Ninguém é anjo
Artur de Carvalho
Sempre
quando a gente imagina um ser humano bom, desprovido
de maldade, rancores e hipocrisias, o que nos vem à mente é um índio ou uma
criança. Se possível, uma criancinha índia.
No
caso dos índios, é sempre aquele papo de que eles vivem mais em harmonia com a
natureza, respeitam os animais, são sinceros e puros em sua nudez e tudo o
mais. Bem, para mim, só fala isso quem não entende nada de índio. Não que eu
entenda tanto assim também, mas eu sei muito bem que, bem antes do homem branco
chegar por aqui com toda sua impureza, sua cobiça, suas doenças e guerras, o
índio já fazia muita porcaria. Aliás, a guerra tinha muita importância para os
povos indígenas, e algumas tribos chegavam a exterminar umas às outras. As
guerras ocorriam para vingar parentes mortos, conquistar terras mais
produtivas, espantar maus espíritos. Tudo igualzinho a nós. Pois a Guerra do
Iraque não foi uma espécie de vingança e, de lambuja, para arranjar uma terras mais produtivas em petróleo? E o terrorismo do Islã,
não é uma espécie de guerra religiosa, tentando espantar maus espíritos? E,
para piorar a coisa para o lado dos índios, alguns povos praticavam a
antropofagia, pois acreditavam que, devorando o prisioneiro, incorporavam suas
virtudes. Quer dizer, o índio, além de vingativo, ganancioso e extremamente
supersticioso, ainda era antropófago. E onde é que esses estudiosos vêem pureza
e sensibilidade nos índios? Os índios são o que são, oras,
nem melhores nem piores que você ou eu.
Bem,
sobram-nos as criancinhas. Ah, as
criancinhas. Elas sim, são a personificação do
angelical, o último reduto da alma pura e ingênua. Pois são
o escambal. Eu gostaria que você, em vez de ficar
assistindo televisão, observasse melhor seus filhos (ou sobrinhos, ou netos, ou sejam lá o que forem aquelas criancinhas que sobraram
para você ficar tomando conta). Pois as criancinhas passam a maior parte do
tempo tentando ser melhores que as outras, seja nos jogos de pega-pega, seja
nos videogames. Ou isso, ou então partem para o pau mesmo, rolando pelo chão agarradas
aos cabelos umas das outras. E vai uma prima tentar brincar com o brinquedo do
primo para você ver só o rolo que dá. O que mais se ouve numa conversa de
criança é “isso é meu” para cá, e “isso é meu” para lá.
Não
adianta. O ser humano é ruim desde pequenininho. Seja branco, índio ou lilás.