? Se fosse eu que tivesse inventado a tal máquina, eu ia ser até mais radical. Ia inventar logo era uma máquina com três botões.

Quem sabe até quatro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imortal

26 de agosto de 1999

Os ídolos. Vêm e vão que a gente nem sabe mais se ainda estão por aí.

- O Johnny Weissmuller, por exemplo...

- Quem?

- Johnny Weissmuller... O primeiro Tarzan. Já morreu?

- Hum... Não sei não... Parece que eu lembro de ter visto esse cara no Fantástico, dia desses... Tava velhinho, parece... Mas vivo.

- No Fantástico?

- É... Foi quando lançaram esse desenho aí. O Tarzan, do Disney. Fizeram uma homenagem para o cara...

- Sei não. Deve estar com uns cem anos...

- Ah... Sei lá... Podia ser imagem de arquivo também... Outro dia passaram umas imagens do John Lennon e minha filha veio me perguntar se o Lennon não tinha morrido. A TV atrapalha a gente um pouco, com esse negócio. Fica fazendo homenagens e tal.

- É. Sábado passado, por exemplo, foi a vez do Raul Seixas.

- Morreu. Não morreu?

- Morreu. Há dez anos. E fizeram umas homenagens lá. Misturavam cenas dele vivo com um pessoal falando dele hoje em dia. Minha mulher ficou na dúvida. Me perguntou se ele não tinha morrido. Ninguém sabe mais direito quem morreu, quem não morreu. As imagens continuam passando na TV, como se nada tivesse acontecido.

- É. Os Trapalhões fizeram isso. Ficou passando um bom tempo com o Mussun e o Zacarias. Tem molecada que nem sabia que os dois tinham morrido. Eu achava até meio mórbido. Todo mundo ali, rindo de dois defuntos.

- Exemplo mais recente é o do Rony Cócegas.

- Quem?

- Rony Cócegas... Aquele cara da Escolinha do Prof. Raimundo, que fazia o "Galeão Cumbica", sabe?

- Aquele com o cabelinho arrepiado dos lados?

- É, aquele. Então. Morreu.

- Morreu? Mas eu vi outro dia mesmo, na Record. Ele lá, brincando.

- Então. Isso só vem provar o que eu estou querendo dizer. Os caras morrem e a gente não fica sabendo. Continua vendo eles ali, na TV. Parece que não morreram.

- É. Me faz até lembrar de um cachorrinho que eu tenho. O Elvis.

- Elvis? Mas que nome mais esquisito para um cachorro. Por que Elvis?

- Bem. Quando eu ganhei esse cachorrinho, de uma tia da minha mulher, eles eram dois.

- Quem era dois?

- O meu cachorro. Não era ele sozinho. Era ele e o irmão dele.

- Hum...E como é que chamava o irmão do Elvis? Bob Dylan?

- Não. Acontece que os cachorros ainda não tinham nome quando a gente ganhou. Aí, um dia, a gente levou os dois para o rancho de um amigo. Tinha piscina. Demos uma festa e acabou todo mundo "chapando". Quando acordamos, fomos lá ver, um dos cachorrinhos tinha caído na piscina. Morreu afogado, coitado. Era muito pequeno, não conseguia sair da piscina. Morreu.

- Tadinho...

- É. Mas sobrou o irmão dele. Está com a gente até hoje, firme e forte. É o Elvis.

- A história é triste e tudo. Mas você ainda não explicou o porquê dele se chamar Elvis.

- Ué? Não entendeu? O irmão do meu cachorro morreu afogado.

- E daí?

- Oras: o Elvis não morreu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A gente sabe o filho que tem

28 de agosto de 1999

A mãe mostrou o nenê para o pai. Tinha acabado de nascer. Parto normal. A mãe passava bem. A criança, idem.

- Parece um sapo.

A esposa não quis acreditar no que ouvia.

- O quê?

- Olha os olhos dele...

- ...que lindos, né? Os olhos do pai...

- Que meus olhos, nada. Vê se meus olhos parecem olhos de sapo. Olha lá. Inchado. Todo enrugado.

- Pára com isso! É um nenêzinho...Seu filho.

- E daí que é nenê? Só porque é nenê e meu filho tem que ser bonitinho? Pra mim, parece um sapo.

A mãe ficou olhando para o marido. Abobada.

- E tem outra. Tem cara de desonesto.

- Que papo é esse de desonesto? É um nenê... Como é que vai ter cara de desonesto?

- Não sei. Eu tenho faro para essas coisas. Olho para a cara do sujeito e já sei: esse é honesto, aquele não é. Esse nenê aí, por exemplo. Desonesto.

- Você é doente. Onde já se viu? Faro... É o seu filho!

A esposa abraçou o nenê. Fez carinho. Olhou para o marido. Ele andava muito nervoso, ultimamente. Problemas no emprego. E os dois já não se davam tão bem quanto antigamente. Resolveram ter o filho por isso mesmo. Quem sabe, com o filho, as coisas não voltavam aos seus eixos. Percebeu que o marido espiava o filho com os cantos dos olhos. Quase sorriu.

- Porque você não segura um pouco? - e esticou os braços, oferecendo o bebê para o pai.

O pai, no entanto, deu um passo para trás.

- Porque é que se afastou desse jeito? É seu filho! Está com medo de um nenêzinho desse tamanho?

- Olha. Não fui com a cara dele, certo? Tem cara de sapo. E de desonesto. E eu não gosto de sapos nem de desonestos.

- Querido. Me responda com toda franqueza: você anda usando drogas?

- Não.

- Voltou a beber?

- Não.

- Então a gente vai sair daqui da maternidade e vai direto procurar um psinanalista, um psicólogo. Ou coisa que o valha. Você está precisando de tratamento.

O marido, por incrível que pareça, gostou da idéia. De uns tempos para cá, andava tendo muitos pesadelos. Acordava encharcado de suor. E sua vida sexual não andava lá essas coisas também.

Começou a frequentar um psicanalista. Quem sabe? Tanta gente faz terapia, porque ele não? O psicanalista receitou uns antidepressivos. Batiam longos papos. Ficaram até amigos.

O tempo foi passando. Aos poucos, as coisas foram melhorando. Os pesadelos cessaram. Ele e a esposa voltaram a se dar bem. Sexualmente, inclusive.

O marido se tornou um grande pai. Fazia tudo que o menino queria. Passados uns anos, o psicanalista falou que ele não precisava mais de psicanálise. Nem de remédios. O filho já estava crescido. Quando menos perceberam, já era época de fazer vestibular.

Um dia, o garoto chegou para os pais, decidido:

- Pai. Vou fazer vestibular para direito. Quero ser advogado. E estou pensando em me candidatar a vereador.

A mãe olhou para o marido. O marido deu um passo para trás. Esfregou os olhos e não quis acreditar no que estava vendo. Alguma coisa esquisita estava acontecendo com o filho. Os globos oculares do garoto começaram a inchar. Pareciam querer saltar das órbitas. A pele foi tomando uma coloração esverdeada e começou a enrugar, formando espécies de bolhas. As pernas foram se deformando, tornando-se estranhamente desproporcionais ao restante do corpo. O filho ainda quis dizer alguma coisa para o pai, mas a única coisa que saiu de sua boca foi um estranho som:

- Coach...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo isso sem sair de casa

04 de setembro de 1999

A moda agora, pelo jeito, é não sair de casa.

