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Sai pra lá, urubu

Artur de Carvalho

 

Você conhece os urubus. É só você puxar pela memória que vai se lembrar de um. Não. Eu não estou falando das aves urubus. As aves são até que muito bacanas, perto dos urubus aos quais estou me referindo. As aves urubus têm um dos vôos mais bonitos entre todas as aves que eu conheço. Até mesmo mais bonito que o vôo da pomba. A pomba, apesar desse negócio todo em torno dela, de ser símbolo da paz e todas essas coisas, ela voa totalmente desajeitada. Suas asas meio curtas fazem ela voar meio que desesperada como se, de uma hora para outra, ela fosse despencar lá de cima, exausta. Mas o urubu não. Ele tem um vôo elegante, calmo. Só bate as asas quando é estritamente necessário, usando das correntes de ar quente para se manter lá no alto. Então, eu não tenho nada contra as aves urubus.

Os urubus dos quais eu estou falando são aqueles caras que, como os urubus aves, não podem sentir o cheiro de carniça que ficam todos alvoroçados, imaginando que, da desgraça dos outros, pode sempre sobrar algum para eles. Eles surgem quando tem um desastre de carro, por exemplo. Se possível, com vítimas. Sabe-se lá de onde aparecem, ou o que é que fazem para ganhar a vida, porque, eles ficam ali, sem pressa de ir embora, olhando por cima do ombro do cara da frente, provavelmente procurando alguma maleta caída no chão. Outras vezes, esses urubus aparecem no hospital, dizendo que um conhecido dele morreu justamente da doença da qual você veio se tratar. Mas que não é para se preocupar, porque o conhecido dele ainda durou muitos anos depois de entrar para a igreja Messiânica das Causas Milagrosas, da qual, evidentemente, ele faz parte.

E tem urubu para tudo que é lado. Na política então, nem se fale. Olha só esse negócio que está rolando aí, com o presidente do senado, o José Sarney. O José Sarney, como se sabe, é um dos últimos coronéis do Brasil, e está acostumado a fazer o que bem entende sem ninguém com coragem suficiente para enfrentá-lo. Mas agora, já meio velhinho, ele se atrapalhou todo quando a imprensa descobriu que seu neto é dono de uma empresa que negocia empréstimos consignados com funcionários do Senado, e que vários parentes seus foram empregados por meio de atos secretos. E aí aparecem os outros políticos, todos santinhos, dizendo que isso é inadmissível, que o Sarney tem que sair, que isso depõe contra a democracia. E que está na hora da política brasileira se renovar.

Então .

 

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