Oh olhos
perdidos no horizonte
Artur de
Carvalho
Tem aquelas coisas que acontecem com a gente e que
a gente nunca mais esquece. No entanto, as pessoas envolvidas com o
acontecimento nunca se lembram que a coisa realmente aconteceu do jeito que a
gente conta. Especialmente quando faz muito tempo, e as lembranças se misturam
com as nossas fantasias de criança ou de adolescente. Por exemplo. Eu tenho
certeza absoluta que, uma vez, quando eu tinha aí os meus sete ou oito anos, eu
vi a minha mãe se encostando na janela do apartamento que
a gente morava, dando um suspiro, com o olhar perdido no horizonte. Como quem
não quer nada, eu fui me encostando nas pernas dela, me
aconchegando, e ela acabou me pegando no colo. E aí ela suspirou de novo, olhou
para mim, e disse:
- Não seria muito legal mesmo se a gente fosse feiticeiro, que nem a Samantha e a
filhinha dela?
Minha mãe estava se referindo, evidentemente, à
série “A Feiticeira”, que a gente tinha acabado de assistir na TV. Mas ela
continuou.
- Ou então se a gente ainda vivesse naquele tempo
de reis, de princesas, de príncipes e de dragões?
Ela olhou pela janela de novo, com um olhar triste
como eu nunca tinha visto na minha mãe. Mas, mesmo assim, eu não quis deixar o
momento morrer.
- Ou que a gente pudesse voar, que nem o
Super-Homem, né mãe?
Imediatamente, minha mãe olhou para baixo e me
tirou de perto da janela, quebrando aquele momento mágico que eu nunca mais
consegui esquecer. Só que aí, outro dia desses, eu fui perguntar para ela se
ela lembrava daquele dia. E ela disse que aquilo nunca tinha acontecido. Que
ela sempre tinha sido muito pé no chão.
- Como nunca aconteceu, mãe? Eu lembro disso como
se fosse hoje! Aliás, acho que aquele momento marcou tanto a minha vida que eu
posso dizer, com toda a certeza, que eu só sou o homem que sou hoje por causa
daquele dia. Desde aquele dia eu descobri que o ser humano tem que sonhar. Tem
que criar fantasias, e não apenas para ele mesmo, mas para os outros. Foi
daquele momento em diante que eu comecei a me interessar em ler, e que eu
comecei a escrever! E agora a senhora vem me dizer que aquele momento nunca
aconteceu?
- Pois não aconteceu - ela disse.
Aí, depois disso, ela me deu um beijo, andou
alguns passos até a janela, e deixou seus olhos pousarem no horizonte, igualzinho
àquele outro dia. Para ser sincero, eu acho que ela deixou até escapar uma
lágrima.
- Deixei nada, menino!