Outro dia desses, um vendedor veio querer me enfiar goela abaixo uma dessas antenas por satélite. Eu não queria. E ainda não quero. Já vi como funcionam e, sinceramente, ainda prefiro um bom cinema.

Mas ele insistia:

- Mas você, uma cara que trabalha nos meios de comunicação... Têm que ter uma parabólica. Você recebe canais dos Estados Unidos. Todos aqueles filmes. Desenhos... As novelas do México... E da Europa, então? Da Itália, por exemplo, dá para você ver e ouvir o Papa rezar a missa na Praça de São Pedro, ali, ao vivo... E, se quiser, pode até alugar um filme, igualzinho você aluga uma fita na locadora... E tudo isso sem sair de casa!

- Eu gosto de sair de casa.

- Hã?

- Sair de casa... Eu gosto. Dar umas voltas...Comprar pão na padaria, domingo de manhã. Eu gosto.

- E o que é que tem que você gosta de comprar pão?

- "O que é que tem" que você terminou toda a sua argumentação dizendo que eu podia fazer tudo aquilo "sem sair de casa". E daí? Isso não é argumento para eu comprar uma antena.

Bem. O vendedor percebeu que eu não estava mesmo querendo comprar a tal antena por satélite e desistiu. Não sair de casa... Até parece que é uma grande vantagem não sair de casa.

A propaganda do microondas: Pipocas na hora, bolos e até pizzas... Tudo isso sem sair de casa...

Mas... O que é que tem uma coisa a ver com a outra? O microondas e o "não sair de casa"? Antigamente eu fazia tudo isso no fogão e também não saía de casa. E nunca vi uma propaganda de fogão falando: "Faça o seu arroz, feijão, bife e batata frita... Tudo isso sem sair de casa". É coisa nova esse negócio, de não sair de casa.

- A Internet é mesmo uma maravilha, não é?

O amigo me perguntou. É outra coisa que eu não aguento mais. Esse papo de que a Internet é a maravilha das maravilhas. Mas vá lá. Deixei o rapaz continuar a falar.

- Cada coisa que a gente pode fazer... Não dá para acreditar, né?

Não. Não dá para acreditar. A gente tem que concordar que a Internet realmente faz umas coisas incríveis. E ele continuou:

- Por exemplo: você pode bater papo com pessoas interessantíssimas... Naqueles chats de bate-papo, sabe?

Saber eu sabia, mas só balancei a cabeça.

- ...e mais um monte de coisa. A gente pode conhecer línguas diferentes. Pode ler livros... Sabia que já tem livros inteirinhos na Internet? A gente entra lá, no site, pega o livro e lê... Não é sensacional?

Aí ele colocou a mão na frente da boca, olhou em volta e cochichou:

- E as mulheres, então? Um monte de fotografia de mulher pelada... E o que é melhor: TUDO ISSO SEM SAIR DE CASA!!!

Lá vinha o "sem sair de casa de novo". Tá bom. Eu também acho a Internet uma maravilha. Acho mesmo, não é ironia não. Só que não é por essas coisas que meu amigo falou.

Porque, olha: bater papo com uma mulher interessantíssima, ler um bom livro, conhecer línguas e mulheres peladas, eu já tenho tudo isso há muito tempo. E de um jeito muito melhor que sem sair de casa:

Sem sair da cama.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro

07 de setembro de 1999

Dia sete de setembro de 1997. Ele bateu na porta de casa. Minha casa tem grade. Para bater na porta, tem que abrir o portão e entrar no quintal. Quer dizer, o homem já estava praticamente dentro de casa. Era dia ainda. Não deu para assustar, mas, antes de abrir a porta, dei uma espiada pelo olho mágico. Sabe o olho mágico, né? Aquele buraquinho que fica na porta. Então. Dei uma espiada. e lá estava o sujeito. Vestido com uma roupa esquisita, cheia de babados. Uns botões dourados. A barba rala, mas longa, me fez achar que era um mendigo. Abri a porta.

- Pois não?

- Por favor. Estou com problemas. Talvez o senhor possa me ajudar.

Me falou com um leve sotaque. E alisando a barba. Nem sei se aquilo podia ser chamado de barba. Era mais uma espécie de cavanhaque.

- Olha, companheiro. Por aqui todo mundo tem problemas.

- O meu é maior – respondeu - Sequer sei onde é "aqui".

Cocei a barba. A minha, não a dele.

- Como assim? Não sabe onde é aqui?

- Não sei. Eu estava à beira do Ipiranga. Dando uma descansada, numa de suas plácidas margens. Acho que adormeci. De repente, uma luz muito forte brilhou. Quando abri os olhos, estava nesse lugar.

Olhei para a cara do sujeito. Aquela roupa vermelha. Observei suas mãos. Torciam uma espécie de boné, num gesto nervoso.

- Ipiranga?

- É. O rio Ipiranga. Conhece?

Ipiranga? Margens plácidas? Cavanhaque?

- Escuta, amigo. Como é que você se chama?

- Pedro. Dom Pedro de Orleans e Bragança. O nome é maior, mas acho que você ia se cansar.

Um louco. Era o que me faltava. Eu ali, em pleno feriado, e um louco, fugido de algum hospício, na varanda da minha casa. Foi quando percebi sua espada.

- O que é isso que o senhor trás aí, na cintura?

- O quê? Isso?

E ele tirou da bainha. Louco ou não, aquilo era uma espada.

- Calma, calma... Você pode machucar alguém com isso...

Ele sorriu. Devia ser um desses loucos mansos. Enfiou a espada no lugar.

- Não se preocupe. Não vou machucar ninguém. Só quero saber onde estou. Quando eu acordar, quero poder contar onde estive.

- Acordar?

- É. Porque eu devo estar sonhando. Eu tenho de estar sonhando. Pois eu dormi numa colônia portuguesa. Embora eu ande planejando umas coisas, ainda é uma colônia portuguesa. E eu acordei numa colônia inglesa. Ou coisa que o valha.

De olho na espada, continuei conversando, tentando acalmá-lo:

- E o que faz o senhor acreditar que aqui seja uma colônia inglesa?

- Ora... Li por aí, nas roupas dos moradores. Tenho um bom conhecimento em línguas. Lá de onde venho, sou o Imperador, sabe? Tenho contato com todas as cortes do mundo. Mas é um costume muito estranho o do povo desse país. O de escrever nas vestimentas...

Falei para ele entrar. Acomodei-o na sala e ofereci um copo d’água. Enquanto ele observava as capas dos CD’s do Backstreet Boys e das Spyce Girls, que minha filha tinha largado no sofá, fui até a cozinha e, disfarçadamente, liguei para a polícia. Expliquei a situação e eles disseram que uma viatura chegaria em minutos. Voltei para a sala com o copo d’água. Ele tomou o copo todo e agradeceu. Mas olhou para mim, desanimado:

- Bem hoje, que eu estava na iminência de tomar uma importante resolução, me acontece uma coisa dessas...

- E que resolução o senhor pretendia tomar?

Ele olhou em volta, desconfiado, e me sussurrou:

- Eu estava pensando em tornar meu país livre.

- Livre?

- É. Livre. Independente, entende? Eu seria capaz de dar a vida pela independência do meu país.

- É. Eu sei. Independência ou morte, né?

- O quê?

- Nada não. Esquece.

Fiquei um bom tempo observando os cavanhaques dele. Não. Não podia ser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Competir o escambal

16 de setembro de 1999

Eu não gosto de esportes. Nem de falar sobre. Nenhum. Futebol. Volei. Natação. Nem uma caminhadazinha. Para mim, as pessoas foram feitas é pra ficarem deitadas. Descansando.

Tá bom. Eu já estou até vendo a cara de umas pessoas depois de lerem isso. Que só podia ter vindo de mim mesmo... Ou "- Ah, esse Artur me vem com cada uma...", esse tipo de coisa. Tudo bem, já estou mais ou menos acostumado. Mas que eu não estou falando nenhum absurdo, não estou.

Vamos tentar nos explicar. Por exemplo, a vaidade. Nos ensinam desde crianças que a vaidade é uma coisa errada. É até um dos sete pecados capitais, se não me engano. Não é um pecadozinho do interior, não. É Capital. Vamos para o inferno se formos vaidosos. Agora, por que é que as pessoas fazem esporte? Bem. Que eu saiba, as pessoas fazem esporte só para ficarem magras. Ou musculosas, sei lá. Mas não é pela saúde. Fazem para ficarem mais bonitas. Está certo, elas não chegam e falam para todo mundo: "- Olha, eu estou aqui fazendo esporte só para ficar bonita". Elas falam que fazem esporte para ter uma vida mais saudável. Uma vida menos sedentária.

Mas o que é que esse povo tem contra uma boa vidazinha sedentária? E o que quer dizer, exatamente, sedentária? Bem, o "Aurélio" diz: "sedentário – que está comumente sentado; que anda ou se exercita pouco; que tem habitação fixa". Então, me fala uma coisa. Que mal há em ficar sentado? Hem? E em andar pouco? Se a gente não precisa ir para lugar nenhum, por que diabos ficar parado seria pecado?

E ter habitação fixa? Por um acaso é pecado ter habitação fixa? É outra coisa para a qual fomos criados. Casar, ter filhos e uma habitação fixa. Aí a gente cresce e não pode ter habitação fixa? Tem que trabalhar o dia inteiro e, às seis da tarde, quando chega em casa, ainda sair para dar uma caminhada? Ora, faça-me o favor...

E outra, ainda. A violência. Você já viu como os caras que fazem esportes ficam violentos? Alguns um pouco mais. Outros, um pouco menos. Mas todos violentos. Não vou aqui falar sobre o boxe, que aí já é covardia. Vamos falar, por exemplo, do futebol. De vez em quando eu ia com uns amigos jogar futebol, nos finais de semana. Fomos umas quatro vezes. A quinta vez não houve por absoluta falta de jogadores. Três, contando comigo, estávamos contundidos. Outros dois não conversavam mais um com o outro. Discutiram por causa de um escanteio. Ou um impedimento, não lembro mais. Discutiram feio mesmo. Se não me engano, não se falam até hoje. Agora, vem me falar que esporte aumenta o espírito de companheirismo? Que o esporte revigora a alma? Papo furado. O esporte serve pra tudo, menos pra isso.

Se o esporte serve para alguma coisa, é para não nos matarmos aí, pelas ruas. Nos matamos ali mesmo, dentro de um campo de futebol ou dando raquetadas numa bolinha. Você já viu a cara que o tenista faz quando bate naquela bolinha? Vai falar que ele está cheio de bondade no coração? Que quando ele acerta a bolinha, está tentando elevar o seu espírito? Ora... Pela cara que faz, ele deve é estar conjurando uma maldição sobre a humanidade.

Sei lá. Querem fazer esportes? Façam. Assistir esses jogos pela TV, encher a cara e sair botando fogo na bandeira do adversário? Vão. Podem ir. Eu vou ficar aqui em casa. Comendo amendoins e assistindo "O Mundo Animal", na TV Cultura. E por falar em "Mundo Animal", alguém aí já viu um avestruz fazendo aeróbica? Ou um leão apostando corrida? Alguém, por um acaso, já viu uma foca nadando, se não for atrás de um peixe ou fugindo de um tubarão? Não viu, não é? Não viu porque esses bichos, quando não estão fazendo nada, ficam só por ali, "morgando" e só tomando sol.

Isso quer dizer, meu bem, que o esporte não é uma coisa natural, como querem que acreditemos. O esporte saiu da cabeça do homem e, vou te falar uma coisa. Eu não confio muito nas coisas que saem da cabeça do homem.

A única coisa boa que saiu do homem, saiu de suas costelas. Da cabeça, que eu me lembre, não saiu absolutamente nada que preste.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Túneis escuros e carimbos

28 de setembro de 1999

Têm umas coisas das quais a gente, a princípio, dá risada e depois, com o passar do tempo, começa a levar mais a sério. Acontece a toda hora. Lembro uma vez, numas férias, a gente descendo a serra de Santos. A gente eu digo meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu. Numa DKV. Não sei se vocês se lembram das DKV’s. As DKV’s eram os fuscas da época. Todo mundo tinha. Fez um sucesso danado. Aí, um dia a Volkswagen comprou a fábrica da DKV e parou de fabricar. Foi só aí que o fusquinha pegou mesmo, no Brasil todo. Bom. Estávamos lá, minha família e eu, descendo a Serra de Santos. Tem aqueles túneis, sabe? Faz um barulho esquisito quando a gente entra. E a pressão no ouvido. É tudo muito esquisito lá em cima, na serra. O frio. Tudo.

Aí meu irmão menor, ele tinha uns seis anos na época, falou:

- Ô pai... E se der vontade de fazer xixi dentro do túnel? Onde é que a gente estaciona?

Todo mundo deu risada no carro. Meu pai. Minha mãe. Minha irmã, que já estava com seus doze anos. E eu. Todos rimos do meu irmão caçula. Até entrar no próximo túnel.

Não tinha acostamento. Não sei se hoje em dia já tem, faz tempo que não vou para aquelas bandas. Mas naquele tempo não tinha acostamento. Entramos no túnel e aquele movimento danado. Era feriado e tinha carro subindo a serra e tinha carro descendo a serra. E um baita dum caminhão atrás da gente. Aí eu perguntei para o meu pai:

- É, pai. E se o carro quebra aqui, no meio do túnel, bem na frente desse caminhão? Pra onde que o caminhão desvia se não tem acostamento?

Dessa vez só meu pai riu. Ainda dentro do túnel, minha mãe e minha irmã olharam para trás e viram os faróis do caminhão, bem colados na traseira da DKV. Saímos daquele túnel em razoável silêncio. O caminhão, à luz do dia, parecia ainda maior. Acho que descia na "banguela". Não nos ultrapassava, por causa dos carros que vinham subindo a serra, e nem meu pai conseguia se afastar dele, por causa da DKV.

A DKV soltava uma fumaça preta quando a gente acelerava muito. Cheirava óleo queimado. Eu não lembro direito porquê, parece que o motor dela era três tempos ou coisa que o valha. Entramos em outro túnel. Minha irmã, olhando para trás, pediu para o meu pai acelerar. Ninguém mais ria dentro do carro. Me lembro de uma gota de suor escorrendo da testa do meu pai, enquanto ele acompanhava os movimentos do caminhão pelo retrovisor.

Bem. No final não aconteceu nada de mais. Chegamos a salvo nas praias e tivemos umas boas férias. Mas eu aprendi, desde aquela época, que a gente deve levar a sério certos comentários que, a princípio, parecem não ter fundamento ou soar engraçados. Então, eu não ri muito quando um colega do escritório apontou uma notícia do Estadão, de domingo passado.

Tem um grupo em São Paulo chamado Movimento pela Ética na Política de São Paulo que está propondo um Selo de Qualidade para os candidatos a vereador nas próximas eleições. Eles querem, literalmente, carimbar os candidatos que forem aprovados nos seus "testes de qualidade" Entre os itens que serviriam para garantir ao candidato o tal "selo de qualidade" estariam exame dos antecedentes criminais, honestidade e trajetória de serviços prestados à comunidade. Seria uma espécie de ISO 9002 do ser humano.

Certo. A idéia de ver um homem com um carimbo na testa, onde se possa ler claramente "APROVADO" ou não pode parecer engraçada a princípio mas, quando pensamos no grau de hipocrisia a que chegaram certos políticos (e seres humanos em geral), seria até que uma solução muito bem vinda.

Ao menos nos pouparia das decepções e dos constrangimentos aos quais nos vemos submetidos toda vez que um amigo nos pergunta em quem votamos nas eleições passadas. Não precisaríamos mais mentir que votamos em branco, com vergonha dos candidatos que ajudamos a eleger, por exemplo.

Eu proporia até algo mais radical: uma tatuagem.

É mais difícil de falsificar, entende? Porque, com esse povo, é bom não facilitar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desejo de criança

12 de outubro de 1999

O jiló. Eu detestava jiló quando criança. Não apenas detestava. Odiava. Não gostava da cara dele. Aquelas sementinhas. Aquele seu jeito meio verde, meio grudento, que nem quiabo. Mas eu não odiava o quiabo. Odiava o jiló.

Eu sentia o cheiro do jiló de longe. Assim que abria a porta de casa, já sabia que tinha jiló para o almoço. Podia ter o que quer que fosse de mistura que o cheiro do jiló se sobressaía. Mesmo que fosse dobradinha, com aquele cheiro esquisito, mas o cheiro do "bucho" não era nada comparado ao jiló.

Não vou dizer que não comia. Comia. Tive uma educação daquelas às antigas em determinadas áreas. O campo degustativo foi uma delas. Me ensinaram a comer de tudo. Que era pecado não comer alguma coisa enquanto tantos passavam fome. Que se a gente deixasse alguma coisa no prato, podia ia para o inferno. Pra te falar a verdade, houve vezes em que eu imaginava se o inferno seria assim, muito pior que um prato de jiló. Deixava esses pensamentos de lado, por medo de que pensar essas coisas fosse pecado também, mas nunca mais consegui desvincular a imagem do inferno da do jiló. Se existe inferno, muito provavelmente deve haver jiló por lá. Deve ser uma espécie de prato do dia, só que servido todos os dias.

Mas o que não me entrava na cabeça mesmo era a maneira negligente com que os meu pais comiam jiló. Era compreensível que eu, como criança, me visse obrigado a comer jiló. Eu era ali uma espécie de dependente. Vinha escrito, inclusive, na carteirinha do Clube: dependente. Sendo, pois, dependente, nada mais natural que eu fizesse os gostos das pessoas das quais eu dependia. E essas pessoas (meus pais, no caso) queriam que eu comesse jiló. Mas, e os adultos? Não eram eles independentes? Então, porque diabos comiam jiló? Tinham lá toda uma gama de variedades: macarrão, feijoada, a já citada dobradinha. Isso para não falar dos doces, um manjar com ameixas ou aquele pavê de leite condensado com amendoim... Não dava pra entender por que eles escolheriam jiló.

Foi quando imaginei que, muito provavelmente, meus pais também deviam ser dependentes de alguém. Eles não iriam comer jiló assim, à toa. E, para uma criança, acima de seus pais, somente Ele. Isso queria dizer, então, que o jiló não era apenas uma preferência no inferno. O jiló devia ser um prato generalizado no além. Devia ter jiló também...no céu!!!

Foi uma idéia perturbadora. Deus também gostar de jiló era, para mim, uma coisa inconcebível. O jiló, sem sombra de dúvida, deve ter alguma coisa a ver com minha atual descrença em todas as seitas e em deuses em geral. Não dá para acreditar num deus que goste de jiló.

Como toda a criança, eu aguardava ansiosamente por me tornar adulto. Cada criança quer ser adulta por motivos mais ou menos parecidos. Poder mandar nas outras crianças, entrar em filme proibido para menores de dezoito anos, esse tipo de coisa. Eu, particularmente, tinha dois motivos. O primeiro era alcançar a liberdade de ir e vir tirando minha carta de motorista, desejo este compartilhado com a maioria das outras crianças. O outro desejo era nunca mais precisar colocar jiló na minha boca.

Bem. Cá estou eu, adulto, afinal. Quase quarenta anos, mal conseguindo disfarçar um início de calvície. Tirei carta de motorista sim, mas ela pouco me adiantou nos meus sonhos de liberdade. E o jiló... Bem, pra te falar a verdade, com o passar dos anos, meio que me esqueci dele. Seu gosto já não me parece tão amargo, nas vezes em que o como. A senhora que trabalha lá em casa, às vezes, faz uma espécie de mexido com jiló e ovos que pode não ser nenhum manjar de ameixa, mas até que não é de todo mal. Me lembro, inclusive, de ter repetido o prato, da última vez que ela fez.

É uma danada de vida, essa. A gente acaba se acostumando com tudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O 6.000.000.000º habitante da Terra

14 de outubro de 1999

- Você viu? Nasceu o sexabilio...hexamilioná... nésimo... ahn... nasceu o habitante de número 6 bilhões da Terra...Você viu?

- O bebê 6 bilhões? Vi sim... Mas...se não fosse pedir muito, dava pra tirar o cotovelo da minha pizza? Obrigado. Então, foi na terça-feira, não foi? Nasceu na Bósnia. Mas, desde terça, já deve ter nascido mais um bocado de bebê...

- É... Mais uns milhões, pelo menos... Olha, por favor, se não for incomodar, não dá pra você responder virado pra lá? Você está cuspindo no meu olho quando fala...

- Desculpa, desculpa... É esse pessoal, que não pára de empurrar...Então, voltando ao assunto, eu fico pensando se vai dar pra sustentar esse povo todo...

- É... É um bocado de gente pra comer... Só que eu acho que o problema não é que tem muita gente. O problema é a divisão de renda. Você sabia, por exemplo, que a fortuna das três pessoas mais ricas do mundo é maior que o PIB dos 48 países mais pobres juntos?

- Mentira...

- Tá me chamando de mentiroso? – respondeu, se levantando. O movimento brusco empurrou três rapazes que estavam atrás dele. Só não caíram no chão porque se escoraram nas quatro moças que tomavam seus Milk Shake na outra mesa. Os Milk Shake, no entanto, se espatifaram no chão.

- Eu não estou te chamando de mentiroso... É só uma maneira de dizer... É que a informação é quase inacreditável...

- Ah, bom... Porque ninguém me chama de mentiroso assim, sem troco...

- Certo, certo... Pode acalmar... Ninguém te chamou de mentiroso. Pode sentar e se acalmar...

O amigo, nervoso, tentou se sentar. Mas havia uma perna em cima da sua cadeira. Ele procurou o dono da perna, mas não dava para distinguir ninguém, no meio da multidão. Segurou a perna e empurrou com força. Houve apenas um pequeno tumulto, mas a perna não saiu. Olhou a perna. Vestia uma meia estampada com carinhas do Mickey. Colocou as mãos em torno da boca e gritou para o alto:

- O DONO DESSE PÉ USANDO UMA MEIA DO MICKEY... DÁ PRA TIRAR DA MINHA CADEIRA?

Funcionou. Parece que o dono ouviu e puxou a perna. Ele ainda olhou para a multidão, tentando identificar o folgado, mas só conseguiu ouvir um "- Desculpa aí, meu chapa!". Não respondeu e se sentou rapidamente, aproveitando a brecha.

- Do que é que estávamos falando mesmo?

- Do sexebilioné... hexa...bilonésimo...Do bebê número 6 bilhões.

- Ah, é. E da divisão de renda. Então. Com essa concentração de renda, é que não vai dar pra sustentar todo mundo mesmo... Olha outro exemplo: enquanto uns caras ganham fortunas por aí, nas nações do Hemisfério Sul 1,3 bilhão de seres humanos vivem com menos de um dólar por dia.

- Um bilhão e trezentos mil pessoas vivem com um dólar por dia?

- É... Por quê? Não acredita?

- Acredito, acredito...

- Então. Agora, com esse tanto de gente nascendo todo dia, a coisa só tende a piorar...

- A sua pizza...

- O que é que tem a minha pizza?

- Se der pra tirar ela do meu pescoço, eu agradeço...

- Ô, meu...desculpa aí...

- Não é nada não... Vai puxando... Com cuidado agora... Cuidado!

- Ops...

- Tudo bem, tudo bem... Eu até que gosto de azeitona...

- Então... Do que é que a gente falava mesmo?

- O sexagés...bilionés... O nenê. Seis bilhões e tal...

- Ah é... Seis bilhões de habitantes...Não dá pra acreditar, né?

- Não. Não dá pra acreditar...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Talidomida

16 de outubro de 1999

Uma vez, quando eu tinha uns dez anos, nem isso acho, fui numa festa com meu pai. Era no sindicato dos professores de Campinas, uma festa de confraternização de final de ano. Meu pai levou minha mãe, meus irmãos e eu. Estavam lá os colegas dele, todos com suas respectivas esposas e filhos.

Os pais têm mania de empurrar seus filhos pra cima das outras crianças. Tentam se desvencilhar deles, presumo. Então, na festa, meu pai ficava me apresentando para os filhos dos colegas dele e a gente tinha que dar as mãos. Era extremamente constrangedor dar a mão para aquelas crianças que eu nunca tinha visto na vida. O "dar as mãos" é um gesto feito para adultos. Não existe no mundo criança que goste de dar as mãos. Um tchauzinho de longe já cumpre muito bem o seu papel, mas os pais ficam falando " – Dá a mão pro seu amiguinho, querido, larga de ser bicho do mato..." e as crianças acabam se cumprimentando. Aí elas olham pra lá, olham pra cá e acabam limpando a mão na calça ou na camisa. Pode reparar, é que nem beijo de tia. As crianças limpam.

Bem, a festa ia rolando, e meu pai apresentando meus irmãos e eu pra todo moleque que ele via pela frente. E a gente dando a mão pra todo um mundo. Até que aconteceu.

Não sei se você já ouviu falar nas vítimas da Talidomida. Se não ouviu, é bom prestar atenção, pra ver se fica um pouco mais desconfiado das "verdades" que tentam te empurrar goela abaixo. Entre 1957 e 1962, foi lançado um remédio no Brasil. No Brasil e no resto do mundo. A Talidomida. Era vendido como tranquilizante, ou algo assim. Tinham feito todos os tipos de testes. Um remédio aprovadíssimo por todos os órgãos de medicina, com propaganda em revistas, jornais e o escambal. Bom. O que aconteceu foi o seguinte. Começaram a nascer crianças sem braços e sem pernas. É, crianças normais, com cérebro normal. Só que umas nasciam sem braço. Outras, sem pernas Um monte delas. Ninguém sabia porquê. Foram ver, era a tal da Talidomida. As mulheres grávidas não podiam tomar o tal remédio. Ninguém sabia disso, na época. Até descobrirem o que era que estava causando tudo aquilo, já tinham nascido 15.000 crianças com problemas. Hoje em dia não se vê mais essas crianças por aí, por que a Talidomida foi proibida em 1961, mas na minha época era mais ou menos comum encontrá-las.

Bem, o meu pai me apresentou a uma delas, na tal festa de fim de ano. E eu estendi a mão. Me lembro dela (era uma menina) me olhando. E eu ali, com minha mão estendida. Meus olhos fixos nos seus ombros. Não tinha os braços. Só as mãos ali, grudadinhas no ombro. Passei algumas noites olhando para o teto do meu quarto, me prometendo que nunca mais ia dar a mão para ninguém. Lembro também de ter perguntado para o meu pai por quê ela era daquele jeito. E dele me explicar que foi um engano dos médicos e das farmácias.Não sei o que aconteceu com aquela menina. Queria saber. Vou perguntar para o meu pai, da próxima vez que o ver.

Sei que, daquilo tudo, o que me marcou mesmo foi que a gente deve ser muito desconfiado. De tudo. Tem que desconfiar do farmacêutico quando ele tenta empurrar aquele remédio que não vende. Do gerente do banco, que acha essa ou aquela a melhor aplicação do mundo. Até mesmo do padre ou pastor, que tenta te vender o paraíso. Desconfie. As pessoas não tem certeza de quase nada. Agora mesmo, por exemplo, estão lançando os remédios genéricos. Vão ser muito mais baratos. Vão ajudar os mais carentes.

Tá bom. Mas eu só falo uma coisa. Lembra que, não faz muito tempo, um monte de mulheres estavam tomando farinha achando que era anticoncepcional? Foi agora esses dias, ano passado ou retrasado eu acho. Eu não estou falando para você não tomar os tais genéricos nem nada. Só estou falando para você aprender a ser mais desconfiado.

Eu também queria que papai-noel existisse. Quem é que não queria? Não existe, fazer o quê? E olha que quem te falou que papai-noel existia eram as pessoas mais confiáveis do mundo: seus próprios pais.

Agora, se até seus pais mentem descaradamente para você, imagina só os outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hasta la vista, baby

19 de outubro de 1999

Outro dia desses, uns amigos e eu estávamos tentando nos lembrar de quantas moedas a gente já tinha visto nascer e morrer nesse país. Quando eu falo "moedas" estou querendo dizer o nome do dinheiro, entende? Por exemplo, agora é Real. Mas eu erro toda hora. Volta e meia ainda falo "cruzeiro". Meu pai, então, até hoje fala "conto". Eu até que gosto de "conto". É uma moeda flexível. Serve num monte de casos.

- Quanto custa esse carro?

- Vinte conto.

Todo mundo sabe que o vendedor do carro estava se referindo a vinte mil reais, não sabe?

- Quanto custa esse livro?

- Vinte conto.

Vinte reais, certo? A gente sabe que um livro não vai custar vinte mil reais. Não que livro no Brasil seja barato, mas vinte mil reais também já é demais.

- Em quanto está acumulada a Megasena?

- Vinte conto.

Quem não entende que é vinte milhões? A Megasena não vai acumular em vinte mil reais, certo? Muito menos em vinte reais. São umas coisas que simplificam. A gente não precisa ficar lembrando a toda hora o nome do dinheiro. Fala "conto" e pronto. Pode usar "paus" também. Vinte paus. Trinta paus.

Essa molecada de agora pode até achar que eu estou exagerando, mas quem está aí na faixa dos quarenta sabe do que eu estou falando. Era cruzeiro. Virou cruzeiro novo. Cruzado. Cruzado novo. Cruzeiro de novo. Teve mais alguns, é que eu não estou com vontade de procurar agora. Teve até um Cruzeiro Real, não teve? Uma balbúrdia. Tinha dia que a gente olhava para as notas e elas estavam carimbadas. É, não dava tempo deles imprimirem o novo dinheiro, então carimbavam o valor novo por cima da nota velha. Você pegava uma nota e estava lá, impresso: 20.0000 cruzeiros. Aí tinha um carimbo em cima, dizendo que não, aquela nota não valia 20.000 cruzeiros. Valia 20 cruzeiros novos. Ou reais ou sei lá.

Perdoem-me a palavra, mas a história da moeda brasileira é uma verdadeira zona.

Está certo. As coisas melhoraram um pouco, de uns tempos para cá. Mas eu ainda estou meio traumatizado. Volta e meia, me esqueço do diabo do nome da moeda do meu país o que, convenhamos, é um absurdo. É por isso que eu não acho tão errado quando ouço falar que, na Argentina, estão querendo adotar o Dólar Americano como a moeda oficial. E olha que lá, se não me falha a memória, a moeda sempre se chamou Peso. Mas essa não é uma informação confiável porque, se nem das moedas do Brasil eu estou conseguindo me lembrar direito, você não vai querer agora que eu me lembre também das moedas da Argentina, vai?

Sei que eu não ficaria nem um pouco traumatizado se substituíssem o Real pelo Dólar americano como nossa moeda oficial. Nem um pouco, pra te falar a verdade. Ficaria traumatizado, por exemplo, se quisessem trocar a bandeira brasileira. Com a bandeira a gente já se acostumou. Já faz tempo que é a mesma. Desde que eu nasci, pelo menos, é uma estrela a mais aqui, uma estrela a menos ali, mas o retângulo verde, o losango amarelo e o círculo azul sempre se mantiveram ali, firmes. Agora, e a moeda? Eu não morro de amores pela moeda. Não se hasteia uma nota de cem reais quando nossos atletas sobem em pódiuns nem quando a seleção de futebol vai jogar. A moeda não é símbolo de droga nenhuma. Se é símbolo de alguma coisa, é símbolo da zona que reina nesse país, onde se cultua mais as nádegas que os próprios cérebros.

Esse tal de Real já está aí há um bocado de tempo. Antes que nos apeguemos demais a ele, devíamos era combinar com a Argentina e trocar o Peso e o Real pelo dólar americano. Juntos. Porque eu te falo uma coisa. Os argentinos já têm aquele ar meio superior pra cima de nós, brasileiros. Se eles tiverem o dólar como moeda oficial então, aí é que ninguém mais vai aguentar...

É coisa que pode acabar em guerra, percebe?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mora na filosofia

21 de outubro de 1999

Esses tempos atrás, eu estava lendo um livro de filosofia. É, filosofia, sim. Também não sei o que é que me deu... De repente eu desliguei a televisão, escolhi um livro na estante e comecei a ler filosofia. Não foi nada planejado. Quando dei por mim, já estava lendo. Bom. De alguns nomes eu já tinha ouvido falar. Platão. Aristóteles. Não que eu entendesse alguma coisa do que eles estavam falando mas, pelo menos, os nomes já eram conhecidos. Foi quando topei com um capítulo de nome "O Infinito". E uma coisa me deixou encafifado.

Vou tentar explicar mais ou menos rápido, para não encher muito a paciência de vocês. Pense comigo. Um atleta corre no dobro da velocidade que uma tartaruga corre. O atleta e a tartaruga vão disputar uma corrida. O atleta, sabendo que ganharia facilmente, resolve dar dez metros de vantagem para a tartaruga. Os dois se colocam na pista e alguém dá a partida. O atleta parte, então, dez metros atrás da tartaruga.

Agora vem a parte chata. Vamos ter que fazer umas contas. Bom, o atleta corre dez metros. Está no lugar em que a tartaruga estava quando começou a corrida. A tartaruga, como corre na metade da velocidade do atleta, correu apenas cinco metros. Está, então, cinco metros na frente do atleta, certo? Aí o atleta corre mais cinco metros. Está novamente onde a tartaruga estava há poucos momentos mas, a tartaruga já correu mais 2,5 metros. Até o momento a nossa tartaruga continua na frente do atleta exatos 2,5 metros. Aí, nosso atleta corre os 2,5 metros para tentar alcançar a tartaruga, mas não consegue porque a tartaruga já correu a sua metade, que é 1,25 metros. O atleta, inconformado, corre o 1,25 metro que o separa da tartaruga. A tartaruga, porém, corre a sua metade, que é 0,625 m. O atleta desespera-se e corre o 0,625 m. Não a alcança novamente, pois ela já percorreu a metade do que ele correu, que é 0,3125 m.

Não sei se você percebeu, mas o atleta nunca vai alcançar a tartaruga. Porque a tartaruga sempre vai ter corrido na frente dele a metade do que ele correu. Se você pegar uma calculadora vai ver que a coisa vai indo até dar uma daquelas dízimas periódicas. A conta nunca termina.

Bem. Fiquei fazendo essas contas por um bom tempo sozinho, aí ontem resolvi falar para a minha mulher e minha filha. Estávamos almoçando e eu comecei:

- Olha. Eu queria que vocês duas prestassem atenção no que eu vou falar...

Aí eu contei a história do atleta e da tartaruga para elas. Tim-tim por tim-tim, como acabei de contar para vocês. E elas começaram a rir da minha cara. Que eu estava ficando louco; que quando eu mandei prestar atenção elas acharam que era alguma coisa importante. Eu sinceramente não sei do que é que elas riram tanto. Eu tinha acabado de provar ali, em menos de cinco minutos, que a matemática estava errada. Provei por A mais B que, mesmo alguém correndo no dobro da velocidade do outro, assim mesmo nunca na vida vai conseguir alcançar o mais vagaroso. E elas riram na minha cara.

Então eu já não sei o que é importante nessa droga de vida mesmo.

Agora, se você também está aí, rindo na minha cara, fica sabendo que essa história não saiu da minha cabeça não. Essa história é de um grande filósofo chamado Zenão, de Eléia, que viveu no século V a.C. E essa historinha da tartaruga e do atleta é conhecida entre os grandes filósofos pelo nome de "Segundo Paradoxo de Zenão". Pode procurar em qualquer livro de filosofia que você acha. E, o que é mais impressionante: não explicam qual é o "primeiro paradoxo" . É, porque, se houve o "Segundo Paradoxo de Zenão", deve ter havido um "Primeiro Paradoxo de Zenão". Ou, sei lá...Vai ver o tal do Zenão resolveu começar é pelo segundo mesmo.

Pra te falar a verdade, eu acho que esse cara estava é se lixando para a matemática.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuspir para cima

14 de dezembro de 1999

Tenho um grande amigo (talvez o único) que gosta de levar seu filho até o aeroporto, para ver os aviões. Às vezes ele deixa lá, seu posto de trabalho, em plena quarta-feira à tarde, pega o seu filho e vai até o aeroporto, apenas para ver os aviões decolarem e pousarem.

Eu nunca lhe disse, mas esse era um ritual que minha família cumpria também, lá em Campinas, há milhares de anos atrás. Não nas tardes de quarta-feira, dia e horário impossíveis para o meu pai, professor de segundo grau, mas em alguns finais de semana.

A coisa toda era marcada com antecedência. Lá pela quinta-feira à noite, meu pai interrompia algum programa da TV e, assim como não quer nada, perguntava:

- Que tal se, nesse domingo, a gente fosse até Viracopos?

Meus irmãos e eu levantávamos num salto, todos gritando – vamos, vamos – e rodeávamos minha mãe, que era sempre quem dava a última palavra. Não me lembro de nenhuma vez que ela tenha recusado, mas o sim dela era esperado com grande expectativa. Ela olhava em volta, fingindo-se pensativa. Nós, as crianças, olhares aflitos. Até que, enfim, ela decretava:

- Tá bom. Vamos.

Meus irmãos e eu nos abraçávamos e pulávamos e gritávamos, numa explosão só contida pelas palavras do meu pai:

- Agora calma, molecada. Se não se comportar direito, ninguém vai a aeroporto nenhum.

Também não me lembro de que algum comportamento nosso tenha feito com que meu pai, por castigo, desmarcasse o programa, mas calávamo-nos imediatamente. Voltávamos para a frente da TV, mal contendo nossos corações dentro das respectivas caixas torácicas.

No domingo, quando acordávamos, já estava tudo mais ou menos preparado. Minha mãe com uma grande cesta de vime muito bonita, com tampas e detalhes bordados. Parecia uma daquelas cestas de piquenique usadas por nobres ingleses, nos filmes americanos. Cheia de bolos, frutas e queijos.

Ficávamos no terraço do aeroporto, onde havia bancos de madeira e, se não me falha a memória, pequenas mesas de cimento, onde os casais de namorados e as famílias estendiam toalhas de estampa xadrez cobertas por bolachas, sanduíches e garrafas térmicas com café ou suco.

Mas as estrelas da festa eram mesmo os aviões. Alguém sempre comentava a respeito do tamanho deles, que não imaginava como eram tão grandes. E realmente, mesmo para nós, que tantas vezes já tínhamos visto, os aviões pareciam desproporcionalmente grandes para um objeto que pretendia voar. Mas voavam.

O subir e descer dos aviões, no entanto, não era tão comum assim. Na maioria das vezes os aviões ficavam por ali mesmo, no chão. Os pousos e decolagens eram raros e, talvez por isso mesmo, mais mágicos. O avião vinha lá de trás de onde estávamos. O barulho, ensurdecedor, encobria nossos gritos de satisfação. Aquelas máquinas, algumas do tamanho de um quarteirão, passavam a vinte, trinta metros de nossas cabeças. Os olhares vidrados. Voavam!

Depois do pouso, e já de volta aos nossos lanches, ficávamos observando os passageiros descerem pela escada. Os homens de terno. As mulheres, parecendo saídas de um baile, mais intocáveis que os próprios aviões. Minha mãe se debruçava do terraço e comentava a respeito dos vestidos delas. E dos penteados. E das jóias. Como ela conseguia ver as jóias daquela distância, era um mistério. Deviam ser bem grandes.

Com muita sorte, ainda veríamos mais uma decolagem ou outro pouso, mas normalmente minha mãe já começava a juntar as coisas e, logo depois, partíamos. A volta era um sem número de perguntas sobre se foi mesmo um brasileiro quem inventou o avião; se a gente nunca ia voar em um; quanto custava uma passagem e outras coisas que sempre eram perguntadas e respondidas mais ou menos com as mesmas palavras. Chegávamos em casa exaustos e, nem bem a TV era ligada, meus irmãos e eu dormíamos como pedras.

Eu já era razoavelmente adulto quando li pelos jornais que, a pedido dos passageiros, iriam retirar os bancos e as mesinhas do terraço do Aeroporto de Viracopos. Ao que parece, os passageiros se sentiam incomodados pelos olhares vulgares dos visitantes e alguns, inclusive, diziam ter sido alvo de objetos e de cusparadas, disparadas de cima do terraço. Nunca mais li nada a respeito e tampouco voltei ao aeroporto, mas imagino que a reforma tenha sido levada a cabo e o terraço, como eu o conheci, já não exista mais.

Nada contra, nada a favor. Mas me permito arriscar um conselho ao meu querido amigo, que tem levado o seu filho ao aeroporto de Votuporanga: se você pretende continuar com seu programa de quarta-feira à tarde, não olhe muito para os passageiros. Além de ser extremamente vulgar, eles não gostam.

Cuspir então, nem pensar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cheiro do ano 2000

30 de dezembro de 1999

Eu não sei de vocês, mas faz uns dias que eu estou andando na pontinha dos pés.

Há vinte anos atrás, eu achava que o ano 2000 era ficção. Uma coisa inatingível. Não que eu acreditasse que o mundo fosse acabar, não é bem isso. Eu achava que eu é que não iria durar tanto tempo assim.

Como é que o pessoal falava mesmo? Sexo, drogas e rock’n roll? Então. Eu sou dessa época. Noites e noites sem dormir e aquela farra toda que a gente faz quando tem vinte anos. Sinceramente, nem passava pela minha cabeça que o meu corpo poderia aguentar esse tempo todo.

E, para falar a verdade, quase não aguentou. Tive um piripaque aqui, outro ali. Fui sendo obrigado a largar um monte de coisa pelo caminho. Algumas delas, forçado pelos médicos. Outras, por opção. Hoje em dia, nem me lembro mais do que era rock’n roll. Drogas, nem pensar. Sexo? Bem...você também está querendo saber demais, não está não?

Eu sei que, no fim, acabei chegando ao ano de 1999 com uma saúde até que razoável. Pelo menos, bem melhor do que imaginei que chegaria. E agora faltam só dois dias para o ano 2000. Seria muito azar acontecer alguma coisa, justamente agora.

Não é questão de pessimismo, mas...puxa vida...Uma data dessas aí - já tá dando até para sentir o cheiro - e de repente, por uma bobagenzinha qualquer - PAH - a gente morre.

Então, o negócio é não dar mole para o destino.

Antes de atravessar as ruas, estou olhando muito bem para os dois lados, como ensinaram a gente a fazer quando era criança. Antes de riscar um fósforo para acender o forno do fogão, dou uma boa cheirada antes, para ver se não sinto nenhum resquício de gás.

E estou me locomovendo o menos possível. Estrada? Só se for absolutamente necessário. De vez em quando eu pegava um moto-táxi para ir até o escritório. Mas eu não pego um moto-táxi daqui até o final do ano nem se me pagarem. Não é nada contra os mototaxistas. Até que eu acho que eles dirigem muito bem. O problema é com a motocicleta mesmo. Aquele negócio tem só duas rodas, deus do céu! Para quê que eu vou me arriscar num negócio de duas rodas, se existe um outro de quatro? Não vou.

No Natal, como todo mundo, acabei comendo um pouco mais que o normal. À noite, comecei a sentir uma pontadas no peito. Um enfarte! Acordei minha mulher na madrugada:

- Amor! Acorda! Estou tendo um enfarte!

- O quê?

- Um enfarte! Uma dor aqui, que vem subindo, subindo. Estou morrendo! Não vou ver o ano 2000!

Umas duas horas depois, eu já dormia aliviado. Se você tiver problemas de gazes durante o réveillon, minha mulher tem uma receita de um cházinho que é tiro e queda. Precisa ver só.

Mas minha preocupações com o coração ainda não tinham terminado. Eu, agora, ando encafifado com os chuveiros. Eu já ouvi falar de sujeitos que morreram ali, durante o banho. Estavam na boa, tomando uma duchinha, de repente acharam que a água estava muito quente, ou muito fria. Foram mexer lá, nos controles e – BZZZZ – um tremendo choque. Quase sempre o coração pára. Encontram o sujeito pelado, estendido no chão.

Passei um mês tomando banho só de chinelo Havaiana. Dizem que a borracha é isolante. Mas, outro dia desses, um amigo me disse que não adianta nada, porque o pé da gente está molhado. O chinelo está molhado. Se for para tomar choque, toma com ou sem Havaiana.

Então eu resolvi radicalizar. Mesmo correndo o risco de ninguém querer me abraçar no réveillon, eu não tomo banho desde a semana passada. E vou ficar assim até ouvir os rojões do ano dois mil.

Um perfuminho aqui, um desodorantezinho ali, e a gente vai levando.

Mas que eu vou ver o ano dois mil, eu vou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MINI CONTOS

 

Realidade

Jurava que não. Os outros sabiam que ele jurava em falso. Tinham até filmado. Ele assistia ao filme, respondia "sim" quando lhe perguntavam se era ele mesmo ali, no filme. Mas quando perguntavam se ele havia feito aquilo, respondia que não. Jamais faria aquilo. Na vida. Os outros tentavam argumentar. Insistiam em perguntar se era realmente ele ali, na tela da TV. Ele respondia que era. - Mas você está fazendo isso, não está? Ali no filme estava. Mas não tinha sido ele. Ele jurava. Fizeram testes psicológicos, ultrasonografias, raios x, passou pela máquina da verdade. Ele era normal. E não havia feito aquilo. Embora estivesse tudo ali, no filme.

 

Missa

As crianças começaram a sair, uma a uma. Lá dentro, o calor. Os homens começavam a passar o dedo entre a gola da camisa e o pescoço. Abafado. As crianças se levantando e saindo. As mulheres tentavam disfarçar a maquiagem borrada: debaixo dos olhos formavam-se olheiras, como quando choravam. As testas brilhavam com o suor. O padre não parecia disposto a adiantar a cerimônia. A voz compassada, naquele sotaque que não se sabe de onde vem. As crianças saindo, os pais não opunham resistência.

As crianças, como os ratos, abandonam os barcos quando prevêem grandes tragédias.

 

Salvar como?

Lá vinha ela, com a flanela e o litro de álcool. Todos os dias, na hora do almoço, quando os funcionários saíam, ela pegava o paninho e o álcool e vinha passando nas mesas e nos computadores. Tirando o pó. Naquele dia alguém deixou um documento aberto num computador. Quando ela passou o pano, sem querer deu um "click" no mouse. De repente apareceu na tela um quadradinho desenhado, escrito uma porção de coisas como abrir, salvar, salvar como, enviar para...umas coisas assim. E ela achou que tinha estragado tudo o que o outro estava fazendo.

Quando voltaram do almoço, encontraram ela deitada no chão. O litro de álcool pela metade. Ela cambaleou e se ajoelhou aos pés do primeiro que entrou na sala.

- Foi sem querer...Eu juro...- ela falava, com aquele hálito de 92 graus.

 

Dava para pegar o ar

Já ouviu essa expressão? Em algum lugar? Ou então "Dava para cortar a neblina com uma faca". Era assim, não era? Quando a neblina estava muito espessa na serra, indo para a praia.

Pois ali, na reunião, não precisava nem da neblina. A tensão estava por ali, flutuando. As pessoas se escondiam atrás dela, para fugir do olhar dos outros. O ar, transparente mas visível. E pesado. Dava para pegar, eu juro.

Você não acredita? Pois eu guardei aqui, num vidrinho. Dá aqui, uma olhada. Guardei até hoje por que achei mesmo que ninguém ia acreditar. Sentiu o peso? E tá vendo ali, no fundo do vidrinho? É o ar daquele dia, da reunião. Falei que dava para ver, não falei?

 

 

Gerolyne

Sempre, quando dizia seu nome, tinha que ouvir:

- Gero...o quê?

Gerolyne, com ipisilom. Parecia nome de sabonete. Gerolyne. Não sabia de onde sua mãe tinha tirado aquilo. Nem seu pai. Não tinha conhecido os dois. Não que tivessem feito falta. A avó cuidou como se fosse filha. Pena que a avó também morreu logo.

Casou cedo, aos quinze anos. Ficou apaixonada pelo mecânico que só a chamava de Gerô. Achava lindo: Gerô. Queria poder assinar assim. Um dia, o marido resolveu que ia fazer a felicidade da esposa.

- Quer trocar de nome? Troca. Pode ir que eu tenho uma grana sobrando. Presente de dez anos de casamento.

O melhor presente do mundo. Foi no cartório. Ia ficar caro.

- Dinheiro não é problema. Só quero mudar de nome.

Agora chamava Gerô. E assinava Gerô. As pessoas ainda perguntavam:

- Gê...o quê?

E ela respondia:

- Gerô. Com circunflexo.

Feliz da vida.

As duas da cidade

Aí as duas entraram. Uma espécie de eletricidade percorreu o ambiente. Não todo o ambiente. O ambiente masculino. Aquele que vivia rindo, falando alto e mexendo com todo mundo, de repente ficou sério. Sua voz parecia até um pouco mais grossa. O outro que já era um pouco mais compenetrado, que quase nunca participava das brincadeiras, começou a contar piadinhas e gesticular. O guardinha ficou vermelho. As bochechas pareciam manchadas de mertiolato. As duas riam e contavam de como era a vida lá em São Paulo. De como iam nas boates e nos Shoppings nos finais de semana.

 

Rindo do quê?

- A mãe quer ir no cemitério. Ver o pai, a tia. Quer que a gente vá.

- Mas bem hoje? Hoje é feriado... Por que ela não escolhe outro dia?

- Por que hoje é dia de finados. É por isso que é feriado, sabia?

- ... eu passo aí ou você passa aqui?

Primeiro o túmulo do pai. Depois, o daquela tia que morava em São Paulo mas que quis ser enterrada aqui. Daquele tio que eles não conheceram, mas que era italiano, de lá mesmo. Daquela menininha que, dizem, faz milagres, cheio de velas. Túmulo do pai de novo, para rezar um pai nosso. Os dois irmãos tentam não se olhar, para não começar a rir. Desde crianças não podiam se olhar quando iam para o cemitério. Caíam na risada. No meio do pai-nosso, os olhares se cruzaram.

Não riram.

Acho que não dá muita vontade de rir no cemitério depois que a gente faz quarenta anos.

 

A única que viu

Mas é besta mesmo. Só porque acha que sabe mais que a gente. Vocês não estão vendo o tamanho da arrogância dele? Só eu? Ele está tentando nos humilhar. E vocês aí, deslumbrados com ele. Tudo que ele fala, cada gesto, cada olhar. É pensado. É tentando nos humilhar. Por que é que vocês acham que ele cita tantos livros? Para a gente aprender com ele? Mas como vocês são ingênuos, meu deus... Ele só está dizendo que é muito melhor que a gente. Eu quero mais é que se foda ele e esses livros. Quem quer saber o que um bando de demente fez em 1922, deus do céu? Quem? Ou o que uma droga de um francês acha sobre o ser humano? Ninguém quer saber. Esse cara só fala para dizer que sabe mais que a gente. E vocês aí, babando. Será que só eu estou vendo isso, deus do céu?